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Dilermando de Assis

Nascimento: 1888 Porto Alegre, RS
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General do Exército, engenheiro e escritor, Dilermando de Assis (1888–1951) ficou marcado pela Tragédia da Piedade e escreveu livros em defesa própria.

Quem pesquisa Dilermando de Assis quase sempre chega pelo crime: em 15 de agosto de 1909, ele matou a tiros o escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, na casa onde morava no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro. O episódio ficou conhecido como Tragédia da Piedade e transformou o jovem militar em um dos nomes mais condenados pela imprensa brasileira do início do século XX.

O que a alcunha esconde é uma trajetória longa: Dilermando foi general do Exército, engenheiro responsável pelo plano rodoviário do Estado de São Paulo na década de 1930, diretor do Departamento de Estradas de Rodagem e do Instituto Geográfico e Cartográfico, atirador premiado e escritor. Morreu em 1951, aos 63 anos, deixando dois livros em que tentou desmontar a imagem que se firmou sobre ele. Esta página reúne o que as fontes públicas confirmam sobre uma vida dividida entre a farda, as estradas e a memória de um duelo.

Quem foi Dilermando de Assis

Dilermando Cândido de Assis nasceu em Porto Alegre, em 18 de janeiro de 1888, filho de João Candido de Assis, primeiro-tenente do Exército, e de Joaquina Carolina de Assis. Ficou órfão cedo: o pai morreu em 1892 e a mãe em 1904. Cresceu com o irmão mais novo, Dinorah de Assis, que se tornaria jogador do Botafogo.

A carreira militar começou na Escola Militar. Em 1905, aos 17 anos, Dilermando participou de uma missão de reconhecimento do Alto Purus, na fronteira entre Brasil e Peru, região onde Euclides da Cunha chefiava trabalhos de demarcação. Foi nesse período que começou o romance com Ana Emília Ribeiro, a esposa do escritor, então com 33 anos. O caso durou quatro anos e gerou dois filhos do casal.

Formou-se em 1908 e chegou a tenente. Serviu em cidades de vários estados, foi promovido sucessivamente e terminou a carreira como general. No tiro desportivo, conquistou medalha de ouro nos Jogos Olímpicos Latino-Americanos de 1922, no Rio de Janeiro, na prova de 300 metros com fuzil militar.

A Tragédia da Piedade e o julgamento de 1911

Em 15 de agosto de 1909, um domingo, Euclides da Cunha foi até a casa de Dilermando e Dinorah, na Estrada Real de Santa Cruz, e entrou armado, dizendo que vinha "para matar ou morrer". Atingiu Dinorah e feriu Dilermando várias vezes. Mesmo baleado, o tenente reagiu e matou o escritor. Euclides morreu no local, e o corpo foi velado na Academia Brasileira de Letras.

O inquérito apontou legítima defesa, mas a imprensa e a opinião pública já haviam condenado o militar. O jornalista Orestes Barbosa foi um dos poucos a defender sua versão. Dilermando foi levado a júri popular e absolvido. Em 12 de maio de 1911, dias depois da decisão, casou-se com Ana, que enviuvara. O casal teve cinco filhos e morou em Bagé, onde a casa se tornou ponto de encontro cultural da cidade.

O segundo atentado e a morte de Quidinho

Em 4 de julho de 1916, Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, então com 21 anos, foi até um cartório do Rio de Janeiro para vingar o pai. Atirou em Dilermando pelas costas. Ferido, ele reagiu e matou o enteado. Um novo júri o absolveu, mas a imprensa o condenou outra vez e o estigma se fixou de vez.

A tragédia também destruiu Dinorah. Ferido no episódio de 1909, ele perdeu os movimentos aos poucos, chegou a jogar pelo Botafogo e a ser campeão carioca de 1910, mas viveu anos de depressão antes de se suicidar em 1921, em Porto Alegre.

O engenheiro das estradas de São Paulo

Depois de deixar o Rio, Dilermando reconstruiu a carreira em São Paulo. Comandou uma força de provisórios na Campanha do Paraná, em 1924, na região de Guaíra, e, durante a Segunda Guerra Mundial, comandou por cerca de seis meses o 7.º Grupo Móvel de Artilharia de Costa, em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, o que lhe rendeu o título de ex-combatente.

