Eduardo Portella (1932–2017) ficou conhecido no Brasil por uma frase que dizia muito sobre ele: “Não sou ministro; estou ministro”. A sentença foi repetida enquanto comandava o Ministério da Educação e Cultura, nos anos finais do governo João Figueiredo, e virou uma chave para entender o crítico literário, professor e editor que atravessou a vida intelectual brasileira da segunda metade do século 20. Antes de chegar a Brasília, já era um nome respeitado nos estudos literários. Depois de deixar o cargo, seguiu construindo uma trajetória que uniu universidade, edição, gestão cultural e atuação internacional.
Quem foi Eduardo Portella?
Nascido em Salvador, em 8 de outubro de 1932, Eduardo Mattos Portella passou parte da infância em Feira de Santana e fez os estudos secundários no Recife. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco em 1955, mas a vocação que o acompanharia pela vida apareceu antes: ainda no primeiro ano do curso, publicou sua primeira crítica literária. A colaboração no Jornal Universitário o aproximou do Diário de Pernambuco, onde passou a assinar crítica literária de forma regular e a conviver com nomes como Gilberto Freyre, Aníbal Fernandes e Mauro Mota. Fez parte do grupo de jovens intelectuais que fundou a Editorial Sagitário.
Entre 1952 e 1954, conciliou o curso de Direito com estudos em instituições europeias. Em Madri, dedicou-se à Filologia, à Crítica Literária e à Estilística com Dámaso Alonso e Carlos Bousoño, além de Filosofia com Xavier Zubiri e Julián Marías. Em Paris, frequentou cursos no Collège de France e na Sorbonne. Em Roma, assistiu a aulas de Giuseppe Ungaretti sobre literatura italiana. Estreou em livro em 1953, com Aspectos de la poesía brasileña contemporanea, trabalho apresentado em Salamanca.
Trajetória como crítico, professor e editor
A docência universitária começou em 1953, em Madri, e prosseguiu em Recife, na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Federal de Pernambuco, e no Rio de Janeiro, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nessa instituição, conquistou todas as titulações por concursos públicos de provas e títulos, até receber o título de professor emérito.
Em 1970, defendeu tese de doutorado que propunha um método crítico de base hermenêutica, com inclinações liberais e antipositivistas. O trabalho foi publicado como Fundamento da investigação literária e apresentava a noção de entretexto, fronteira entre a linguagem e o uso da língua, responsável pela literariedade. No mesmo período, publicou Teoria da comunicação literária, consolidando a fase em que passou a sistematizar sua reflexão sobre o fenômeno literário.
Como editor, fundou e dirigiu as Edições Tempo Brasileiro, casa que introduziu Heidegger no Brasil, divulgou o Formalismo Russo de Yuri Tynianov e se tornou uma das principais editoras das obras de Jürgen Habermas no país. A atividade editorial atravessou toda a sua carreira e deu à sua produção intelectual uma base material própria, rara entre críticos brasileiros.
Ministério da Educação e Cultura
Portella ocupou cargos públicos desde 1956, quando foi nomeado técnico de educação do Ministério da Educação e Cultura. Integrou o gabinete civil do presidente Juscelino Kubitschek entre 1956 e 1961. Em 15 de março de 1979, assumiu o próprio ministério, no governo João Figueiredo, permanecendo no cargo até 27 de novembro de 1980.
No período, defendeu a anistia e afirmou ter recusado a censura. A frase “Não sou ministro; estou ministro” sintetizava sua leitura do poder como passagem, não como identidade.
Por que Eduardo Portella deixou o ministério?
Ele pediu demissão após apoiar a greve dos professores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em um episódio lembrado como demonstração de coerência com a defesa da educação pública. Ao sair, recebeu o apoio de intelectuais, entre eles Alceu Amoroso Lima, que publicou no Jornal do Brasil o artigo “Caiu para cima”.
Academia Brasileira de Letras e a cadeira 27
Em 1981, Eduardo Portella foi eleito o sexto ocupante da cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Otávio de Faria. A eleição ocorreu em 19 de março de 1981 e a posse, em 18 de agosto do mesmo ano, teve como padrinho o acadêmico Afrânio Coutinho.
Entre os acadêmicos que o receberam estão Lygia Fagundes Telles, Zélia Gattai, Carlos Nejar, Celso Furtado, João Ubaldo Ribeiro, Ivan Junqueira, Alfredo Bosi e Merval Pereira. Na Academia, sua trajetória como crítico e ensaísta ganhou o reconhecimento institucional que faltava a uma carreira construída fora dos circuitos mais previsíveis. A cadeira 27 seria ocupada depois por Antonio Cicero, que o sucedeu.
UNESCO, Biblioteca Nacional e atuação internacional
Entre 1987 e 1988, foi secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro. Em seguida, assumiu a Diretoria-Geral Adjunta da UNESCO, cargo que ocupou de 1988 a 1993. Em 1997, foi eleito pelo colegiado superior presidente da Conferência Geral da UNESCO para o período de 1997 a 1999.
Coordenou, a partir de 1998, o comitê Caminhos do Pensamento de Hoje, em Paris. Foi eleito em 2000 e reeleito em 2003 presidente do Fundo Internacional para a Promoção da Cultura, ligado à UNESCO. Em 2002, assumiu a presidência do comitê executivo do Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe, o Cerlalc. Também integrou, ao lado de Umberto Eco e Claude Lévi-Strauss, o Conselho Mundial sobre a Diversidade Cultural.
No Brasil, presidiu a Biblioteca Nacional entre 1996 e 2003, período em que a instituição avançou em projetos de digitalização e de divulgação do acervo. A passagem pela Fundação Biblioteca Nacional consolidou sua atuação como gestor de patrimônio bibliográfico, tema que já aparecia em sua produção editorial.
Principais obras de Eduardo Portella
A produção de Portella reúne crítica literária, ensaios sobre educação e cultura e livros de intervenção pública. Entre os títulos mais conhecidos estão:
- Dimensões I (1959), Dimensões II (1959) e Dimensões III (1965);
- José de Anchieta (1959), na coleção Nossos Clássicos;
- Literatura e realidade nacional (1963);
- Teoria da comunicação literária (1970);
- Fundamento da investigação literária (1970);
- O paradoxo romântico (1976) e Vanguarda e cultura de massa (1978);
- O intelectual e o poder (1983) e Democracia transitiva (1983);
- México: guerra e paz (2001);
- Jorge Amado: a sabedoria da fábula (2011).
Além dos livros, deixou um conjunto extenso de artigos publicados em jornais, revistas e obras coletivas ao longo de mais de seis décadas.
Qual é o legado de Eduardo Portella?
Eduardo Portella morreu no Rio de Janeiro em 2017, aos 84 anos. No mesmo ano, foi homenageado na 18ª Bienal do Livro do Rio e recebeu, em dezembro, a Ordem do Mérito Cultural na classe Grã-Cruz. Entre as condecorações que acumulou estão a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco (1979), a Gran Cruz de la Orden Civil de Alfonso X, el Sabio (1980), a Gran Cruz de la Orden del Mérito Civil (2001) e a Medalha Rui Barbosa (1999), além de títulos de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Ceará (1981) e pela Universidade Federal da Bahia (1983).
Seu legado se distribui em várias frentes: a crítica literária de base hermenêutica, a editora Tempo Brasileiro, a presença brasileira na UNESCO e a defesa da universidade pública. Para quem estuda literatura brasileira, sua obra permanece como referência para pensar a relação entre texto, leitor e sociedade.





