Balduíno Rambo nasceu em 11 de agosto de 1905, em Tupandi, então distrito de Montenegro, no Rio Grande do Sul, e morreu em 12 de setembro de 1961, aos 56 anos. Em três décadas de trabalho como padre jesuíta, professor e pesquisador, organizou um herbário com dezenas de milhares de exemplares, descreveu a paisagem do estado em um tratado que continua consultado e participou diretamente da criação de áreas naturais protegidas no sul do Brasil.
Quem pesquisa o nome encontra caminhos distintos: a assinatura botânica "Rambo" em nomes científicos, o Herbarium Anchieta, o livro A Fisionomia do Rio Grande do Sul ou o Parque Nacional dos Aparados da Serra, cuja criação contou com sua articulação. Este perfil reúne a trajetória do religioso que atravessou ciência, magistério, jornalismo e literatura sem separar essas frentes.
Quem foi Balduíno Rambo
Filho de Nicolau Rambo e Gertrudes Vier, ingressou em 1923 no noviciado dos jesuítas, em Pareci Novo. Cursou Filosofia em Pullach, perto de Munique, na Alemanha, e aproveitava os dias de folga para excursões científicas cujos resultados saíram em revistas alemãs e brasileiras. De volta ao Brasil em 1931, tornou-se professor de História Natural no Colégio Anchieta, em Porto Alegre, onde viveu a maior parte da vida. Estudou Teologia no Seminário Conceição, em São Leopoldo, e ordenou-se sacerdote aos 30 anos.
Em 1940, ajudou a fundar a cátedra de Antropologia e Etnografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Também lecionou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Leopoldo, instituição que daria origem à Unisinos. Manteve, ao longo de toda a carreira, um diário iniciado em 1919 e interrompido apenas com a morte, em 1961.
O herbário, a botânica e o Instituto Anchietano
As coletas botânicas começaram em 1931 e deram origem ao Herbarium Anchieta (PACA), fundado em 1932. Rambo atuava como coletor, preparador e curador do acervo, que na época de sua morte reunia cerca de 65 mil exemplares, com aproximadamente 3.600 espécies nativas — quase todas as conhecidas no Rio Grande do Sul naquele período.
A determinação do material contava com a ajuda do major Karl Emrich, que durante anos subia ao sótão da capela do Colégio Anchieta para identificar as amostras e registrava o trabalho em aquarelas. Rambo publicou 40 trabalhos botânicos em revistas científicas e deixou 14 manuscritos prontos, com 930 páginas, sobre famílias de plantas de seu herbário. Também conservou e editou parte dos manuscritos e da coleção de fungos do padre Johannes Rick, publicados na revista Iheringia, do Museu Riograndense de História Natural.
Como trabalhava
Rambo distribuía o tempo segundo um plano rígido e preferia o trabalho de campo a congressos longos. Nas viagens, mantinha lápis e caderno de apontamentos sempre à mão; nos sobrevoos, alternava a máquina fotográfica e as anotações. A cada três meses, revisava pessoalmente planta por planta o herbário, por considerar mais eficiente fazer o trabalho ele mesmo do que delegá-lo.
Em 1956, com um grupo de jesuítas, fundou o Instituto Anchietano de Pesquisas, em São Leopoldo, e dois anos depois assumiu a direção da revista Pesquisas. O herbário e o arquivo de Rambo estão preservados nessa instituição, ligada à Unisinos.
A Fisionomia do Rio Grande do Sul
Publicada em 1942, A Fisionomia do Rio Grande do Sul é um tratado geral sobre a paisagem natural do estado, resultado de dezenas de milhares de quilômetros percorridos por terra e em pequenos aviões. O livro reúne mapas e 30 ilustrações paisagísticas feitas a partir de fotografias aéreas tiradas pelo próprio autor, que sobrevoava o território com uma máquina fotográfica em uma mão e o caderno de anotações na outra.
Essa prática fez de Rambo um precursor do mapeamento aéreo que, mais tarde, daria origem à cartografia sistemática do território e aos levantamentos por imagens de satélite. A obra ganhou novas edições ao longo das décadas — pela Livraria Selbach, em 1956, e pela Editora Unisinos, em 1994 e em edição posterior — e continua sendo consultada por pesquisadores da vegetação, do relevo e da ocupação do estado.
Itaimbezinho, jardim botânico e defesa da natureza
Por sua intervenção junto ao Serviço Florestal da Secretaria da Agricultura, a região do Itaimbezinho, em Cambará do Sul, foi transformada no Parque Nacional dos Aparados da Serra. Rambo também se empenhou na fundação do Jardim Botânico de Porto Alegre e nos estudos que levaram ao Jardim Zoológico de Sapucaia do Sul e ao Horto Florestal, hoje reunidos no Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul.
Em seus escritos de divulgação e nos relatórios científicos, chamou atenção para problemas ecológicos que começavam a aparecer no estado, muito antes de o tema entrar na pauta pública brasileira.
Professor, gestor e jornalista
A partir de 1954, Rambo dirigiu a Seção de Ciências Naturais da Divisão de Cultura da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul e o Museu Riograndense de História Natural. Foi também redator da Sankt Paulusblatt, revista católica em língua alemã voltada à formação e à informação dos colonos teuto-brasileiros, uma das publicações mais antigas do gênero no país e que segue circulando.
Em 1959, a convite do governo dos Estados Unidos, passou três meses visitando museus, parques nacionais e institutos de ciências naturais, e registrou as observações em cerca de mil laudas. No ano seguinte, viajou quatro meses pela Alemanha, também a convite do governo, anotando visitas e contatos no diário que mantinha desde a juventude.
O diário e a obra literária
Rambo considerava o diário, escrito de 1919 a 1961, sua maior obra literária e científica. Parte desses escritos foi publicada em Em Busca da Grande Síntese, lançado pela Editora Unisinos em 1994. Os relatos de campo chegaram ao público mais tarde, em Viagens ao Sudoeste do Rio Grande do Sul (Editora UFSM, 2014) e Três Meses na América (Editora UFSM, 2015).
Na ficção, publicou o romance Vida por Vida, pelas Edições Paulinas, em 1960. Outro romance, Drei Jahre auf dem Mars, saiu postumamente em 1987. Seus escritos acompanham a mesma Porto Alegre em que Erico Verissimo firmava sua obra de ficção e Mário Quintana publicava os primeiros versos.
Como Balduíno Rambo é lembrado hoje
A herança do padre Rambo aparece em acervos, nomes científicos e espaços públicos:
- Herbarium Anchieta (PACA), criado por ele e preservado no Instituto Anchietano de Pesquisas/Unisinos, em São Leopoldo;
- Herbário Padre Balduíno Rambo (HPBR), criado em 1985 na URI, em Erechim, que guarda duplicatas coletadas e determinadas por ele;
- abreviatura botânica "Rambo", usada no IPNI para indicar as espécies que descreveu;
- Eleocharis ramboii, planta da família das ciperáceas batizada em sua homenagem;
- Rua Padre Balduino Rambo, no bairro Parque Santo Inácio, em Esteio (RS).
Grande parte do que se sabe sobre a flora e a paisagem do Rio Grande do Sul passou pelas mãos de Balduíno Rambo: os exemplares que coletou e classificou, os textos que publicou e as áreas naturais que ajudou a proteger seguem disponíveis para consulta e visitação.





