Horas antes de morrer, na noite de 19 de dezembro de 1990, Rubem Braga entregou a O Estado de S. Paulo a crônica “A paz de Santa Maria de Maricá”. Era o último texto de quase sessenta anos de ofício diário: o primeiro, sem título, tinha saído no Diário da Tarde de Belo Horizonte em 14 de março de 1932. Entre uma data e outra, o capixaba de Cachoeiro de Itapemirim fez da crônica o único gênero a que se manteve fiel — uma monogamia rara na literatura brasileira.
Quem chega até ele hoje costuma querer três coisas ao mesmo tempo: um retrato seguro do cronista, um caminho para os livros ainda em catálogo e alguma chave para aquela prosa seca, lírica e irônica que transformava um padeiro, um tuim ou o bairro de Copacabana em matéria permanente. Este perfil reúne a trajetória pública — jornal, guerra, diplomacia, editoras — e as obras que ainda abrem a leitura, sem reduzir o homem a uma prateleira.
Quem foi Rubem Braga
Rubem Braga nasceu em 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, filho do político Francisco Braga e de Rachel Cardoso Coelho Braga. Morreu no Rio de Janeiro em 19 de dezembro de 1990, no Hospital Samaritano, em Botafogo, de insuficiência respiratória ligada a um câncer de laringe que recusou tratar. Tinha 77 anos. Pediu cremação, sem velório, e que as cinzas fossem lançadas no rio Itapemirim, de preferência na ilha da Luz — recado registrado em bilhete ao filho, Roberto Braga.
Sérgio Porto o chamou de “Sabiá da crônica”. Ele mesmo, desde jovem, falava de si como “o velho Braga”. Homem de poucas palavras em público, não se metia em polêmicas literárias; quando lhe pediram que definisse o gênero, encerrou a conversa com humor muito seu: “Se não é aguda, é crônica”. A frase virou cartão de visita, mas o ofício era outro: escrever todo dia, para jornal, e depois escolher o que merecia livro.
Além de cronista, foi repórter, correspondente de guerra da Força Expedicionária Brasileira na Itália, embaixador do Brasil em Rabat, no Marrocos, e editor — primeiro na Editora do Autor, depois na Editora Sabiá, ambas ao lado de Fernando Sabino. A crítica o situa na segunda geração do modernismo brasileiro, mas o leitor o encontra por outro caminho: a crônica de jornal que, nas mãos dele, virou literatura sem pedir licença à universidade.
- Estreia em livro: O conde e o passarinho (1936), pela José Olympio.
- Correspondente da FEB: Com a FEB na Itália (1945), depois reeditado como Crônicas da guerra na Itália.
- Livro-assinatura: Ai de ti, Copacabana (1960), nascido na Editora do Autor.
- Antologia de entrada: 200 crônicas escolhidas, primeiro organizada pelo próprio autor, hoje em edição da Global Editora.
- Última crônica: “A paz de Santa Maria de Maricá”, entregue horas antes da morte e publicada junto ao necrológio.
De Cachoeiro ao jornal: a formação do cronista
A infância passou nas ruas de Cachoeiro, no rio, nas tropas de burros e na praia de Marataízes. Aprendeu a ler com a irmã Carmozina, que lhe lia O Tico-Tico. O primeiro texto publicado saiu em 1926, no jornalzinho O Itapemirim, do Colégio Pedro Palácios, depois de um concurso de redação sobre “lágrima”. Expulso da escola por desentendimento com um professor, concluiu o secundário em Niterói, no Colégio Salesiano Santa Rosa.
Em 1928 passou a escrever para o Correio do Sul, jornal da família em Cachoeiro. No ano seguinte ingressou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Não exerceria a profissão: formou-se em Belo Horizonte, em 1932, e nem foi buscar o diploma. Nesse mesmo ano o Estado de Minas o mandou a Passa Quatro cobrir a Revolução Constitucionalista; aos 19 anos, foi preso pelo Exército e dormiu uma noite na cadeia em Divinópolis. A reportagem de campo entrou cedo no currículo, antes dos livros.
Os anos 1930 foram de vaivém: São Paulo, Recife, Rio, Belo Horizonte de novo. No Recife dirigiu a página policial do Diário de Pernambuco e fundou a Folha do Povo, jornal ligado à Aliança Nacional Libertadora. Chegou a ser preso por posições políticas. Em 1936 publicou O conde e o passarinho e casou-se com a escritora Zora Seljan; o filho Roberto nasceu em 1937. Sob o Estado Novo, usou pseudônimos (José Bispo, Chico, R.) e, em 1940, foi preso no Rio. A crônica diária convivia com a vigilância — e com a recusa de largar o jornal.
Guerra, diplomacia e as editoras com Fernando Sabino
Em 1944 embarcou para a Itália como correspondente do Diário Carioca junto à FEB. “Guerra é coisa triste. É monótona. Brincadeira de homem. Só tem homem lá”, escreveria depois. O material virou Com a FEB na Itália (1945). De volta, foi correspondente em Paris para O Globo e para o Correio da Manhã, conviveu com Jorge Amado e Clarice Lispector — de quem se tornou amigo próximo e, mais tarde, conselheiro quando ela passou a escrever crônicas no Jornal do Brasil.
