No litoral da Bahia, um cientista sorri demais e a cidade começa a falhar. O Sorriso do Lagarto, publicado em 1989 pela Nova Fronteira, é o romance em que João Ubaldo Ribeiro mistura amor, traição, genética e política num Brasil que saía da ditadura e já ensaiava outra fome de modernidade. Não é o livro da saga nacional nem o do jagunço: é o Ubaldo da costa, da clínica e da conspiração, com o humor intacto e a desconfiança em quem promete melhorar a espécie.
O narrador é Dionísio Aurora, jornalista e escritor baiano que investiga fenômenos estranhos numa cidade do litoral. No centro, o doutor Silveira: brilhante, opaco, dedicado a experimentos secretos de manipulação genética — inclusive em humanos. À volta, militares, cientistas, costumes tropicais, sexo e a paisagem que Ubaldo nunca trata como cenário morto. A Alfaguara descreve o livro como história de ambição, amor e ameaças do mundo moderno. A fórmula é justa, desde que se acrescente o veneno: o sorriso do título não é encanto, é disfarce.
Ciência, poder e litoral
O romance antecipa debates de bioética que depois viraram notícia comum — clonagem, melhoramento, controle do corpo — e os planta num chão brasileiro de sincretismo, desigualdade e vigilância. Não é ficção científica de laboratório europeu. É laboratório com mar, fofoca, religião e hierarquia local. A estrutura não linear pede leitor disposto a juntar pista. O narrador é irônico e nem sempre confiável: às vezes investiga, às vezes se deixa cúmplice. Ubaldo já tinha mostrado, em Getúlio, o que faz uma voz enviesada; aqui o viés é o do homem letrado que chega perto demais do poder técnico.
Quem leu Viva o Povo Brasileiro reconhece o gosto pelo excesso e pela sátira. Quem leu só as crônicas de jornal encontra outra temperatura: o lagarto é romance de enredo, com mistério e reviravolta, não ensaio disfarçado. A crítica da época elogiou a ousadia e, ao mesmo tempo, apontou a complexidade como obstáculo ao leitor apressado. O aviso vale até hoje. Não é o Ubaldo mais imediato. É o Ubaldo que testa o quanto a Bahia aguenta de distopia sem perder o sotaque.
A minissérie que espalhou o livro
Em 1991, a Globo transformou o romance em minissérie, com roteiro de Walther Negrão e Geraldo Carneiro e direção de Roberto Talma. Tony Ramos, Maitê Proença e José Lewgoy puxaram o elenco. Ubaldo tinha voltado a morar no Rio naquele mesmo movimento de regresso; a adaptação coincidiu com a reinstalação pública do escritor na cidade. Como quase sempre nesses casos, a televisão alargou o público e simplificou camadas. O livro permanece mais denso, mais ambíguo, menos resolvido em moral de capítulo.
A edição Alfaguara em circulação tem 344 páginas. É o tamanho certo para quem quer um Ubaldo de fôlego médio: maior que Getúlio e que Budas, menor que a saga de 1984. A capa atual — o espiral verde da pele de lagarto — acerta o tom: belo e um pouco sinistro. Quem chega pela reprise da minissérie encontra no volume o que a TV não coube: a frase longa, a ironia fina, a ciência como metáfora de classe e de controle.
Para quem ler agora
Faz sentido para quem gosta de romance político com elemento especulativo, para quem estuda ficção científica brasileira fora do clichê espacial, para quem viu a minissérie e quer o texto, e para quem já conhece Getúlio ou Viva o povo e quer outro ângulo do mesmo autor. Menos indicado a quem busca só o Ubaldo erótico dos Budas ou só o Ubaldo épico da formação nacional. O lagarto é outra espécie: sorri, espera, muda de cor.
A melhor rota de compra em português hoje é a edição da Alfaguara no catálogo da Companhia das Letras. Vale cruzar com os outros romances para ver o que muda e o que não muda: a desconfiança do poder, o gosto pela fala, a Bahia como laboratório. João Ubaldo Ribeiro nunca foi um escritor de um único clima. Este livro é a prova mais nítida — e a que a televisão, paradoxalmente, tornou a mais famosa depois da saga e do sargento.




