Fernando Grostein Andrade tinha 20 anos quando dirigiu De Morango, curta apontado como o primeiro filme brasileiro rodado em alta definição a 24 quadros por segundo e exibido na abertura do Festival de Brasília e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Dez anos depois, o nome dele passou a acompanhar um tipo de história que começa no cinema e termina em política pública: o documentário Quebrando o Tabu levou Fernando Henrique Cardoso às telas como âncora de um debate sobre a falência da guerra às drogas, virou série de televisão, plataforma digital com milhões de seguidores e pronunciamento no Senado.
Cineasta, produtor, publicitário, músico e empreendedor, Grostein nasceu em São Paulo, em 30 de janeiro de 1981, e construiu uma carreira que atravessa publicidade, documentário, ficção, música e tecnologia. Quem pesquisa o nome dele costuma chegar por uma obra específica — o documentário com Caetano Veloso, o filme de Sundance, a série baseada no livro de Drauzio Varella — e encontra uma trajetória em que a produção audiovisual funciona como empresa, atuação social e laboratório criativo ao mesmo tempo.
De Morango ao Coração Vagabundo: a formação no audiovisual
Grostein começou cedo. Aos 15 anos, já trabalhava na rádio Jovem Pan 2 e na agência DM9DDB; aos 16, escrevia artigos para as revistas Trip e Playboy. Formou-se em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas em 2003 e, em paralelo, cursou roteiro e direção na CINUSP, na USC e na UCLA, nos Estados Unidos.
O curta De Morango, de 2001, abriu portas no circuito de festivais e antecipou uma marca da carreira: o interesse por formatos novos e por tecnologia aplicada à imagem. Em 2003, embarcou em uma viagem de 42 dias com Caetano Veloso por São Paulo, Nova York e Japão, durante a divulgação do disco A Foreign Sound. Dessa convivência nasceu Coração Vagabundo, primeiro longa-metragem de Grostein, exibido no festival É Tudo Verdade e no Festival de Roma em 2008 e lançado nos cinemas brasileiros pela Paramount em julho de 2009. O documentário flagra o desconforto do cantor com o sucesso internacional e traz participações de Michelangelo Antonioni, Pedro Almodóvar e David Byrne.
Quebrando o Tabu e o documentário como intervenção pública
Em 2011, Grostein lançou o filme que o tornaria conhecido no debate público. Quebrando o Tabu percorreu 18 cidades do mundo — das plantações de papoula da Colômbia aos coffee shops de Amsterdã — e reuniu 168 entrevistas sobre alternativas à guerra às drogas iniciada na década de 1970. A âncora é Fernando Henrique Cardoso; pelo filme passam Bill Clinton, Jimmy Carter, Paulo Coelho, Drauzio Varella, Gael García Bernal e ex-chefes de Estado do México, da Colômbia e da Suíça.
A repercussão extrapolou o circuito de cinema. A revista Veja publicou reportagem de nove páginas descrevendo o filme como uma apuração de dois anos com 168 personalidades; o Fantástico exibiu matéria de oito minutos e enquete em que 57% dos votantes se declararam a favor da legalização; o Senado registrou pronunciamento sobre o tema; a Trip dedicou capa ao lançamento. A versão internacional, Breaking the Taboo, foi narrada por Morgan Freeman e produzida pela Sundog Pictures, dos irmãos Richard e Sam Branson. O documentário recebeu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2012 na categoria melhor documentário por voto popular.
O projeto não terminou no filme. Virou série de duas temporadas no GNT, exibida a partir de 2018, e uma plataforma digital com 21 milhões de seguidores, que rendeu a Grostein uma homenagem no Prêmio Cidadão SP, do Catraca Livre. No mesmo período, ele cofundou o Mapa Educação, movimento criado em 2014 para colocar a educação no centro das eleições presidenciais. Quem chega ao nome por causa de Quebrando o Tabu costuma procurar exatamente isso: como uma obra audiovisual pode deslocar um debate público e sobreviver para além das telas.
Na Quebrada, Abe e a passagem para a ficção
O primeiro longa de ficção de Grostein chegou em 2014. Na Quebrada acompanha jovens da periferia de São Paulo que descobrem no cinema uma forma de expressão, a partir de histórias reais e de um elenco em boa parte formado por atores estreantes. O filme foi produzido pela Globo Filmes em parceria com Luciano Huck, irmão do diretor, e celebrou os dez anos do Instituto Criar. Grostein também ajudou a reativar o grupo de teatro Do Lado de Cá, formado por detentos de uma penitenciária de segurança máxima, cujos atores participam do longa — parte das cenas foi rodada dentro da prisão.
