Fernando Meirelles dirigia comerciais, curtas e programas de televisão havia quase duas décadas quando Cidade de Deus chegou aos cinemas, em 30 de agosto de 2002. O filme, codirigido com Kátia Lund a partir do romance de Paulo Lins, recebeu quatro indicações ao Oscar na edição de 2004 — direção, roteiro adaptado, fotografia e montagem — e abriu para o diretor as portas das produções internacionais.
Nascido em São Paulo, em 9 de novembro de 1955, Fernando Ferreira Meirelles ganhou a primeira filmadora aos 12 anos e nunca mais abandonou o equipamento. Ainda estudante de Arquitetura e Urbanismo na USP, apresentou um filme como trabalho de conclusão de curso e fundou com quatro amigos — Paulo Morelli, Marcelo Machado, Dário Vizeu e Beto Salatini — a produtora Olhar Eletrônico.
A Olhar Eletrônico começou com curtas experimentais e logo entrou na televisão, quando as emissoras ainda produziam quase todo o próprio conteúdo. Da produtora saíram o humorístico Ernesto Varela, o Repórter (1983) e a série infantil Rá-Tim-Bum (1989), da TV Cultura. Em 1991, Meirelles e Paulo Morelli reorganizaram o negócio e criaram a O2 Filmes, que nasceu na publicidade e se tornou uma das principais produtoras do país.
Como a publicidade abriu caminho para o cinema
Durante os anos 1990, a O2 assinou campanhas para marcas como Volkswagen, Pepsi, Ipiranga e Bradesco, com prêmios em Cannes, no Clio e no El Ojo de Iberoamérica. Antes de Cidade de Deus, Meirelles dirigiu dois longas que já indicavam sua versatilidade: Menino Maluquinho 2 — A Aventura (1998), sua estreia na direção de um longa de ficção, e Domésticas (2001), feito em parceria com Nando Olival.
Cidade de Deus: do curta Palace II ao Oscar
O ensaio para o filme que mudaria sua carreira foi o curta Palace II (2000), dirigido com Kátia Lund e interpretado por moradores de comunidade. A experiência serviu de laboratório para Cidade de Deus (2002) e mostrou à dupla que não seria seguro gravar dentro do conjunto original, então pressionado por conflitos entre facções rivais.
Lançado em 30 de agosto de 2002, depois de passar pelo Festival de Cannes, o longa acompanha décadas da história do conjunto habitacional pela visão de Buscapé, um menino que cresce no meio do crime e encontra na fotografia a sua saída. O elenco, formado em boa parte por atores sem experiência, revelou nomes como Seu Jorge (o Mané Galinha) e Alice Braga (a Angélica).
Na temporada de prêmios, o filme venceu as categorias de melhor filme e melhor diretor no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2003, foi indicado ao Bafta de melhor filme estrangeiro e chegou ao Oscar de 2004 em quatro categorias: direção, roteiro adaptado (Bráulio Mantovani), fotografia (César Charlone) e montagem (Daniel Rezende).
O Jardineiro Fiel e a fase internacional
O primeiro filme de Meirelles em língua inglesa foi O Jardineiro Fiel (2005), adaptação do romance de John le Carré sobre a indústria farmacêutica na África. Estrelado por Ralph Fiennes e Rachel Weisz, o longa passou pelo Festival de Veneza, rendeu a Weisz o Oscar de melhor atriz coadjuvante e colocou o diretor entre os indicados ao Globo de Ouro e ao Bafta de melhor direção.
Em 2008, ele adaptou José Saramago em Ensaio sobre a Cegueira, com Julianne Moore e Mark Ruffalo, escolhido para abrir o Festival de Cannes. Depois vieram o drama 360 (2011), com roteiro de Peter Morgan e Anthony Hopkins no elenco, e o segmento Copacabana, no filme coletivo Rio, Eu Te Amo (2014).
O que Fernando Meirelles fez na Olimpíada do Rio 2016
Em 2016, Meirelles integrou a direção criativa da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, no Maracanã, ao lado de Daniela Thomas e Andrucha Waddington. Com orçamento modesto para o padrão olímpico, o espetáculo apresentou ao mundo uma leitura da história e da cultura brasileiras, da formação do povo à música, em vez de repetir o cartão-postal do carnaval.
Televisão e streaming: de Som & Fúria a Pssica
Na televisão, Meirelles dirigiu Som & Fúria (2009) e, em 2015, assumiu a supervisão artística da Globo Filmes, no lugar de Daniel Filho. No mesmo ano, a O2 produziu para a Globo séries como Os Experientes e Felizes para Sempre?. Para a HBO, produziu Pico da Neblina (2019), ambientada em uma São Paulo onde a maconha foi legalizada.
No streaming, dirigiu Dois Papas (2019), da Netflix, com Jonathan Pryce como Francisco e Anthony Hopkins como Bento XVI — o filme recebeu três indicações ao Oscar de 2020. Em 2024, dirigiu cinco episódios e foi produtor executivo de Sugar, série de Colin Farrell na Apple TV+, e dirigiu um episódio de The Sympathizer, da HBO. Em 2025, dividiu com o filho Quico Meirelles a direção de Pssica, minissérie de quatro episódios da Netflix ambientada na Amazônia.
Prêmios e reconhecimento público
Meirelles recebeu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de melhor direção por Cidade de Deus (2003), a Ordem do Rio Branco no grau de oficial suplementar (2006) e a Ordem do Mérito Cultural (2016). Seus filmes acumulam indicações ao Oscar, ao Globo de Ouro e ao Bafta, e a O2 Filmes assina longas premiados como Marighella e 7 Prisioneiros.
Como acompanhar o trabalho de Fernando Meirelles
O perfil oficial no Instagram (@fmei7777) e a ficha do cineasta no IMDb reúnem anúncios e a filmografia atualizada. Para conhecer a obra por fases, os projetos deste perfil detalham cada momento da carreira:
- Cidade de Deus (2002) — o longa que o levou ao Oscar;
- O Jardineiro Fiel (2005) — a estreia no cinema em língua inglesa;
- Ensaio sobre a Cegueira (2008) — a adaptação de Saramago que abriu Cannes;
- Dois Papas (2019) — o encontro entre Francisco e Bento XVI na Netflix;
- O2 Filmes — a produtora que ele cofundou com Paulo Morelli.






