Eduardo Alves da Costa é o autor de um dos poemas mais repetidos da resistência brasileira — e, ao mesmo tempo, um dos mais cercados de autoria errada. "No caminho, com Maiakóvski" circulou por décadas como se fosse obra do poeta soviético Vladimir Maiakóvski, do dramaturgo Bertolt Brecht ou do romancista Gabriel García Márquez. O autor verdadeiro é este poeta, escritor e pintor nascido em Niterói, em 6 de março de 1936, e criado em São Paulo desde os dois meses de idade.
Quem chega até ele pelo poema encontra uma trajetória que atravessa mais de setenta anos: as Noites de Poesia do Teatro de Arena, o movimento dos Novíssimos, a militância no PCB, a prisão no DOPS em 1972, mais de vinte livros publicados e uma produção pictórica exposta na Europa e em museus brasileiros. Aos 90 anos, segue escrevendo — em 2025 lançou o poema épico Eudisseia.
Quem é Eduardo Alves da Costa
Filho de uma família que trocou Niterói por São Paulo quando ele ainda era bebê, Eduardo Alves da Costa começou a escrever poesia na adolescência. Em entrevista à CNN Brasil, em dezembro de 2025, contou que decidiu ser poeta aos 14 anos, quando escreveu "A Dança dos Esqueletos", poema longo que considerava perdido. A vocação precoce virou ofício: em 1960, organizou no Teatro de Arena, em São Paulo, as Noites de Poesia, que projetaram jovens autores do período. Dois anos depois, participou do movimento dos Novíssimos, ligado à editora Massao Ohno.
Formou-se em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, mas nunca exerceu a advocacia. Ganhou a vida como redator nas agências Proeme e Supar, copidesque nos jornais O Globo e Última Hora, editor de textos na Editora Abril — onde trabalhou nas revistas Pop e Intervalo 2000 — e gerente de redação do Círculo do Livro. Entre 1996 e 1998, foi cronista do Diário Popular. A passagem pela imprensa e pelo mercado editorial aparece na prosa direta que a crítica reconhece em seus contos e romances.
Em 1972, durante a ditadura militar, foi preso por subversão. Membro do Partido Comunista Brasileiro, passou cerca de vinte dias no DOPS, o Departamento de Ordem Política e Social, sendo oito deles incomunicável em uma solitária, como relatou em entrevista publicada pela Outras Palavras. Na época, morava em um hotel na Boca do Lixo, no centro de São Paulo.
O poema que o país leu sem saber de quem era
Escrito na década de 1960 como reação à violência da ditadura, "No caminho, com Maiakóvski" ganhou circulação nacional justamente quando sua autoria se perdeu. O equívoco começou quando o psicanalista Roberto Freire incluiu os versos como epígrafe de um livro, creditando-os ao poeta russo e apresentando o autor brasileiro como tradutor. Durante a campanha das Diretas Já, o texto apareceu em camisetas, cartazes e cartões-postais — quase sempre assinado por outra pessoa. Com a internet, a confusão se multiplicou: os versos foram atribuídos também a Brecht, a García Márquez e a outros nomes.
A correção veio em 2003, quando a novela Mulheres Apaixonadas, da TV Globo, levou o poema ao ar em uma cena lida pela atriz Christiane Torloni, desta vez com o crédito correto. O trecho mais conhecido atravessou gerações:
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
O poema deu nome ao livro que reuniu sua produção poética em 1985 e continua sendo a porta de entrada mais comum para a obra. A trajetória completa, no entanto, é maior que o poema.
Prosa, poesia e os livros para crianças
A estreia em livro veio em 1960, com Fátima e o velho, seguida pelo volume de poemas Salamargo (1962). Nas décadas seguintes, publicou romances, contos e poesia em ritmo constante: Chongas (1974), A sala do jogo (1989), Memórias de um assoviador (1994), Cem gramas de Buda (2015) e Oriente próximo, extremo oriente (2021). Em 1980, assinou seis livros infantis sob o pseudônimo Dudu Calves, publicados pela Melhoramentos.
Principais títulos da obra:
- Fátima e o velho — contos, 1960
- Salamargo — poesia, 1962
- Chongas — romance, 1974
- No caminho, com Maiakóvski — poesia, 1985
- A sala do jogo — contos, 1989
- Cem gramas de Buda — contos, 2015
- Eudisseia — poema épico, 2025
Participou de antologias como Rubem Braga – a poesia é necessária (2015), dedicada ao cronista Rubem Braga, e de coletâneas que marcaram a poesia brasileira dos anos 1960.
A pintura como segundo ofício
Em 1982, depois de anos frequentando o ateliê do pintor Mário Gruber, Eduardo Alves da Costa começou a pintar. O trabalho rendeu exposições na Galeria Dina Vierny, em Paris (1999), na Embaixada do Brasil em Haia (2000) e em galerias de Amsterdã, Berlim e Antuérpia. No Brasil, mostrou telas na Pinacoteca de São Paulo e no Museu Nacional, em 2002. No ano seguinte, o Museu de Arte do Parlamento de São Paulo apresentou um conjunto de suas composições surrealistas.
Entre 2009 e 2010, fez residências artísticas com ateliê em Velletri, na Itália, e em Montmartre, em Paris. Ele descreve a pintura como atividade complementar à escrita.
O que a crítica diz sobre sua obra
A recepção crítica acompanha o autor desde os primeiros livros. Na apresentação de Chongas, o filólogo Antonio Houaiss destacou a escrita "idealmente aliciante" do romance de estreia. Sobre a poesia, a crítica Elvira Foeppel observou, no verbete da Enciclopédia Itaú Cultural, o "verso elástico e descritivo", feito de "explosões sem rima, sem fórmulas métricas", que predispõe o autor "ao caminho da prosa".
Onde está a obra hoje
Morador de Picinguaba, no litoral norte de São Paulo, Eduardo Alves da Costa mantém a rotina de escrita e pintura. Em 2025, publicou Eudisseia, poema épico de 448 páginas inspirado na Odisseia e lançado em evento em São Paulo, e foi tema de perfil da CNN Brasil em dezembro daquele ano. Edições recentes de seus livros circulam pela Geração Editorial, pela SESI-SP Editora e pela Faria e Silva, que reeditou parte de sua ficção e de sua poesia.
Sobre o que move sua obra, ele resumiu em entrevista: "A grande aventura do homem hoje não é ir à lua. A grande aventura é o outro."






