Antonio Cicero chegou à vida pública brasileira por um atalho que ainda hoje confunde quem o procura: primeiro a letra no rádio, depois o poema no livro, e só então o ensaísta que a Academia Brasileira de Letras elegeu para a cadeira 27. A mesma assinatura que fez Fullgás com Marina Lima também escreveu Guardar, o poema que muita gente encontra antes de saber o nome do autor.
Essa duplicidade não é enfeite de biografia. Cicero tratou poesia, canção e filosofia como ofícios que se atravessam. Quem busca o letrista da MPB encontra o leitor de Homero. Quem busca o imortal da ABL esbarra no compositor que passou décadas ao lado da irmã. O perfil abaixo segue essa tensão, sem reduzir o homem a um único prateleira.
Quem foi Antonio Cicero
Antonio Cicero Correia Lima nasceu no Rio de Janeiro em 6 de outubro de 1945 e morreu em Zurique em 23 de outubro de 2024. Foi poeta, letrista, filósofo, crítico literário e escritor. O nome público, sem acento, é o que ele próprio usava: Antonio Cicero.
Filho dos piauienses Amélia Correia Lima e Ewaldo Correia Lima, cresceu numa casa em que a política e as ideias não eram pano de fundo. O pai ajudou a fundar o Instituto Superior de Estudos Brasileiros e dirigiu o BNDE no governo Juscelino Kubitschek. Em 1960, quando Ewaldo assumiu cargo no Banco Interamericano de Desenvolvimento, a família se mudou para Washington. Foi lá que Cicero fez o ensino médio, longe do Rio e perto de outra língua.
A trajetória pública se organiza em três frentes que ele nunca deixou se anularem:
- a letra de canção, sobretudo com Marina Lima, mas também com Lulu Santos, Adriana Calcanhotto, João Bosco, Cláudio Zoli e Waly Salomão;
- o livro de poemas, de Guardar (1996) a Porventura (2012), depois reunido em Fullgás: Poesia reunida;
- o ensaio filosófico e crítico, de O mundo desde o fim (1995) a O eterno agora (2024).
Formação: Rio, Londres e o grego no original
De volta ao Brasil, Cicero começou Filosofia na PUC do Rio e seguiu no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Em 1969, por problemas políticos, foi para Londres. Formou-se em Filosofia em 1972 pelo University College London. Em 1976 fez pós-graduação na Georgetown University, nos Estados Unidos, onde estudou grego e latim para ler Homero, Píndaro, Horácio e Ovídio sem tradução no meio do caminho.
Esse detalhe de ofício explica muito do que veio depois. Cicero não tratava a erudição como vitrine. Queria a frase antiga no osso, e depois testava se a poesia contemporânea ainda aguentava o mesmo rigor. Lecionou Filosofia e Lógica em universidades do Rio. Entre 1991 e 1992 coordenou, com Alex Varella, cursos de Estética e Teoria da Arte no Galpão do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Em 1993, com Waly Salomão e patrocínio do Banco Nacional, concebeu o projeto Banco Nacional de Ideias. O ciclo reuniu João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos, John Ashbery, Derek Walcott, Caetano Veloso, Richard Rorty, Tzvetan Todorov, Hans Magnus Enzensberger, Peter Sloterdijk, Ernest Gellner, Bento Prado Júnior e Darcy Ribeiro. No ano seguinte, Cicero e Waly organizaram o volume O relativismo enquanto visão do mundo, que recolhe parte daquelas conferências.
Letras da MPB: a irmã, o rádio e o nome que veio antes do livro
Os poemas de Cicero existiam antes do público. O público chegou quando Marina Lima passou a musicá-los. Antes mesmo dessa virada, já circulavam canções como Fullgás, Para Começar e À Francesa — as duas primeiras com a irmã, a terceira com Cláudio Zoli. A parceria com Marina se tornou a mais contínua. Outras assinaturas se acumularam: Waly Salomão, João Bosco, Orlando Morais, Adriana Calcanhotto e, com Sérgio Souza, o hit O Último Romântico, de 1984, na voz de Lulu Santos.
Há um mal-entendido frequente nessa biografia. Cicero não “migrou” da música para a literatura. Ele escreveu letra e poema no mesmo tempo mental, com exigências diferentes. A canção pede o verso que cabe na boca de quem canta. O poema pede o verso que sobrevive em silêncio. Quem o procura só como letrista da MPB perde o filósofo; quem o procura só como acadêmico perde o ouvido popular que ele nunca abandonou.
Na União Brasileira de Compositores, onde foi diretor, deixou cerca de 130 obras cadastradas. O número importa menos do que o método: Cicero levava a canção a sério o bastante para discuti-la no mesmo tom em que discutia Hölderlin ou Drummond.