Como engenheiro, assinou o plano rodoviário do Estado de São Paulo na década de 1930 e dirigiu o Departamento de Estradas de Rodagem. Elaborou projetos para escolas públicas, foi diretor do Instituto Geográfico e Cartográfico de São Paulo e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. É a parte da biografia menos associada ao crime da Piedade — e a que mais marcou a paisagem paulista do período.

Casamento, família e últimos anos

Separado de Ana em 1926, Dilermando passou a viver com Maria Antonieta de Araújo Jorge, a Marieta, com quem teve a filha única, a escritora Dirce de Assis Cavalcanti. A união foi cercada de segredo pela família dela e só foi oficializada em 1951, quando Dilermando já estava acamado e Ana havia morrido meses antes.

Ele morreu em São Paulo, em 13 de novembro de 1951, de infarto. O sepultamento no Cemitério do Santíssimo Sacramento foi negado pela irmandade por causa do passado; o corpo foi enterrado primeiro no Cemitério São Paulo e anos depois transferido para o jazigo da família, onde estão os pais e o irmão Dinorah.

O que Dilermando de Assis escreveu

Os dois livros que publicou foram escritos para defender sua versão dos fatos. O primeiro saiu em 1946, em parceria com Ângelo Cibelá, e reuniu textos publicados logo depois do crime, entre eles "Uma tragédia de Ésquilo", do escritor Monteiro Lobato. O segundo, lançado no ano de sua morte, é um libelo de autodefesa com quase 700 páginas.

  • Um Nome, uma Vida, uma Obra (1946), em parceria com Ângelo Cibelá, reúne defesas e artigos da época da tragédia.
  • A Tragédia da Piedade: mentiras e calúnias da "Vida dramática de Euclides da Cunha" (Edições O Cruzeiro, 1951) responde ao livro de Eloy Pontes e analisa as provas periciais dos dois processos.

No segundo livro, Dilermando revisa os autos, contesta a versão da acusação e faz uma crítica minuciosa de Os Sertões, apontando erros e supostos plágios do escritor. Farias Brito, filósofo e amigo, chegou a aconselhá-lo a não publicar — a ideia, escreveu ele em carta, era digna, mas o melhor seria "deixar o passado em silêncio".

Maçonaria e as disputas do fim da vida

Dilermando também foi maçom e defensor da maçonaria tradicional. Nos anos 1940, tornou-se um dos críticos mais duros do grão-mestre Joaquim Rodrigues Neves, cuja gestão provocou uma cisão na instituição no Brasil. O episódio e as disputas internas são narrados com detalhes em A Tragédia da Piedade, que mistura memória pessoal e polêmica institucional.

Como a história de Dilermando de Assis é discutida hoje

A memória do caso segue viva em livros, séries e reportagens. A historiadora Mary Del Priore publicou em 2009 Matar para não morrer: a morte de Euclides da Cunha e a noite sem fim de Dilermando de Assis, e a organizadora Walnice Nogueira Galvão reuniu os autos do processo em Crônica de uma tragédia inesquecível. Em 1990, a minissérie Desejo, da Rede Globo, levou a história para a televisão, com Guilherme Fontes no papel de Dilermando. Em 2019, uma reportagem da BBC News Brasil apresentou a luta de sua filha, Dirce de Assis Cavalcanti, para retirar do nome do pai a palavra "assassino" — ela publicou o livro O Pai pela Ateliê Editorial.

Para quem se interessa por memorialistas, biografias e escritores brasileiros, vale navegar pela categoria de literatura do site e comparar como outras figuras do período construíram suas versões públicas. No caso de Dilermando, a absolvição jurídica nunca coincidiu com o veredito da opinião pública — e é essa distância entre Justiça e memória que mantém o nome dele em circulação.

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A Tragédia da Piedade
A Tragédia da Piedade
Livro de 1951 em que Dilermando de Assis rebate o relato de Eloy Pontes, analisa as provas dos dois processos e defende sua versão da morte de Euclides da Cunha.
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