Em 1975, Vinicius de Moraes e Toquinho gravaram "Choro de Nada". A letra era de Geraldo Carneiro, então com 23 anos, que havia começado a compor com Egberto Gismonti no fim da década anterior. Três anos depois, Tom Jobim e Miúcha fariam outra gravação da mesma canção. Era um começo de carreira com dois nomes centrais da MPB interpretando a mesma letra em três anos.
Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro nasceu em Belo Horizonte, em 11 de junho de 1952, e se mudou para o Rio de Janeiro aos três anos. É poeta, letrista, dramaturgo, roteirista e tradutor, e desde 2016 ocupa a cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras. A poesia é o eixo: o mesmo verso curto e a mesma sintaxe coloquial aparecem nas letras, nas peças e nos roteiros, mesmo quando o suporte é a televisão.
A estreia na coleção Frenesi
Geraldo Carneiro cursou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e publicou seu primeiro livro em 1974, Em Busca do Sete-Estrelo, pela coleção Frenesi. O nome veio de um filme de Alfred Hitchcock. A coleção reunia Cacaso, Francisco Alvim, João Carlos Pádua e Roberto Schwarz, entre outros poetas associados à poesia marginal. Eram livros feitos em pequena escala, vendidos em leituras e bares, mas com ambição literária que não se resumia ao mimeógrafo.
Verão Vagabundo (1980) e Piquenique em Xanadu (1988) vieram depois. O segundo ganhou o prêmio Lei Sarney de melhor livro de poesia do ano, com júri presidido pelo crítico Antonio Candido. Naquele momento, a poesia de Geraldo Carneiro já havia incorporado a experiência da canção popular, sem abandonar o trabalho com o ritmo e a rima.
Gismonti, Piazzolla e os intérpretes
Em 1968, Geraldo Carneiro iniciou com Egberto Gismonti uma parceria de 12 anos, que renderia mais de 60 canções. Ele produziu o primeiro disco do compositor, Água e Vinho, de 1972. Na mesma época, escreveu com Eduardo Souto Neto as letras que chegariam a Vinicius de Moraes e Toquinho. O encontro com a canção não foi um desvio: tornou-se uma segunda escola de escrita, com exigências próprias de concisão e escuta.
Depois vieram Astor Piazzolla, John Neschling, Francis Hime, Wagner Tiso e Nando Carneiro. As letras foram gravadas por Ney Matogrosso, Gal Costa, Lenine, Olivia Byington, Cauby Peixoto, Fafá de Belém, Leila Pinheiro, Zezé Motta e As Frenéticas, entre outros. O alcance dessas parcerias explica por que o nome de Geraldo Carneiro aparece com frequência em discos de música popular brasileira antes de aparecer em uma estante de poesia.
Teatro, televisão e cinema
No teatro, estreou em 1979 com o musical Lola Moreno, escrito em parceria com Bráulio Pedroso. Depois vieram Folias do Coração e Apenas Bons Amigos, ambas com Miguel Falabella, além de Divina Increnca, A Bandeira dos Cinco Mil Réis, Manu Çaruê e Iluminada. Traduziu mais de uma dezena de peças, entre elas A Tempestade e Como Gostais, de Shakespeare, e adaptou textos de Rubem Fonseca, Frank Wedekind e As Mil e Uma Noites.
Na televisão, estreou em 1976 como colaborador de Bráulio Pedroso na minissérie Parabéns pra Você, dirigida por Roberto Talma e exibida pela Globo. Voltou à emissora em 1989 e, dois anos depois, dividiu com Walther Negrão a autoria de O Sorriso do Lagarto, adaptação do romance de João Ubaldo Ribeiro. Entre 1993 e 1995, assinou adaptações para as faixas Terça Nobre e Brasil Especial, como Lucíola, Lúcia McCartney e A Desinibida do Grajaú. Com João Ubaldo, escreveu ainda O Santo que não Acreditava em Deus, O Poder da Arte da Palavra e A Maldita. Adaptou também O Compadre de Ogum, de Jorge Amado.
Em 2011, a adaptação de O Astro, escrita com Alcides Nogueira, recebeu o Emmy Internacional. No cinema, assinou os roteiros de Eternamente Pagu (1987), de Norma Bengell, e de O Judeu (1996), escrito com Millôr Fernandes, Gilvan Pereira e Jom Tob Azulay.
Os livros de poesia
Nos anos 1990, publicou Pandemônio (1993) e Folias Metafísicas (1995). Por Mares Nunca Dantes (2000) desloca Camões para o Rio de Janeiro do fim do século XX. Lira dos Cinquent'anos (2002) e Balada do Impostor (2006) mantêm o tom de quem escreve sobre a passagem do tempo sem recorrer à solenidade. Em 2010, Poemas Reunidos organizou 464 páginas de poesia. Cinco anos depois, Subúrbios da Galáxia reuniu quatro décadas de poemas escolhidos pelo autor.
- Em Busca do Sete-Estrelo (1974), estreia na coleção Frenesi;
- Piquenique em Xanadu (1988), vencedor do prêmio Lei Sarney;
- Pandemônio (1993) e Folias Metafísicas (1995);
- Por Mares Nunca Dantes (2000), poema narrativo com Camões no Rio;
- Poemas Reunidos (2010), volume de 464 páginas;
- Subúrbios da Galáxia (2015), antologia de quatro décadas;
- Ensaio sobre o mar (2026), novo livro de poemas.
Em prosa, escreveu Vinicius de Moraes: a Fala da Paixão (1984), sobre Vinicius de Moraes, e Leblon: a Crônica dos Anos Loucos (1996). Como tradutor, publicou com Carlito Azevedo Sonhos da Insônia (1977), com sonetos de Shakespeare, e organizou com Ana Paula Pedro O Discurso do Amor Rasgado (2013), finalista do Prêmio Jabuti.
A cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras
Geraldo Carneiro foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 27 de outubro de 2016, na sucessão de Sábato Magaldi. Ocupa a cadeira 24, cujo patrono é Júlio Ribeiro. A eleição reconheceu uma obra construída em várias frentes, da poesia à canção popular, e deu assento a um escritor que sempre circulou entre o livro e o palco.
Ensaio sobre o mar e os 50 anos de poesia
Em setembro de 2026, Geraldo Carneiro lançou Ensaio sobre o mar, seu novo livro de poemas, pela Nova Fronteira. A Academia Brasileira de Letras apresentou o lançamento como a marca de 50 anos de poesia. O volume trata da passagem do tempo, do envelhecimento e da finitude com humor elegíaco, sem abrir mão de uma dicção coloquial. Odisseu, Camões e Afrodite aparecem entre lembranças familiares e cenas do cotidiano carioca.
O lançamento, em 24 de setembro, na livraria Travessa do Shopping Leblon, teve leitura de poemas por amigos, entre eles Silvia Buarque, Deborah Colker e Bianca Byington. No posfácio, o autor conta que os poemas começaram a surgir depois de um período em que acreditava estar repetindo caminhos anteriores. Aos 74 anos, Geraldo Carneiro segue publicando poesia e participando da vida da Academia.