O poeta de Guardar
O primeiro livro de poemas, Guardar, saiu pela Record em 1996 e venceu o Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira na categoria estreante. O poema-título entrou na antologia Os cem melhores poemas brasileiros do século, organizada por Ítalo Moriconi em 2001. É o texto que mais vezes devolve o nome de Cicero a quem não acompanha crítica literária: um poema sobre o que se guarda, e sobre o que só se guarda ao se perder.
Vieram A cidade e os livros (Record, 2002) e Porventura (Record, 2012), este último agraciado com o Prêmio ABL de Poesia. Em 2010, com o artista plástico Luciano Figueiredo, publicou Livro de sombras: pintura, cinema e poesia. Em 1996 também gravou o CD Antonio Cicero por Antonio Cicero, lendo os próprios poemas. A voz do autor, nesse caso, não é brinde: a dicção clara, quase falada, ajuda a entender por que a letra de música nunca lhe pareceu gênero menor.
Em 2025 a Companhia das Letras reuniu os três livros de poemas, textos esparsos, inéditos e uma amostra de letras em Fullgás: Poesia reunida, com posfácio de Noemi Jaffe. O título do volume fecha o círculo: a canção que o tornou conhecido empresta o nome ao livro que agora guarda a poesia inteira.
Ensaios, crítica e a cadeira 27
O primeiro livro de ensaios, O mundo desde o fim (Francisco Alves, 1995), já anunciava a obsessão: o que resta da modernidade quando as vanguardas cumprem sua tarefa. Finalidades sem fim (Companhia das Letras, 2005) retomou o tema e foi finalista do Prêmio Jabuti em Teoria/Crítica literária. Cicero lê Waly Salomão, João Cabral, Drummond, Horácio e Homero para defender a liberdade de criação depois do ciclo das vanguardas — não o fim da modernidade, mas a sua realização.
Poesia e filosofia (Civilização Brasileira, 2012) e A poesia e a crítica (Companhia das Letras, 2017) continuam a pergunta que ele nunca cansou de fazer: o que faz de um poema um poema? Nos treze ensaios de 2006 a 2016, aparecem Fernando Pessoa, Hölderlin, Drummond, Ferreira Gullar e Armando Freitas Filho. O último texto do volume, sobre A montanha mágica, de Thomas Mann, é o mais íntimo: Cicero admite o impacto do romance na própria formação.
De abril de 2007 a novembro de 2010 foi colunista da Folha de S.Paulo. Em 2012 recebeu o Prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade, da Universidade Candido Mendes. Em 10 de agosto de 2017 foi eleito para a cadeira 27 da ABL, na sucessão de Eduardo Portella, com 30 votos; tomou posse em 16 de março de 2018. A cadeira tem patrono Maciel Monteiro e, entre os ocupantes anteriores, Joaquim Nabuco.
Com Eucanaã Ferraz, organizou a Nova antologia poética de Vinícius de Moraes (Companhia das Letras, 2003). Também organizou Forma e sentido contemporâneo (EDUERJ, 2012). Sobre sua obra saíram Do princípio às criaturas, de Noemi Jaffe, e Antonio Cicero, de Alberto Pucheu. Em 2002 participou do documentário Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho.
A escolha de 2024
Diagnosticado com Alzheimer, Cicero decidiu pela morte assistida na Suíça, onde o procedimento é legal. A Academia Brasileira de Letras anunciou a morte em 23 de outubro de 2024, aos 79 anos, na Associação Dignitas, em Zurique. Ele viajou com o companheiro Marcelo Pies, passou por Paris e deixou uma carta pública aos amigos: escrevia que a vida se tornara insuportável, que já não reconhecia muita gente, que não conseguia mais escrever bons poemas nem bons ensaios, nem se concentrar para ler. Ateu desde a adolescência, disse que cabia a ele decidir se a vida ainda valia a pena.
Na quinta-feira 10 de outubro, ainda participara de sessão solene da ABL, lendo um poema de Carlos Drummond de Andrade. Em julho fizera a conferência “A poesia de Antonio Cicero”. O presidente da Academia, Merval Pereira, falou de um dos maiores poetas da geração e de uma escolha coerente com o sentido que ele via na vida: preferiu morrer a viver sem poder ler, escrever e filosofar.
Pouco depois saiu O eterno agora, volume de ensaios escritos entre 2005 e 2020 a convite de Adauto Novaes. A poesia reunida em Fullgás completou o gesto editorial. O que permanece não é o obituário. É o hábito raro de um autor que recusou a divisão preguiçosa entre intelectual e popular, entre poema e canção, entre pensar e cantar.





