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Fábio Barreto

Nascimento: 1957 Rio de Janeiro, RJ
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Cineasta carioca, dirigiu O Quatrilho, segundo filme brasileiro indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, e Lula, o Filho do Brasil. Morreu em 2019.

Fábio Barreto (1957–2019) foi o diretor que levou o cinema brasileiro de volta à disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro, com O Quatrilho, e que assinou depois a superprodução Lula, o Filho do Brasil. A carreira dele, porém, foi interrompida no fim de 2009 por um acidente de carro que o deixou em coma por quase dez anos.

Filho dos produtores Lucy e Luiz Carlos Barreto, irmão do cineasta Bruno Barreto e criado dentro de uma das produtoras mais ativas do país, ele construiu uma filmografia própria: nove longas-metragens, curtas premiados e a adaptação de um sucesso da televisão. A trajetória passa por dramas de época rodados no Sul e no Nordeste, por histórias de apelo popular e por adaptações de autores brasileiros como Domingos Olímpio, Dias Gomes, José Lins do Rego e José Clemente Pozenato.

Infância nos sets e a estreia atrás das câmeras

Fábio Villela Barreto Borges nasceu no Rio de Janeiro, em 1957. Cresceu entre estúdios e locações da produtora da família, que na época estava por trás de alguns dos filmes mais importantes do cinema nacional. Aos nove anos, atuou no curta Três Amigos que Não se Separam, ao lado da irmã, a atriz Paula Barreto. Antes de assumir a direção, passou pela assistência: trabalhou com Carlos Diegues em Bye Bye Brasil.

A estreia atrás das câmeras veio em 1977, com o curta A Estória de José e Maria, premiado com a melhor direção no Festival de Brasília. No ano seguinte, rodou o curta documental Mané Garrincha. Com 24 anos, apresentou seu primeiro longa-metragem no Festival de Cannes.

Índia, O Rei do Rio e a afirmação nos anos 1980

Índia, a Filha do Sol (1982) nasceu de um conto de Bernardo Élis e do roteiro escrito por ele com Marco Altberg, Bubi Leite Garcia e Eduardo Coutinho. O drama acompanha o encontro entre um soldado e uma indígena em uma região de garimpo, com Glória Pires e Nuno Leal Maia nos papéis principais, trilha de Caetano Veloso e fotografia de Pedro Farkas. O filme foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores, em Cannes, e chegou aos cinemas do Rio e de São Paulo pela Embrafilme, ainda em 1982.

Três anos depois, dirigiu O Rei do Rio (1985), roteiro inspirado na peça O Rei de Ramos, de Dias Gomes, e no universo do jogo do bicho carioca: dois amigos enriquecem juntos e se tornam rivais na disputa por poder. Nuno Leal Maia, Nelson Xavier e Milton Gonçalves encabeçam o elenco.

Em 1988, veio Luzia Homem, adaptação do romance de Domingos Olímpio sobre uma mulher criada como vaqueira que cruza o sertão em busca de vingança. O filme foi estrelado por Cláudia Ohana e gravado no interior do Ceará, na fazenda Teotônio, em Madalena. Pouco depois, retomou o cinema de grande circulação com Lambada (1991), longa ligado à febre internacional do ritmo.

O Quatrilho e o Oscar de 1996

O Quatrilho (1995) é o título mais conhecido da carreira. A partir do romance de José Clemente Pozenato, o filme reconstrói a vida de famílias de imigrantes italianos no Rio Grande do Sul do início do século 20, quando dois casais muito amigos passam a dividir a mesma casa e acabam trocando de parceiros. Glória Pires, Patrícia Pillar, Alexandre Paternost e Bruno Campos formam o quarteto central, com Gianfrancesco Guarnieri e José Lewgoy em papéis de apoio.

O longa foi rodado em cidades da Serra Gaúcha, como Farroupilha, Bento Gonçalves, Caxias do Sul e Antônio Prado, e tem trilha sonora de Caetano Veloso com arranjos de Jaques Morelenbaum. O resultado levou o Brasil de volta à disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro, na cerimônia de 1996 — era o segundo filme brasileiro indicado na categoria, depois de O Pagador de Promessas. A estatueta ficou com o holandês Antonia, mas a produção já havia saído premiada do Festival de Havana, com melhor atriz para Glória Pires, melhor direção de arte e melhor trilha sonora, além do reconhecimento da Associação Paulista de Críticos de Arte e do Prêmio Guarani.

