Fullgás: Poesia reunida junta, num só volume da Companhia das Letras, o que Antonio Cicero publicou em verso e uma amostra do que escreveu para ser cantado. O livro saiu em 18 de junho de 2025, com 240 páginas, posfácio de Noemi Jaffe e capa de Bloco Gráfico. O título não é metáfora solta: recupera a canção que o poeta fez com Marina Lima e devolve essa marca ao conjunto da poesia.
Quem chega a Cicero pela MPB encontra aqui o chão literário daquela dicção. Quem chega pelo poema Guardar encontra o restante da obra que aquele texto anunciava. O volume reúne os três livros de poemas — Guardar (1996), A cidade e os livros (2002) e Porventura (2012) — mais poemas esparsos, inéditos e letras representativas, entre elas Pra começar, Fullgás e O último romântico.
O que o livro reúne de fato
Guardar foi o livro de estreia em poesia, pela Record, e venceu o Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira na categoria estreante. O poema-título entrou na antologia dos cem melhores poemas brasileiros do século organizada por Ítalo Moriconi. A cidade e os livros desloca o olhar para o Rio, a leitura e o espaço urbano. Porventura recebeu o Prêmio ABL de Poesia. Juntos, os três volumes deixam de ser estações isoladas e passam a se ler como um único percurso.
A seleção de letras não transforma o livro numa songbook. Ela mostra o ponto em que o verso de Cicero muda de corpo: o que no poema pede silêncio, na canção pede garganta. Caetano Veloso falou de “inteligência luminosa”. Adriana Calcanhotto chamou-o de “o mais livre dos príncipes”. Eucanaã Ferraz escreveu que a palavra de Cicero ilumina a vida e é por ela iluminada. São depoimentos de pares, não de marketing.
Para quem faz sentido
O livro serve a três leitores distintos, e não exige que coincidam. O primeiro quer a poesia contemporânea brasileira com rigor clássico, sem jargão de vanguarda. O segundo quer entender de onde veio a letra de Marina Lima e de Lulu Santos. O terceiro quer um volume único, em português, para não caçar edições antigas da Record.
A poesia de Cicero volta com frequência ao verão do Rio, ao mar, à areia e ao desejo que promete plenitude ao mesmo tempo em que denuncia a própria impossibilidade. Noemi Jaffe, no posfácio, fala de contingência, acidental e fugaz: coisas em estado de concretude, inagarráveis não por falta de forma, mas porque passam. Quem procura poema de tese política direta pode se frustrar. Quem procura precisão, luz e pensamento dentro do verso encontra o miolo.
Como ler sem se perder
Não é obrigatório começar pelo primeiro livro. Muita gente entra por Guardar e só depois percebe o restante. Outra rota útil é ler as letras no fim e voltar aos poemas: a orelha treinada na canção costuma ouvir melhor o ritmo da página. Há também audiolivro na voz do próprio autor, o que ajuda a fixar a dicção que ele defendia — clara, sem afetação.
O volume não substitui os ensaios. A filosofia de Cicero está em Finalidades sem fim, A poesia e a crítica e O eterno agora. Fullgás é o lugar da poesia. Misturar os dois gêneros na mesma leitura é possível, e até fiel ao autor, mas o livro pede primeiro ouvido, não fichamento.
Edição em português, selo Companhia das Letras, ISBN 978-85-359-4063-3. Existe em livro físico, e-book e audiobook. Para quem quer um único volume da poesia de Antonio Cicero, esta é a edição que o próprio catálogo póstumo consolidou.




