Antes de virar o monólogo que Fernanda Torres sustentou por mais de duas décadas, A Casa dos Budas Ditosos era um volume de pecado. Em 1999, João Ubaldo Ribeiro entregou à série Plenos Pecados o tomo da luxúria: o depoimento de uma velha libertina baiana, CLB, que conta orgia, voyeurismo, sadismo e desejo com a precisão de quem não pede desculpa. O autor avisou que aquilo não era romance, era olhar pelo buraco da fechadura. O aviso funcionou como isca e como método.
O livro marcou época e incomodou. Circulou à larga, cutucou moralista de prateleira e chegou a ser retirado de alguns estabelecimentos. José Castello escreveu que a literatura brasileira ainda não tinha um romance na linhagem do erotismo elegante e radical, e que o texto não era para leitor sem malícia. Nélida Piñon sugeriu a porta da luxúria para quem quisesse entrar na obra de Ubaldo “de forma divertida”, pela provocação, com linguagem indecorosa no melhor sentido. Não é resumo de autoajuda sexual: é invenção de voz.
O que se lê
CLB narra a própria vida erótica com apego ao detalhe. O fascínio, como Fernanda Torres escreveu no prefácio da edição Alfaguara, está na capacidade de fazer ver, cheirar, sentir. Ubaldo é clássico e chulo no mesmo fôlego, cerebral e passional, trágico e cômico. A Bahia aqui não é cartão de turismo nem terreiro genérico: é o chão onde uma mulher velha recusa o papel de recato e transforma memória em espetáculo íntimo. Quem procura “o livro sujo do Ubaldo” encontra isso — e também uma arte da frase que não abre mão do rigor.
O volume é curto. A edição atual da Alfaguara tem 128 páginas. Isso importa: o impacto não vem de catálogo de acasalamento interminável, vem da voz. A série Plenos Pecados pedia um pecado capital por autor; a luxúria caiu com Ubaldo e virou o título da série que o grande público mais associa ao seu nome depois de Getúlio e de Viva o povo. A nova capa, vermelho e azul com o selo de mais de 250 mil exemplares vendidos, diz o óbvio de livraria: o livro cruzou o nicho erótico e virou clássico de circulação.
Do livro ao palco
Em 2004, Domingos Oliveira adaptou o texto para o teatro. Fernanda Torres estreou o monólogo em 2003 e o espetáculo se tornou fenômeno de público, com idas e vindas de temporada e mais de dois milhões de espectadores ao longo dos anos. A atriz assina a apresentação desta edição. Na crônica que publicou na Folha quando Ubaldo morreu, ela lembrou um último encontro em tarde chuvosa — despedida que só depois se revelou despedida. O palco não substitui o livro; amplia o círculo de quem depois quer a página.
Há quem conheça só a peça e descubra que a CLB de papel é ainda mais solta, porque não precisa caber em palco único. Há quem leia o livro e só então entenda por que o monólogo durou tanto: a fala pede corpo. Em qualquer direção, a obra continua sendo a porta mais popular — e a mais mal-entendida — da bibliografia. Não é o Ubaldo da saga nacional. É o Ubaldo da intimidade sem verniz, com a mesma invenção verbal de sempre.
Para quem e com que limite
Indicado a leitor adulto que aceita erotismo explícito, humor e ausência de lição de moral. Ruim para quem quer o Ubaldo professor de Brasil ou o cronista de domingo. Ótimo para quem chega pela Fernanda Torres, pela curiosidade sobre literatura erótica em português ou pelo contraste com Sargento Getúlio e Viva o Povo Brasileiro. A edição Alfaguara de 2019 é a referência corrente em português, com o texto do romance e o aparato de quem já viu o livro virar outro gênero no teatro.
Se a dúvida for “por onde começar João Ubaldo Ribeiro”, Budas é a resposta mais leve em páginas e a mais pesada em recato. Getúlio exige estômago político. Viva o povo exige fôlego. Este pede outra coisa: disposição para ouvir uma mulher que não vai educar ninguém — só contar, com luxúria e método, o que fez da vida.