No fim da década, Fábio Barreto dirigiu Bela Donna, seu primeiro longa falado em inglês, adaptação de Riacho Doce, de José Lins do Rego, com Natasha Henstridge no elenco.

Anos 2000: fé, televisão e a cinebiografia de Lula

Em 2002, dirigiu A Paixão de Jacobina, baseado no romance Videiras de Cristal, de Luiz Antônio de Assis Brasil, que reconta a história de Jacobina Mentz e da Revolta dos Muckers no Rio Grande do Sul do século 19. Em 2007, assinou o drama religioso Nossa Senhora de Caravaggio e comandou a versão brasileira da série Donas de Casa Desesperadas.

O projeto mais ambicioso veio em 2009. Lula, o Filho do Brasil parte do livro da historiadora Denise Paraná e acompanha a infância e a juventude de Luiz Inácio Lula da Silva até a morte da mãe, quando ele já era um líder sindical detido pela polícia política da ditadura militar. O roteiro foi escrito por Denise Paraná, Daniel Tendler e Fernando Bonassi, e a produção ficou com Luiz Carlos Barreto e Paula Barreto, pai e irmã do diretor. Rui Ricardo Diaz interpreta o protagonista adulto, com Glória Pires como dona Lindu, Cléo Pires e Juliana Baroni completando o elenco principal.

As filmagens começaram no início de 2009 em Garanhuns, em Pernambuco, e o orçamento passou de R$ 17 milhões, sem leis de incentivo, o que fez do filme a produção mais cara do cinema brasileiro até o lançamento de Nosso Lar, no ano seguinte. A estreia aconteceu no Festival de Brasília, em novembro de 2009, e o lançamento nacional foi em 1º de janeiro de 2010, em pleno ano eleitoral — o que transformou o filme em assunto político e dividiu a crítica. A bilheteria ficou abaixo do esperado, e a escolha da obra para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de 2011 foi criticada; a produção não ficou entre os indicados.

O acidente e os últimos anos

Em 19 de dezembro de 2009, semanas depois da estreia de Lula, Fábio Barreto sofreu um acidente de carro em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro. O veículo capotou e o cineasta foi internado com traumatismo craniano. Passou por cirurgias, ficou meses em tratamento intensivo e, em março de 2010, recebeu alta para continuar os cuidados em casa, onde permaneceu em estado de consciência mínima por quase uma década. Sua mulher, a atriz Déborah Kalume, acompanhou o tratamento de perto e deu entrevistas sobre a rotina dele ao longo dos anos.

Fábio Barreto morreu em 20 de novembro de 2019, aos 62 anos, no Rio de Janeiro.

Prêmios e reconhecimento

Ao longo de mais de três décadas de carreira, as obras dele acumularam prêmios em festivais e associações de crítica. Os principais destaques incluem:

  • melhor direção no Festival de Brasília, por A Estória de José e Maria (1977);
  • prêmios de melhor atriz, melhor direção de arte e melhor trilha sonora no Festival de Havana, por O Quatrilho (1995);
  • indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, por O Quatrilho (1996);
  • indicação ao Tokyo Grand Prix, no Festival Internacional de Cinema de Tóquio, por O Quatrilho (1996).

O conjunto da obra mantém Fábio Barreto associado a um tipo de cinema que busca o encontro entre a literatura brasileira e o grande público — combinação que ele perseguiu do primeiro curta à cinebiografia mais cara do país.

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O Quatrilho (filme)
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Drama de 1995 em que Fábio Barreto adaptou o romance de José Clemente Pozenato e levou o Brasil de volta à disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro.
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Luzia Homem (filme)
Luzia Homem (filme)
Drama de 1988 baseado no romance de Domingos Olímpio, com Cláudia Ohana vivendo uma mulher que enfrenta o sertão em busca de vingança.
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