O áudio da reunião que decretou o AI-5, em 1968, ficou guardado por três décadas até ser revelado na televisão brasileira. A proeza foi de uma série de reportagens exibida pelo Fantástico em 1998, assinada por Fernando Molica, que recebeu a gravação das mãos do jornalista Elio Gaspari. O episódio ajuda a explicar por que o repórter, mais de quatro décadas depois de começar nas redações cariocas, segue em atividade: em julho de 2026, ele estreou como âncora e colunista da rádio TMC, no Rio de Janeiro, onde apresenta o Rio TMC 1ª Edição ao lado de Maíra Gama e analisa política nacional no TMC 360.
Nascido em 12 de fevereiro de 1961, no Rio de Janeiro, Molica passou por O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo, TV Globo, O Dia, CBN, CNN Brasil e Correio da Manhã. Em paralelo à rotina de apuração, construiu uma obra literária que reúne romances, contos, crônicas e livros-reportagem, com títulos publicados também na Alemanha e na França e três indicações ao Prêmio Jabuti.
Da Piedade às redações: como começou a carreira
Criado no bairro da Piedade, na Zona Norte do Rio, Molica conviveu desde criança com o hábito de ler jornal. Aos 8 ou 9 anos, colaborava com o suplemento infantil O Jotinha, de O Jornal, e chegou a ter carteirinha de repórter-mirim. Em entrevista à ABI em 2007, contou que o jornal funcionava como uma ponte para sair do subúrbio: "Pelo jornal eu sabia de fatos do mundo inteiro, inclusive da minha própria cidade, do que ocorria do outro lado do túnel".
Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estreou profissionalmente em 1981, com freelances para as revistas Manchete e Fatos & Fotos, da Bloch Editores, e um estágio na sucursal carioca de O Estado de S. Paulo, onde foi contratado em 1983. Dois anos depois, passou para a Folha de S.Paulo, onde atuou como repórter e chefe de reportagem. Nos anos seguintes, chefiou a reportagem do jornal O Globo e voltou à Folha como repórter especial.
Fantástico, AI-5 e as reportagens que marcaram a TV Globo
Em 1996, um convite do então diretor editorial Luis Erlanger levou Molica da imprensa escrita para a televisão. Aos 35 anos, ele estreou como repórter do Fantástico com uma matéria sobre os "justiçamentos" praticados por organizações de esquerda contra integrantes dos próprios grupos, exibida em 28 de julho de 1996. Depois vieram outras reportagens de peso:
- a série sobre os 30 anos do AI-5, em 1998, que revelou na TV o áudio da reunião que decretou o ato;
- as matérias sobre o "Chacal Brasileiro", o advogado gaúcho envolvido com a luta armada e o terrorismo internacional, exibidas em 1999 e 2002;
- a cobertura do sequestro do ônibus 174, no Rio, em 2000;
- a série "Aqui não se fala Português", de 1999, sobre colônias de estrangeiros no Brasil;
- a reportagem sobre a morte do comerciante chinês Chan Kin Chang no Presídio Ary Franco, que rendeu a Molica o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos de 2004.
Em 2005, ele deixou o dominical para trabalhar no Jornal da Globo, onde participou da cobertura do acidente com o avião da Gol, em 2006, e da morte do menino João Hélio, em 2007. Cobriu as eleições de 2006 pelo Jornal Nacional e, em 2007, assinou reportagens investigativas sobre fraudes em licitações da Petrobras, no caso conhecido como Operação Águas Profundas. Saiu da Globo em 2008.
Abraji, jornalismo investigativo e antologias
Em 2002, o assassinato do repórter Tim Lopes, colega de redações e de coberturas, levou Molica a participar da fundação da Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Ele integrou a diretoria da entidade e, em 2007, preparava-se para coordenar um curso de MBA na FGV-Rio, conforme registrou a entrevista concedida à ABI naquele ano.
O vínculo com o jornalismo investigativo também se materializou em antologias. Molica organizou "Dez Reportagens que Abalaram a Ditadura" (Record, 2005), coletânea de matérias que enfrentaram o regime militar, e "50 Anos de Crimes", volume dedicado a reportagens policiais que marcaram a imprensa brasileira.
O Dia, CBN, CNN e a coluna no Correio da Manhã
Depois de deixar a Globo, Molica assumiu em 2008 a coluna "Informe do Dia", do jornal carioca O Dia, dedicada a notas de política. Na rádio CBN, apresentou o CBN Rio. Na CNN Brasil, integrou o time de analistas e comentaristas e participou do quadro Liberdade de Opinião, dentro do CNN Novo Dia. Desde 2023, assina coluna no jornal Correio da Manhã, onde escreve sobre política e cotidiano.
Na TMC, além do telejornal ao lado de Maíra Gama, ele participa diariamente do TMC 360 e mantém uma coluna semanal no site da emissora.
Os livros de Fernando Molica
A estreia na ficção veio em 2002, com o romance "Notícias do Mirandão", publicado na Alemanha em 2006 como "Krieg in Mirandão". Em 2003, veio o livro-reportagem "O Homem que Morreu Três Vezes", finalista do Prêmio Jabuti de 2004. Na sequência, "Bandeira Negra, Amor" (2005) — também finalista do Jabuti, em 2006, e traduzido para o alemão e o francês — e "O Ponto da Partida" (2008).
A produção literária seguiu em frentes diversas: o infantojuvenil "O Mistério do Craque da Vila Belmira" (2010), o romance musical "O Inventário de Julio Reis" (2012), a ficção política "Uma Selfie com Lenin" (2016), o romance de suspense "Elefantes no Céu de Piedade" (2022), os contos de "Náufragos" (2023) e as crônicas de "Meninos que brincaram na Lua" (2025). Cada uma dessas obras tem página própria neste diretório, com contexto de leitura, edição e link de acesso.
Prêmios e reconhecimentos
- duas vezes vencedor do Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo, um deles em 2004;
- Prêmio Embratel e Prêmio Orilaxé, concedido pelo Grupo Cultural AfroReggae;
- finalista do Prêmio Jabuti em três ocasiões, com "O Homem que Morreu Três Vezes" (2004), "Bandeira Negra, Amor" (2006) e "Náufragos" (2024);
- Prêmio Sabiá de Crônicas de 2026, por "Meninos que brincaram na Lua".
Onde acompanhar o trabalho de Fernando Molica hoje
O trabalho mais recente de Molica está na TMC, onde ele apresenta o Rio TMC 1ª Edição de segunda a sexta-feira e assina análises e colunas. No Correio da Manhã, mantém coluna fixa sobre política e cotidiano, e no Memória Globo, o acervo de depoimentos da TV Globo, é possível assistir à entrevista que ele concedeu em 2014 sobre a própria trajetória. Os atalhos oficiais para esses canais estão reunidos nos links desta página.