A vida nômade não parou: em 1955 chefiou o Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil em Santiago do Chile; no começo dos anos 1960, a convite ligado ao governo Jânio Quadros, assumiu a embaixada em Rabat e deixou a diplomacia em 1963, com a efetivação de João Goulart. Nesse meio tempo fundou, com Fernando Sabino e o advogado Walter Acosta, a Editora do Autor (1960), onde saiu Ai de ti, Copacabana. Em 1967, os dois amigos abriram a Editora Sabiá, depois vendida à José Olympio. O cronista também editava: escolhia, cortava, recusava o que não aguentava o livro.
Em 1963 comprou a cobertura da rua Barão da Torre, 42, em Ipanema — o “teto-jardim” no edifício projetado por Sérgio Bernardes. Plantou horta e árvores frutíferas. Paulo Mendes Campos o chamou de “o único lavrador de Ipanema”. Ali hospedou Pablo Neruda e reuniu Vinicius de Moraes, Jorge Amado, Clarice e Carlos Heitor Cony. A casa virou lenda da Zona Sul; em 2010, a terceira saída da estação General Osório do Metrô, ao lado do prédio, recebeu o nome de Complexo Rubem Braga.
Como ler as crônicas de Rubem Braga
Há pelo menos três portas, e elas não se substituem. A primeira é o livro de estreia, O conde e o passarinho: textos de Recife, Rio, São Paulo e Bahia, ainda em formação, já com o olhar que recusa o grandioso. A segunda é Ai de ti, Copacabana, o volume que o público mais associa ao nome — crônicas de 1955 a 1960, com “O padeiro”, “História triste de tuim”, “Os trovões de antigamente” e a ode-sermão que dá título ao livro. A terceira é a antologia: 200 crônicas escolhidas, primeiro montada pelo próprio autor a partir dos oito primeiros livros e, na edição atual da Global Editora, reorganizada por André Seffrin em 528 páginas.
A prosa usa poucos adjetivos, valoriza o coloquial e trata o cotidiano como se fosse matéria universal: o vento, o passarinho, a andorinha no beiral, a cadeia, o copo de uísque, a praia. Há ironia, memória e crítica sociopolítica sem palanque. Antonio Candido, no ensaio “A vida ao rés-do-chão”, que apresentou o primeiro volume da série Para Gostar de Ler — ao lado de Sabino, Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade —, descreveu esse chão da crônica brasileira. Davi Arrigucci Jr. falou do “encanto extraordinário” da prosa de Braga: “estamos sempre ao pé do fogo, esperando a próxima”.
Quem quer um volume único começa pela antologia. Quem quer o Braga do bairro e do mar vai a Copacabana. Quem quer ver o cronista nascer vai ao conde e ao passarinho. A literatura brasileira do século XX tem romancistas de fôlego e poetas de livro; Braga apostou no texto que o jornal desmancha de manhã — e, contra a própria metáfora do cigano que arma e desmonta a tenda, deixou casas de papel que continuam de pé.
Televisão, últimos anos e memória pública
De 1975 a 1990 escreveu comentários para o telejornal Hoje, da Rede Globo, a convite de Armando Nogueira, sem obrigação de ir à sede da emissora. A parceria durou quinze anos, até a morte. Continuou entregando crônica de jornal até o fim: a última saiu ao lado da notícia de que ele tinha morrido. Em 1987, Cachoeiro transformou a Casa dos Braga em biblioteca pública e centro cultural; no mesmo ano, Portugal o agraciou como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
O catálogo vivo hoje passa sobretudo pela Global Editora, que reedita Ai de ti, Copacabana!, O conde e o passarinho, as antologias de crônicas escolhidas e volumes temáticos. O Portal da Crônica Brasileira, iniciativa do Instituto Moreira Salles com a Fundação Casa de Rui Barbosa, mantém perfil, cronologia e textos. O que permanece, porém, não depende de data redonda: é a capacidade de fazer o leitor parar diante de um gesto mínimo — um pão quente de madrugada, um passarinho no parque, a chuva em Copacabana — como se a vida inteira estivesse em jogo ali.
Perguntas frequentes sobre Rubem Braga
Por que Rubem Braga é lembrado como cronista, e não como romancista?
Porque fez da crônica o ofício exclusivo. Publicou dezenas de coletâneas ao longo de quase sessenta anos de imprensa e recusou o romance como forma principal. A fidelidade ao gênero é parte da fama: poucos nomes da literatura brasileira se consagraram só nesse território entre o jornal e o livro.
Qual livro de Rubem Braga ler primeiro?
Depende do objetivo. 200 crônicas escolhidas é a porta mais larga, com textos de várias fases. Ai de ti, Copacabana! concentra o Braga mais citado, o do Rio e do cotidiano lírico. O conde e o passarinho mostra o cronista em formação, ainda nos anos 1930.
Onde Rubem Braga nasceu e morreu?
Nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, em 12 de janeiro de 1913, e morreu no Rio de Janeiro em 19 de dezembro de 1990. Viveu em Niterói, Belo Horizonte, São Paulo, Recife, Porto Alegre, Paris, Santiago e Rabat, mas fixou a casa definitiva na cobertura de Ipanema.




