O diploma de medicina, tirado em 1931 na Faculdade de Medicina da Bahia, não abriu consultório. Afrânio Coutinho, nascido em Salvador em 15 de março de 1911, trocou a clínica pela cátedra, pelo jornal e por uma teimosia: ler a literatura brasileira como forma, com método, e não como caderno de impressões soltas.
Quem procura o nome hoje quase sempre esbarra em dois livros que não são a mesma coisa. Um é a síntese assinada por ele, Introdução à Literatura no Brasil. O outro é a história coletiva que ele dirigiu, A Literatura no Brasil, obra de vários tomos e de muitos colaboradores. No meio do caminho estão a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras, a Faculdade de Letras da UFRJ e uma biblioteca particular que virou oficina e, depois, acervo da própria faculdade.
Quem foi Afrânio Coutinho
Afrânio dos Santos Coutinho foi professor, crítico literário e ensaísta. Filho do engenheiro Eurico da Costa Coutinho e de Adalgisa Pinheiro dos Santos Coutinho, nasceu na casa dos avós maternos, Romualdo e Hermelinda dos Santos. O avô Romualdo era editor e livreiro, dono da Livraria Catilina, em Salvador. O menino cresceu a um passo de tipografia e de balcão de livros, não de um círculo já instalado no Rio.
Fez o primário em escola pública, o secundário no Ginásio Nossa Senhora da Vitória, dos irmãos maristas, e os preparatórios no Colégio da Bahia. O mesmo ginásio em que estudou voltou a empregá-lo: em 1936 e 1937 deu aulas de literatura no curso complementar. A volta ao pátio, agora do lado do quadro, é um detalhe pequeno. A carreira que o tornaria nome de disciplina ainda não tinha começado.
Medicina, jornal e a ida a Nova York
Formou-se médico em 1931 e não clinicou. De 1932 a 1942 foi bibliotecário da Faculdade de Medicina da Bahia. Em 1941 assumiu a cátedra de História Moderna e Contemporânea na Faculdade de Filosofia da Bahia, recém-criada. A escrita já tinha rumo antes da viagem: em 1936 saiu o ensaio sobre Daniel Rops, em 1938 O humanismo, ideal de vida, em 1940 A filosofia de Machado de Assis. O primeiro livro de crítica que o prende a um autor brasileiro é Machado, não um panorama de escola literária.
Em 1942 foi para Nova York, convidado como redator-secretário das Seleções do Reader's Digest. Ficou cinco anos no posto. No intervalo, frequentou cursos na Universidade de Columbia e em outras universidades americanas, afinando crítica e história literária. Voltou em 1947 e fixou-se no Rio de Janeiro. No Colégio Pedro II entrou como catedrático interino de Literatura e efetivou-se por concurso em 1951, com tese sobre o Barroco. Morreu no Rio em 5 de agosto de 2000, aos 89 anos.
O que ele combatia na crítica
Em 1948 abriu, no Suplemento Literário do Diário de Notícias, a seção Correntes Cruzadas. Manteve-a até 1961, em torno de crítica e de teoria. Em 1951, na Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette, criou a cadeira de Teoria e Técnica Literária, a primeira do gênero no país. No mesmo arco dirigiu a revista Coletânea, de 1951 a 1960, e passou a divulgar no Brasil os critérios de análise do New Criticism norte-americano.
O alvo não era um autor. Era o hábito de falar de livro como quem conta uma impressão de leitura, sem instrumento. Coutinho queria conceito, período, forma. A tese do Pedro II tratava do Barroco, e o Barroco voltaria em Do Barroco, de 1994. Entre uma data e outra, o estilo deixou de ser tratado como ante-sala do romantismo e ganhou, na historiografia que ele ajudou a fixar, nome próprio.
A polêmica tem livro com título de enfermaria: No hospital das letras, de 1963. A lista de obras classifica o volume como polêmica. Ao lado dele ficam Da crítica e da nova crítica (1957), A crítica (1958) e Crítica e críticos (1969). O método aparece também fora do ensaio solto, na sala de aula e na direção de obras coletivas. Não é um temperamento de homenagem. É um modo de ler que ocupou jornal, cátedra e livro ao mesmo tempo.
Dois livros que o nome costuma confundir
Em 1952, Leonídio Ribeiro, diretor do Instituto Larragoiti, da Companhia Sul América, encarregou Coutinho de planejar e dirigir A Literatura no Brasil. A primeira leva saiu em quatro volumes, entre 1955 e 1959, com uma equipe de especialistas. A edição de 1968 a 1971 cresceu para seis volumes. Houve atualização em 1986. A edição corrente, na Global, traz Eduardo Coutinho na coedição. O volume de abertura reúne ensaios sobre língua literária, folclore, escola, público leitor e a própria ideia de Brasil. Não é um romance. É o mapa que ele quis para a disciplina.
Introdução à Literatura no Brasil, de 1959, faz outro serviço. Cabe num tomo e leva a assinatura dele, não a de uma equipe. Em 1969 ganhou versão em inglês, An Introduction to Literature in Brazil. Quem chega pela Bertrand Brasil encontra o livro em 18ª edição. Serve de porta. Não substitui a coletânea, e a coletânea não substitui o ensaio.
