Há romances que querem explicar o Brasil e terminam em discurso. Viva o Povo Brasileiro faz o contrário: inventa um país de carne, mito, veneno e salvação, e deixa o leitor decidir se aquilo ainda é o nosso. João Ubaldo Ribeiro começou a escrevê-lo em Itaparica, na casa do avô, com a família em volta e a ilha como oficina. O título original era Alto lá, meu general. O que saiu, em 1984, foi uma saga de cerca de 670 páginas que atravessa três séculos e recusa a História oficial como verdade única.
A epígrafe avisa o método: não existem fatos, só existem histórias. Daí o livro poder misturar invasão holandesa, Guerra da Independência na Bahia, Farroupilha, Paraguai, Canudos, abolição, República e ditadura militar sem virar manual escolar. Os capítulos datam o episódio — “Acampamento de Tuiuti, 24 de maio de 1866”, “Vera Cruz de Itaparica, 20 de dezembro de 1647” — e o narrador salta no tempo quando a linhagem pede. O efeito não é caos: é genealogia.
O que o livro conta
Duas estirpes se entrelaçam. De um lado, o tronco mestiço que começa no caboco Capiroba — canibal de holandeses cuja alma reencarna — e chega à escrava Daê e à filha Maria da Fé, guerrilheira da Milícia do Povo. De outro, o tronco “branco” do barão Perilo Ambrósio, herói fabricado da Independência, e do guarda-livros Amleto Ferreira, que desvia fortuna e troca de nome. No meio, o Nego Leléu, o cego Faustino, os orixás na Batalha de Tuiuti e um par caricatural do século XX, Stalin José e Ioiô Lavínio.
A escravidão não é pano de fundo. O barão mata o cativo Inocêncio e se unta com o sangue para fingir ferimento de guerra. Corta a língua de quem viu demais. Entrega a escrava violentada a um negro de confiança. O livro não economiza a violência física nem a simbólica: elite autoritária, abismo social, privilegio que se disfarça de heroísmo. Ao mesmo tempo, há humor, sexo, feitiçaria, baleia enamorada e a “alminha” que atravessa corpos. Pouca saga brasileira ousou esse mix sem pedir desculpa.
Por que a obra pesa tanto
Lançado em dezembro de 1984, o romance subiu rápido nas listas de mais vendidos. No ano seguinte levou o Prêmio Jabuti de romance e o Golfinho de Ouro do governo do Rio. A crítica da época — de Lúcia Helena a Afrânio Coutinho — viu ficção moderna, não retrato pedagógico: ironia, realismo mágico da Bahia, idas e vindas no tempo, língua brasileira em estado de invenção. Rodrigo Lacerda chegou a lê-lo como súmula da aventura literária nacional até ali, herdeiro do projeto modernista e primo brasileiro de Cem anos de solidão e A guerra do fim do mundo.
Ubaldo traduziu o próprio livro para o inglês. A filha Emília lembra que a tradução durou mais do que a escrita. A obra circulou em alemão, francês, espanhol, italiano, hebraico, holandês, finlandês e outras línguas. A Império da Tijuca a transformou em samba-enredo no carnaval de 1987. Décadas depois, André Paes Leme e Chico César levaram trechos ao palco em forma de musical. A nova edição da Alfaguara, com capa de Kiko Farkas, devolve o texto a um formato de livraria contemporânea sem aliviar o volume: são 680 páginas de brochura.
Para quem faz sentido
Não é livro de uma tarde. Faz sentido para quem quer romance histórico sem tesoura escolar, para quem estuda formação do Brasil, para quem já leu Sargento Getúlio e quer o Ubaldo em escala épica, e para quem busca na literatura brasileira uma alternativa às sagas que só olham o Sudeste. Quem precisa de porta menor pode começar por Getúlio ou pelos Budas; quem quer o arquivo inteiro entra por aqui.
A leitura pede fôlego e ouvido para a oralidade. Há personagens demais para um resumo de contracapa, e essa é a graça: o povo do título não é massa anônima, é gente com nome, apelido, crime e reza. Se a pergunta for “qual o livro de João Ubaldo Ribeiro que explica o autor”, a resposta mais honesta continua sendo esta saga — não porque seja a mais fácil, mas porque é a que ele tratou como pedra angular da própria vida literária.




