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Consuelo de Castro

Nascimento: 1946 Araguari, Minas Gerais
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Dramaturga mineira radicada em São Paulo, premiada por À Flor da Pele e Caminho de Volta, escreveu para teatro e TV e teve a estreia proibida pela censura.

Consuelo de Castro escreveu aos 22 anos a peça que o Teatro Oficina queria montar em 1968 — e viu o texto ser proibido pela censura antes de chegar ao palco. O episódio, nascido do movimento estudantil que ela mesma viveu na Universidade de São Paulo, marcou a estreia de uma das autoras mais premiadas da dramaturgia brasileira e definiu o tom de uma obra escrita sempre no limite entre o desejo e a ruptura.

Consuelo de Castro Lopes nasceu em Araguari, Minas Gerais, em 1946, e morreu em São Paulo em 30 de junho de 2016. Entre À Flor da Pele, encenada pela primeira vez em 1969, e a novela Ribeirão do Tempo, exibida pela Record entre 2010 e 2011, ela atravessou teatro, publicidade, jornalismo e televisão. É essa travessia — do texto barrado pela ditadura ao horário nobre — que explica por que o nome dela continua sendo procurado por quem estuda dramaturgia, literatura e teledramaturgia no Brasil.

Quem foi Consuelo de Castro?

Nascida no interior de Minas Gerais, Consuelo de Castro Lopes passou a adolescência em São Paulo, onde cursou Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Nos anos 1960, participou ativamente do movimento estudantil, experiência que se tornaria matéria-prima do seu primeiro texto.

Ela começou a escrever no fim daquela década trazendo para a cena personagens da classe média em conflitos éticos, interessada nos valores pessoais e sociais que os colocavam em choque. Antes de viver de teatro, foi publicitária e redatora da Editora Abril e escreveu para jornais e revistas — vivência que reaparece em pelo menos uma de suas peças mais conhecidas, ambientada no mundo das agências de publicidade.

Consuelo morreu em São Paulo, aos 70 anos, em 2016, deixando uma obra teatral que a crítica da época já lia como uma das mais volumosas e diversificadas de sua geração. Também deixou um livro infantil inédito, Histórias para a Vovó Dormir, escrito a partir das histórias contadas pelo neto, Antônio.

Como a censura marcou a estreia de Consuelo de Castro no teatro?

O texto de estreia, escrito em 1968, tinha como assunto a agitação política, seus líderes e a escola: era Prova de Fogo, peça cogitada para montagem pelo Teatro Oficina e proibida pela censura em seguida. Sem palco, o texto circulou em versões clandestinas e leituras durante anos.

Em 1974, a peça foi premiada pelo Serviço Nacional de Teatro com o título A Invasão dos Bárbaros, mas a primeira montagem só aconteceu em 1993, dirigida por Aimar Labaki, no próprio edifício que a obra retrata ficcionalmente. O episódio liga Consuelo a uma geração inteira de dramaturgos que teve a escrita atravessada pela ditadura militar — a mesma geração em que Augusto Boal se tornaria uma das referências centrais.

Quais peças e prêmios marcaram a carreira dela?

O primeiro texto a ser encenado foi À Flor da Pele, de 1969: um debate agudo entre uma jovem atriz e seu professor, envolvidos em um caso de amor tumultuado, que rendeu à autora o Prêmio da Associação Paulista de Críticos Teatrais (APCT) e ganhou diversas montagens pelo país.

Em Caminho de Volta, montada por Fernando Peixoto em 1974, ela levou ao palco o ambiente das agências de publicidade, em que as crises financeiras de uma empresa detonam também crises pessoais na equipe. A peça rendeu a Consuelo os prêmios Molière, APCT e Governador do Estado de melhor autora — o Molière foi recebido em Paris, quando ela estava grávida de oito meses.

Entre as obras mais conhecidas de sua produção estão:

  • À Flor da Pele (1969), seu primeiro texto encenado, premiado pela APCT;
  • Caminho de Volta (1974), vencedora do Molière e do APCT;
  • A Cidade Impossível de Pedro Santana (1975), vencedora do Concurso de Dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro;
  • O Grande Amor de Nossas Vidas, montada por Gianni Ratto em São Paulo (1979) e no Rio de Janeiro (1980);
  • Medéia: Memórias do Mar Aberto (1997), leitura pública no auditório da Folha de S.Paulo e encenação posterior;
  • Only You, montada em 2000 sob direção de José Renato;
  • Mel de Pedra, texto curto sobre o abismo entre o sonho e a realidade.

