Arievaldo Viana tinha dez anos quando começou a escrever os primeiros versos, em 1977, na fazenda Ouro Preto, município de Madalena, no Sertão Central do Ceará. Aprendeu a ler com a ajuda dos folhetos de cordel que o pai, o agricultor Evaldo Lima, e a avó, Alzira Vianna de Sousa Lima, liam em voz alta para as crianças da casa. Dessa infância à luz de lamparina saiu uma obra que atravessa mais de 100 folhetos, cerca de vinte livros, histórias em quadrinhos, programas de televisão educativa e um projeto de alfabetização baseado na poesia popular.
Radialista, ilustrador, xilogravador, chargista e publicitário, Arievaldo fez do cordel um ofício completo: escrevia, desenhava, editava, vendia e ensinava. Morreu em Fortaleza, em 30 de maio de 2020, aos 52 anos, por causa de uma infecção bacteriana, quando ainda mantinha ativos os dois blogs em que publicava crônicas, cordéis e memórias. O que ficou é uma obra presente em folhetos de feira, livros infantis, álbuns de quadrinhos e nas salas de aula onde professores usam seus versos para ensinar a ler.
Quem foi Arievaldo Viana
Nascido em 18 de setembro de 1967, Arievaldo Viana Lima foi criado no sertão cearense em contato com os romances e pelejas que circulavam de boca em boca. Ainda adolescente, colaborou com o Jornal de Canindé e, em seguida, com o Caderno de Domingo do jornal O Povo, de Fortaleza. Em 1983, começou a publicar os primeiros folhetos. Três anos depois, ao lado do poeta Gonzaga Vieira, lançou Canindé – Cidade da Fé, álbum que misturava história em quadrinhos e cordel e teve tiragem de 10 mil exemplares, esgotada em menos de dois anos.
Com o irmão, o também cordelista Klévisson Viana, criou o fanzine Tramela e assinou cerca de 30 folhetos em parceria. Escreveu ainda a quatro mãos com Pedro Paulo Paulino, Jota Batista, Zé Maria de Fortaleza, Rouxinol do Rinaré e Marco Haurélio, entre outros. Como ilustrador, produziu capas para cordéis da editora Luzeiro, de São Paulo, assinando trabalhos de autores novos e de clássicos como Francisco Sales Arêda e João Melchíades Ferreira da Silva.
Da Coleção Cancão de Fogo ao renascimento do folheto
No fim da década de 1990, quando o fechamento das grandes editoras de cordel ameaçava o gênero, Arievaldo lançou a Coleção Cancão de Fogo, uma caixinha de folhetos que se tornou sucesso de vendas e de crítica e ajudou a reanimar a produção de cordel no país. O irmão, Klévisson, fundou em 1995 a editora Tupynanquim, que passou a editar folhetos e quadrinhos e abriu espaço para uma geração de poetas.
Acorda Cordel na Sala de Aula
Em 2000, Arievaldo lançou em Canindé o projeto Acorda Cordel na Sala de Aula, que usa a poesia popular na alfabetização de jovens e adultos. A iniciativa foi adotada pela Secretaria de Educação, Cultura e Desporto de Canindé e por outros municípios brasileiros. Em 2005, a apostila virou livro, com folhetos e um CD que reúne gravações de Geraldo Amâncio, Zé Maria de Fortaleza, Mestre Azulão e do próprio autor; a segunda edição saiu em 2010.
Ao lado disso, atuou como redator e consultor de uma série sobre literatura de cordel no programa Salto para o Futuro, da TV Escola, e percorreu o país ministrando palestras, oficinas e recitais para estudantes, educadores e estudiosos. Participou ainda, com Dominguinhos, Assis Ângelo e Sinval Sá, de um documentário da TV Câmara sobre o centenário de Luiz Gonzaga.
Academia, prêmios e reconhecimento
Em 2000, foi eleito para a cadeira nº 40 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), cujo patrono é o poeta João Melchíades Ferreira da Silva. Dois anos depois, conquistou o Prêmio Domingos Olímpio de Literatura, da Prefeitura de Sobral, com uma adaptação do romance Luzia Homem para o cordel.
- Cadeira nº 40 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, com patrono João Melchíades Ferreira da Silva.
- Prêmio Domingos Olímpio de Literatura, em 2002, pela versão em cordel de Luzia Homem.
- Troféu HQ Mix de 2004, categoria melhor edição especial nacional, pela adaptação em quadrinhos de A moça que namorou com o bode.
- Obras selecionadas para o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Ministério da Educação.
Quadrinhos e a parceria com Jô Oliveira
Boa parte da produção de Arievaldo para o público infantojuvenil nasceu da parceria com o ilustrador pernambucano Jô Oliveira. Juntos, criaram álbuns que transformam clássicos e temas brasileiros em verso e imagem, como História do Navegador João de Calais e sua Amada Constança (FTD, 2010), A peleja de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau e O coelho e o Jabuti (Globo Livros), O Rei do Baião (Planeta), A ambição de Macbeth e a maldade feminina (Cortez) e Otelo e Desdêmona (Pallas).
Em 2014, publicou a biografia Leandro Gomes de Barros – Vida e Obra, dedicada a um dos maiores nomes da literatura de cordel. Em 2016, veio Sertão em Desencanto, primeiro volume de memórias em que reconta a história da própria família e último livro lançado em vida. No ano seguinte, assinou com Stélio Torquato Lima o cordel Santaninha, um Poeta Popular na Capital do Império.
Como morreu Arievaldo Viana
Arievaldo Viana morreu em 30 de maio de 2020, em Fortaleza, aos 52 anos, vítima de uma infecção bacteriana. Na época, mantinha os blogs Mala de Romances e Acorda Cordel, onde reunia cordéis, crônicas e textos sobre a cultura nordestina, e defendia a criação de cordeltecas — bibliotecas dedicadas ao folheto — em cidades do Ceará.
Onde encontrar a obra de Arievaldo Viana
Os livros de Arievaldo Viana circulam em livrarias, feiras de cordel e edições didáticas adotadas por escolas. Parte da obra infantojuvenil continua disponível em catálogos de editoras como Globo Livros, FTD, Cortez e Planeta, e seus cordéis são referência em estudos de literatura popular brasileira e de literatura de cordel. Os blogs oficiais seguem no ar como arquivo de sua produção.






