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Emiliano José

Nascimento: 1946 Salvador, BA
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Jornalista, escritor e membro da Academia de Letras da Bahia, escreveu “Lamarca: o capitão da guerrilha” e transformou a memória da ditadura e do jornalismo em livros.

Emiliano José da Silva Filho entrou na Faculdade de Comunicação da UFBA aos 30 anos, depois de passar quatro anos preso pela ditadura militar. Nascido em Jacareí, no interior de São Paulo, em 5 de fevereiro de 1946, o jornalista, escritor e professor construiu na Bahia a trajetória que o levou das redações de Salvador às biografias de Carlos Lamarca e Carlos Marighella e, em 2021, à Academia de Letras da Bahia.

A vida pública de Emiliano José mistura militância, reportagem, docência e mandatos eletivos: ele foi vereador de Salvador, deputado estadual e deputado federal pela Bahia. Parte considerável de seus livros nasce de dentro dessa experiência — a repressão que o capturou em 1970, os quatro anos seguintes na prisão e o ofício de repórter que ele aprendeu a exercer primeiro nas duras condições do cárcere.

  • Nascimento: 5 de fevereiro de 1946, em Jacareí (SP)
  • Prisão pela ditadura militar: capturado em 23 de novembro de 1970, libertado em setembro de 1974
  • Formação: graduação, mestrado e doutorado em Comunicação na Universidade Federal da Bahia
  • Academia de Letras da Bahia: cadeira 1, posse em 13 de março de 2021

Os anos de clandestinidade e a prisão

Antes do jornalista, veio o militante. Membro da Ação Popular (AP), Emiliano José atuou na resistência à ditadura militar e viveu na clandestinidade até 1970. Deslocou-se de São Paulo para Salvador com o nome falso de Pedro Luiz Vian e foi preso em 23 de novembro de 1970, no bairro da Ribeira. Levado à sede da Polícia Federal, chegou “sem camisa e ensanguentado”, como ele registraria décadas mais tarde. No quartel do Barbalho, passou pelo processo de tortura imposto aos presos políticos do período; em 1971, foi transferido para o presídio Lemos de Brito, em Salvador, onde se juntou a outros presos na Galeria F.

Na prisão, também exercitou o ofício que definiria sua vida. Editava à mão um jornal de meia folha de papel ofício, com notícias que compilava ao longo do dia ouvindo um radinho de pilha. O exemplar circulava de cela em cela, e o preso da última cela tinha uma tarefa fixa: queimar o jornal para que os guardas não o encontrassem. Ele tinha 24 anos quando foi capturado e 28 quando saiu, no fim de setembro de 1974.

Da Tribuna da Bahia à Faculdade de Comunicação

Liberto, começou dando aulas de História em um cursinho. Foi um dos donos do curso, Emanoel Macedo, quem o apresentou ao chefe de reportagem da Tribuna da Bahia. Contratado no fim de 1974, passou de foca a repórter acreditado e assinou uma série sobre a libertação das colônias africanas de dominação portuguesa que chamou a atenção do Jornal da Bahia, para onde foi em seguida. Depois, trabalhou em redações como as de O Estado de S. Paulo, Movimento e Em Tempo e colaborou com A Tarde, o Correio Braziliense e as revistas Afinal, Visão, Caros Amigos e Carta Capital.

Aos 30 anos, iniciou a graduação em Jornalismo na Faculdade de Comunicação da UFBA, onde também fez mestrado e doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Na mesma faculdade, lecionou por 25 anos.

Lamarca, Marighella e as biografias da resistência

Em 1980, em parceria com o jornalista Oldack de Miranda, Emiliano José publicou “Lamarca — o capitão da guerrilha”, reconstituição da trajetória do capitão que trocou o Exército pela luta armada contra a ditadura. O livro serviu de base para o roteiro do filme “Lamarca”, dirigido por Sérgio Rezende em 1994, com Paulo Betti no papel principal.

O trabalho de biógrafo continuaria em obras sobre Carlos Marighella, o padre Renzo Rossi e o político baiano Waldir Pires. O cinema reapareceria duas vezes mais: Emiliano José assinou o roteiro de “As asas invisíveis do padre Renzo” e de “A última clandestina em Paris”, ambos dirigidos por Jorge Felippi.

Memórias da ditadura e do ofício de repórter

A série “Galeria F — Lembranças do Mar Cinzento”, iniciada em 2000 e já com cinco volumes, é o projeto mais extenso do autor. Nela, Emiliano José reconstrói o cotidiano das prisões políticas, seus personagens, os arquivos e a engrenagem da repressão. Em “O cão morde a noite” (2020, com segunda edição pela Edufba em 2024), a matéria-prima é a própria vida: da infância muito pobre em Jacareí até a prisão, em novembro de 1970, e a convivência com os companheiros da Galeria F.

No campo do jornalismo, “Balança mas não cai” (2021) reconstitui a chegada do autor ao jornalismo profissional, entre o fim de 1974 e o ano seguinte, com as matérias que ele escreveu na época. “Os comunistas estão chegando” (Edufba, 2024) amplia o painel para as redações baianas sob censura e perseguição, em 642 páginas. Já “Imprensa e poder: ligações perigosas”, nascido da dissertação de mestrado defendida em 1994 e reeditado em 2019 em terceira edição, analisa a imprensa como ator político na CPI do PC e no impeachment de Fernando Collor, período em que Veja e IstoÉ militaram em lados opostos. Entre o documento e a literatura, a memória é o fio que costura essa produção.

A passagem pela política baiana e por Brasília

A militância também o levou às urnas. Filiado ao PMDB em 1982 e ao Partido dos Trabalhadores desde 1997, Emiliano José foi suplente de deputado estadual entre 1987 e 1991, assumindo o mandato em diferentes períodos. Foi vereador de Salvador entre 2001 e 2004, renunciando ao cargo em dezembro de 2002, e deputado estadual entre 2003 e 2007. Na Câmara dos Deputados, cumpriu mandato de deputado federal pela Bahia entre 2009 e 2015.

Fora do Legislativo, foi secretário de Comunicação do Ministério das Comunicações em 2015, superintendente adjunto do Incra na Bahia e diretor de Pesquisa da Assembleia Legislativa da Bahia. A política brasileira, aliás, é assunto que ele cobre desde as primeiras reportagens — e que segue na base de boa parte dos livros e artigos que publica.

A cadeira 1 da Academia de Letras da Bahia

Em 2021, Emiliano José tomou posse na cadeira 1 da Academia de Letras da Bahia, na sucessão de Luis Henrique Dias Tavares, em cerimônia realizada no dia 13 de março. A entrada na academia reconheceu uma obra construída ao longo de cinco décadas e abriu um novo espaço institucional para o escritor seguir discutindo imprensa, memória e literatura.

Em entrevista à Edufba, ele resumiu o que espera de quem lê seus livros: “Todo autor, se escreve, pretende ser lido. Não ser elogiado. Ser lido. E se lido, criticado. A crítica ajuda o escritor, ajuda, tenha certeza.”

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