O que é Medéia: Memórias do Mar Aberto?

É a versão de Consuelo para o mito grego de Medeia. Na sua leitura, a personagem toma o lugar de Jasão e chefia a expedição dos argonautas — não por amor a ele, mas pelo ideal de paz entre os povos do Ocidente e do Oriente. O texto foi lido no auditório da Folha de S.Paulo em 1997 e ganhou os palcos em 2004.

O que a autora fez além do teatro autoral?

Nos anos 1980, Consuelo retraduziu e adaptou Hair para a remontagem dirigida por Antônio Abujamra, em 1987, e escreveu o roteiro de dança-teatro Uma Caixa de Outras Coisas para a bailarina Clarice Abujamra. Na década seguinte, ministrou cursos de dramaturgia no Brasil e em Cuba. Também escreveu especiais para a televisão, atividade que ganhou peso crescente na reta final da carreira.

O que Consuelo de Castro escreveu para a televisão?

Na TV, assinou a novela Um Homem Muito Especial, exibida pela Rede Bandeirantes, assumindo o texto que antes era de Rubens Ewald Filho. Já Ribeirão do Tempo, trama rural exibida pela Record entre maio de 2010 e maio de 2011, em 250 capítulos, foi escrita por Marcílio Moraes com a colaboração de Consuelo, Joaquim Assis e Paula Richard, e direção de Edgard Miranda.

A passagem pela teledramaturgia não substituiu o teatro na obra dela, mas ampliou o alcance do nome de Consuelo para um público que não frequentava salas de espetáculo — e ajuda a explicar buscas que misturam curiosidade biográfica e interesse pela novela.

Quais livros reúnem a obra de Consuelo de Castro?

Em 1989, a Editora Perspectiva publicou Urgência e Ruptura, volume que reúne as principais peças de Consuelo de Castro. O título vem dos dois polos de tensão que atravessam a obra: a urgência e a ruptura das existências capturadas em cena, nos momentos em que tudo nelas e em torno delas está se rompendo.

Mais de vinte anos depois, a Giostri Editora levou ao público Três Histórias de Amor e Fúria (2014), formado por Only You, Memórias do Mar Aberto: Medéia Conta Sua História e Mel de Pedra. Os dois volumes, guardadas as diferenças de recorte, funcionam como portas de entrada distintas para a dramaturgia da autora: um organiza a produção premiada das primeiras décadas, o outro reúne três peças que discutem paixão, política e desejo.

Como a obra de Consuelo de Castro foi recebida?

O crítico Yan Michalski, autor da Pequena enciclopédia do teatro brasileiro contemporâneo, escreveu que Consuelo era talvez a autora com o corpo de obra mais volumoso e diversificado entre os dramaturgos surgidos sob a ditadura, destacando o inconformismo como marca comum à geração e, como traço próprio dela, uma "visceral noção de teatralidade" e um diálogo criado com "espantosa espontaneidade".

A avaliação ajuda a entender por que a obra dela segue sendo lida por estudantes de teatro, diretores e pesquisadores da cultura brasileira — e por que peças escritas nos anos 1960 e 1970 continuam encontrando montagens e leituras décadas depois. Quem procura a dramaturgia brasileira feita sob censura encontra em Consuelo uma autora de diálogo rápido, conflito concentrado e recusa do conformismo.

Onde encontrar a obra e o acervo de Consuelo de Castro?

Parte dos livros está disponível em sebos e edições de segunda mão, encontrados em plataformas como a Amazon, que mantém um perfil da autora. O verbete da Enciclopédia Itaú Cultural reúne fichas de 33 obras e registros de espetáculos, e o depoimento gravado por Consuelo para o projeto Memória Oral, da Prefeitura de São Paulo, está disponível em PDF no acervo da Biblioteca Mário de Andrade.

Fotografias de Consuelo no período entre 1975 e 1979 fazem parte do acervo do extinto jornal "Aqui São Paulo", sob a guarda do Arquivo Público do Estado de São Paulo, que digitalizou parte do material. Para quem quer começar pela leitura, as coletâneas de teatro são o caminho mais direto; para quem pesquisa a literatura e a dramaturgia do período, o acervo de imagens e os depoimentos completam o retrato.

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Urgência e Ruptura
Urgência e Ruptura
Coletânea publicada pela Editora Perspectiva em 1989, reúne as principais peças de Consuelo de Castro, escritas entre a censura dos anos 1970 e a abertura política.
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