Há ainda um terceiro eixo, mais seco: Conceito de literatura brasileira, cuja primeira edição é de 1960, oito ensaios em torno do nacionalismo literário e do caráter nacional. Notas de teoria literária, de 1976, é manual de iniciação. O processo da descolonização literária, de 1983, fecha a fase ensaística com um título sobre o descolamento da literatura brasileira de seus modelos. São livros de fases diferentes. Juntá-los num único clássico apaga o que cada um pede do leitor.
Faculdade de Letras e a cadeira 33
Em 1958 prestou concurso de livre-docência de Literatura Brasileira na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje UFRJ, e obteve o título de doutor em Letras Clássicas e Vernáculas. Em 1963, com a aposentadoria de Alceu Amoroso Lima, foi nomeado catedrático interino. Em 1965, depois de novo concurso, tornou-se catedrático efetivo. Designado para separar o ensino de letras do restante da Faculdade de Filosofia, organizou a Faculdade de Letras da UFRJ. Em 1968 assumiu a direção e ficou no cargo até aposentar-se, em 1980. A biblioteca da faculdade é obra sua. A coordenação da pós-graduação em letras entra na mesma conta institucional, não no mito do crítico solitário.
A Academia veio no mesmo decênio, por outra porta. Eleito em 17 de abril de 1962 para a cadeira 33, na sucessão de Luís Edmundo, tomou posse em 20 de julho, recebido por Levi Carneiro. Recebeu, mais tarde, Eduardo Portella. Depois da morte de Coutinho, a cadeira passou a Evanildo Bechara. Em 1980 publicou Tristão de Athayde, o crítico, estudo sobre o pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, o mesmo nome cuja aposentadoria tinha aberto a cátedra interina na universidade. Um vínculo é de cargo. O outro é de livro. Não são a mesma história.
Nas décadas de 1960 e 1970 viajou como professor visitante a universidades dos Estados Unidos, da Alemanha e da França, para alargar os estudos brasileiros nesses centros. A biblioteca particular, acumulada ao longo do magistério, virou em 1979 a Oficina Literária Afrânio Coutinho, a OLAC, pensada para cursos, conferências e recepção de escritores. O acervo foi depois adquirido pela Faculdade de Letras da UFRJ. Em 1990 coordenou, com José Galante de Sousa, a Enciclopédia de Literatura Brasileira, em dois volumes.
Prêmios, academias e edições que organizou
A atividade literária rendeu distinções localizáveis, não um adjetivo solto de prestígio:
- Medalha Anchieta, da Secretaria da Educação do Rio de Janeiro, em 1954;
- Prêmio Paula Brito, em 1956;
- Prêmio Nacional do Livro, na categoria ensaio, por A tradição afortunada;
- Prêmio Golfinho de Ouro, em 1980.
Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, da Academia de Letras da Bahia, da Sociedade de Estética dos Estados Unidos, da União Brasileira de Editores e da Academia Brasileira de Educação. Recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Federal da Bahia e o de professor emérito da UFRJ.
Também organizou edições de clássicos. A relação conhecida destaca as obras reunidas ou completas de Jorge de Lima e Machado de Assis (1959), Carlos Drummond de Andrade (1964), Araripe Júnior (1958-1966), Euclides da Cunha (1966), Vinicius de Moraes (1968), Cruz e Sousa (1975) e Raul Pompeia (1981-1985). Organizar não é o mesmo que escrever a obra. É outro ofício, e explica parte da presença do nome em estantes que não são de teoria.
Por onde começar a ler
Depende da pergunta. Para um mapa curto, assinado só por ele, a porta é a Introdução à Literatura no Brasil. Para o projeto de equipe, com língua, folclore, escola e público no volume de abertura, o caminho é A Literatura no Brasil. Para o debate sobre o que conta como literatura brasileira, Conceito de literatura brasileira. Para quem está entrando em teoria e precisa de gênero antes de período, Notas de teoria literária.
Na mesma Academia, outro trabalho de consulta tomou rumo próprio: o dicionário de Antônio Houaiss. Não é obra de Coutinho, nem continuação da dele. Serve para ver, lado a lado, dois modos de organizar a língua e a literatura que circularam no Rio no fim do século XX. Um construiu história literária e faculdade. O outro construiu verbete.
Perguntas frequentes
Afrânio Coutinho exerceu medicina?
Não. Diplomou-se em 1931 pela Faculdade de Medicina da Bahia e não seguiu a clínica. Trabalhou como bibliotecário da própria faculdade e passou ao ensino de literatura e de história.
Qual é a diferença entre a Introdução e A Literatura no Brasil?
A Introdução é um livro de síntese, de um autor. A Literatura no Brasil é uma história coletiva, dirigida por ele, publicada primeiro em quatro volumes e depois ampliada para seis, com colaboradores diferentes em cada parte.
Ele criou a Faculdade de Letras da UFRJ?
Organizou a Faculdade de Letras ao separar o ensino de letras da antiga Faculdade de Filosofia e foi nomeado diretor em 1968. Permaneceu no cargo até a aposentadoria, em 1980. A biblioteca da faculdade também é atribuída a ele.
Quando entrou na Academia Brasileira de Letras?
Foi eleito em 17 de abril de 1962 para a cadeira 33, na vaga de Luís Edmundo, e tomou posse em 20 de julho do mesmo ano. Ocupou a cadeira até a morte, em 2000. Evanildo Bechara veio depois.