A ponte para o público internacional veio com Abe, estreado no Festival de Sundance em 2019. O filme conta a história de um menino de 12 anos, filho de israelenses e palestinos, que tenta unir a família por meio da gastronomia, com a ajuda de um chef brasileiro interpretado por Seu Jorge. No elenco estão Noah Schnapp, Dagmara Dominczyk, Arian Moayed e Mark Margolis; a produção é assinada por Carlos Eduardo Ciampolini, Noberto Pinheiro Jr. e pelos irmãos Fabiano e Caio Gullane. Abe passou por mais de 27 festivais, ganhou crítica favorável de veículos como The Hollywood Reporter, The Wall Street Journal e IndieWire e foi lançado em cinemas no Brasil, no Japão, na Alemanha e na Coreia do Sul.
Spray Filmes, Carcereiros e Cosmic Dog Studios
O lado empresarial acompanha a obra. Em 2009, Grostein fundou a Spray Filmes, produtora de cinema, publicidade e entretenimento que assinou mais de 100 campanhas para marcas como Coca-Cola, Volkswagen, Nestlé, Mitsubishi e Pfizer. A campanha "Últimos Desejos da Kombi", da Volkswagen, rendeu dois ouros e cinco bronzes no Festival de Publicidade de Cannes. Em 2015, ele dirigiu o curta de Natal da Coca-Cola exibido em horário nobre na TV Globo — o primeiro em dez anos a exibir crédito de direção na tela.
Na mesma produtora nasceram negócios digitais que marcaram época no Brasil: a NWB, incubadora de canais de internet que incluía o Desimpedidos, um dos maiores canais de futebol do YouTube, e a participação na criação do canal Revisão de Educação. Em 2020, a NWB foi adquirida pelo grupo SBF por R$ 60 milhões. Antes disso, Grostein foi um dos criadores, diretores e produtores da série Carcereiros, baseada no livro de Drauzio Varella e vencedora do prêmio de melhor série no MIPDrama Screenings de 2017, em Cannes — a obra também virou o documentário Vida de Carcereiro e um longa de ficção. O livro que originou a série está detalhado na página do projeto Carcereiros.
Depois de vender sua participação nos negócios anteriores, Grostein fundou a FilmSoul, que mais tarde se tornaria o Cosmic Dog Studios, estúdio sediado em Los Angeles que ele comanda ao lado de Fernando Siqueira. O estúdio desenvolve filmes, séries, redes e música, com projetos que unem narrativa e psicologia e uma parceria com a Inner AI para aplicar inteligência artificial à produção de conteúdo.
FernandoS, NASA e os projetos recentes
A veia musical de Grostein ganhou forma em 2024 com a dupla FernandoS, formada com Fernando Siqueira. O EP de estreia, lançado pela Virgin Music, tem quatro faixas compostas por Siqueira e produzidas por Grostein, com influências de indie, MPB e folk. Em 2025, a dupla foi selecionada como artista oficial do SXSW, em Austin, um dos maiores festivais de música, cinema e tecnologia do mundo.
O audiovisual também mirou o espaço. Em 2024, o estúdio dele participou da transmissão de um curta-metragem em ultra-alta-definição por comunicação óptica a laser através da sonda Psyche, da NASA — um experimento que demonstrou a viabilidade de levar conteúdo cultural ao espaço profundo. A trilha sonora ficou com a dupla FernandoS e com o produtor Fernando Garibay, conhecido pelo trabalho com Lady Gaga.
Ao longo da trajetória, alguns reconhecimentos ajudam a situar o perfil de quem pesquisa o nome:
- GQ Homem do Ano, em 2011, pela atuação no cinema e no debate público;
- Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, em 2012, por Quebrando o Tabu;
- MIPDrama Screenings, em 2017, por Carcereiros;
- Young Global Leaders, programa do Fórum Econômico Mundial que o reconheceu em 2024;
- Colunas assinadas na Veja e na Folha de S.Paulo, além da palestra no summit de empreendedorismo social da Universidade Harvard em 2014.
Entre São Paulo e Los Angeles, Grostein segue alternando direção, produção e música. Para quem acompanha a cena audiovisual brasileira, ele interessa menos por um único título e mais pela capacidade de construir pontes entre áreas que normalmente não se misturam: documentário e debate público, publicidade e tecnologia, periferia e mercado internacional.






