A poesia e a crítica reúne treze ensaios de Antonio Cicero escritos entre 2006 e 2016. A Companhia das Letras lançou o volume em 5 de junho de 2017, com 240 páginas. A pergunta que organiza o livro cabe numa linha e não se esgota em treze respostas: o que faz de um poema um poema?
Aqui o filósofo está a serviço do tema, não o contrário. Cicero esmiúça a lírica com erudição e clareza, sem transformar o ensaio em aula que humilha o leitor. Exceto o último texto, que trata do impacto de A montanha mágica na própria formação intelectual e emocional, o volume permanece em torno da poesia, da crítica e da cultura contemporânea.
Quem ele lê
Os ensaios examinam Fernando Pessoa, Friedrich Hölderlin, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar e Armando Freitas Filho. A lista não é vitrine de nomes. Cada um serve para iluminar um problema: contracultura, modernidade, relação da poesia com a música, o estatuto do verso depois das vanguardas. Cicero escreve como alguém que também faz poemas, o que muda o tom da crítica: não há superioridade de quem só comenta.
Essa posição importa. Muita crítica brasileira trata o poema como documento sociológico. Cicero insiste na pergunta formal. O poema precisa ser poema antes de ser testemunho, manifesto ou biografia. Ao mesmo tempo, ele não finge que a cultura contemporânea não existe: a música popular entra no raciocínio com a mesma dignidade da lírica culta.
Para quem vale a pena
O livro ajuda o leitor que já gosta de Cicero poeta e quer o raciocínio por trás dos versos. Ajuda o estudante que precisa de ensaios em português sobre lírica contemporânea sem pastiche acadêmico. Ajuda quem lê Drummond, Pessoa ou Gullar e quer uma conversa de igual para igual, não um resumo escolar.
Não substitui Finalidades sem fim, mais concentrado no fim das vanguardas, nem O eterno agora, mais largo em temas. A poesia e a crítica é o volume da pergunta específica sobre o poema. Quem quer a poesia em verso deve ir a Fullgás. Quem quer o pensamento sobre o verso fica neste livro.
O ensaio mais pessoal
O texto final, sobre Thomas Mann, quebra o programa. Cicero fala de formação, não só de teoria. É o ponto em que o crítico admite dívida afetiva com um romance, e isso ilumina o restante: a erudição dele nunca foi fria. Havia gosto, hábito de leitura, uma vida intelectual construída livro a livro.
Uma dúvida comum é se o livro “explica” os poemas de Cicero. Em parte, sim: a pergunta sobre o que faz um poema ser poema atravessa a obra dele. Em parte, não: os ensaios leem outros poetas. Usá-lo como chave exclusiva de Guardar empobrece os dois lados. Melhor lê-lo como conversa de um poeta-crítico com a tradição que escolheu.
Edição em português, selo Companhia das Letras, ISBN 978-85-359-2917-1. Existe em livro físico e e-book. Para quem quer a crítica de Cicero no período em que ele já era poeta reconhecido e ainda não havia sido eleito para a ABL, este é o volume certo.




