Em dezembro de 1964, Gracindo Júnior já estava contratado pela TV Globo, que só entraria no ar em abril do ano seguinte. A antecedência ajuda a explicar o lugar que ele ocupou na dramaturgia brasileira: o de ator que viu a televisão nascer e, depois, passou também a dirigir o que ia ao ar.
Epaminondas Xavier Gracindo nasceu no Rio de Janeiro, em 21 de maio de 1943, filho do ator Paulo Gracindo. Cresceu perto do rádio e do palco, mas construiu uma carreira com nome próprio. Em mais de cinco décadas, atuou em novelas, minisséries, filmes e peças, dirigiu humorísticos e novelas, escreveu para o teatro e participou do primeiro elenco da Globo. Morreu em 1º de setembro de 2026, aos 83 anos, no Rio de Janeiro.
Como Gracindo Júnior começou no rádio e no teatro
Aos 15 anos, em 1959, ele fez um teste para a Rádio Nacional, emissora em que o pai vivia o auge como galã de radionovelas e apresentador de programas de auditório. Foi aprovado e passou a trabalhar como ator, redator e disc-jóquei. Também cursou Psicologia, mas nunca exerceu a profissão.
Em 1961, estreou no teatro na montagem de A Escada, de Oswald de Andrade, ao lado de Rubens Corrêa e Ivan Albuquerque. O palco se tornaria um território constante: nas décadas seguintes, ele atuaria em textos de Oduvaldo Vianna Filho, Leilah Assumpção, Millôr Fernandes e outros autores brasileiros.
O começo da carreira foi atravessado pela política. Militante do Partido Comunista, foi cassado pela ditadura militar em 1964, junto com 38 outros artistas, entre eles Dias Gomes e Mário Lago. A medida o impediu de trabalhar no rádio. Naquele momento, ele já havia passado por TV Rio, TV Excelsior e TV Tupi.
O primeiro elenco da TV Globo e a parceria com Paulo Gracindo
Contratado antes da inauguração, Gracindo Júnior integrou o elenco pioneiro da TV Globo. Participou de novelas da fase inicial da emissora, como Rosinha do Sobrado (1965), Padre Tião (1966), A Rainha Louca (1967), A Próxima Atração (1970), Os Ossos do Barão (1973) e Supermanoela (1974).
A convivência profissional com o pai ganhou peso nesse período. Os dois contracenaram em Os Ossos do Barão e, em 1973, em O Bem-Amado, a novela de Dias Gomes que levou Odorico Paraguaçu e a cidade de Sucupira para o imaginário nacional. Gracindo Júnior interpretou Jairo Portela.
O primeiro grande papel veio em 1976, com O Casarão. Na novela de Lauro César Muniz, ele viveu o jovem pintor João Maciel; Paulo Gracindo interpretava a versão mais velha do mesmo personagem. A trama de 168 capítulos passava por três épocas e mostrava a mesma família em fases diferentes, com atores distintos para cada período.
Alguns marcos ajudam a situar a trajetória:
- 1959 — entra na Rádio Nacional como ator, redator e disc-jóquei;
- 1965 — faz parte do elenco de inauguração da TV Globo;
- 1976 — vive João Maciel em O Casarão, seu primeiro grande papel;
- 1983 — assume a direção de Os Trapalhões;
- 1986 — interpreta Antônio Sampaio em Dona Beija;
- 2003 — volta ao elenco principal de uma novela das oito como Ubaldo Quintela em Celebridade.
A passagem de ator para diretor
Em 1976, o mesmo ano de O Casarão, Gracindo Júnior estreou como diretor de teatro com A Longa Noite de Cristal, de Oduvaldo Vianna Filho. Depois de uma temporada em Portugal, onde dirigiu É..., de Millôr Fernandes, voltou ao Brasil e assumiu, em 1978, a supervisão do núcleo de novelas das 18h da Globo.
A primeira missão foi acompanhar A Sucessora, de Manoel Carlos, em seus primeiros capítulos. Ele passou a cuidar da montagem, da edição, da sonorização e do desempenho do elenco. Em 1979, dirigiu Memórias de Amor, de Wilson Aguiar Filho, e Marron-Glacé, de Cassiano Gabus Mendes.
Em 1980, escreveu e produziu Paulo Gracindo, Meu Pai, espetáculo em homenagem aos 50 anos de carreira do pai. Três anos depois, assumiu a direção de Os Trapalhões, na Globo, com redação de Carlos Alberto da Nóbrega. No início da década, também foi um dos diretores e apresentador dos primeiros clipes musicais produzidos pelo Fantástico.
Dona Beija, a TV Manchete e o par com Maitê Proença
Em 1984, Gracindo Júnior se transferiu para a TV Manchete. Seu primeiro trabalho na emissora foi A Marquesa de Santos, no qual interpretou Dom Pedro I e formou par romântico com Maitê Proença. Os dois voltaram a contracenar em Dona Beija (1986), novela escrita por Wilson Aguiar Filho a partir dos romances de Thomas Othon Leonardos e Agripa Vasconcelos.
Ele interpretou Antônio Sampaio, par romântico da protagonista vivida por Maitê. A novela teve grande repercussão entre o público e a crítica e se tornou um dos maiores sucessos da Manchete. Antes dela, em 1985, tinha participado de Tenda dos Milagres, na Globo. Depois, vieram Mandala (1987) e O Salvador da Pátria (1989), no qual foi Ricardo Ribeiro, marido de Clotilde (Maitê Proença) e rival de Sassá Mutema (Lima Duarte).
Nas décadas seguintes, atuou em Rainha da Sucata, Gente Fina, Deus nos Acuda, Explode Coração — quando também dirigiu cenas do núcleo dos ciganos —, Anjo de Mim e Esplendor.
Celebridade, Record e os últimos trabalhos
Em 2003, Gracindo Júnior viveu Ubaldo Quintela em Celebridade, novela de Gilberto Braga exibida pela Globo entre outubro de 2003 e junho de 2004. O personagem havia passado 15 anos preso pelo assassinato do noivo de Maria Clara Diniz, papel de Malu Mader, e mexia com o passado da protagonista.
A partir de 2006, passou a atuar em produções da Record, como Cidadão Brasileiro e Poder Paralelo (2009). Em 2012, interpretou o rei Saul na minissérie Rei Davi. Também participou de Plano Alto (2014), minissérie da emissora. Em 2017, esteve na novela portuguesa Ouro Verde, da TVI, seu último trabalho em novelas.
Ele se afastou das novelas em 2018. Desde 2020, enfrentava o Alzheimer. Morreu por causas naturais em 1º de setembro de 2026, aos 83 anos, no Rio de Janeiro. Deixou a mulher, Daisy Poli, com quem estava havia mais de cinco décadas, filhos e netos.
Teatro, cinema e a família de atores
No teatro, Gracindo Júnior participou de mais de 20 peças como ator, produtor ou diretor. Entre os trabalhos estão A Megera Domada, de Shakespeare; O Burguês Fidalgo, de Molière; A Viúva Imortal, de Millôr Fernandes; Blackout; O Altar do Incenso, ao lado de Marília Pêra; e Os Canastrões, em que atuou com os filhos. Também dirigiu as duas últimas peças de Paulo Gracindo: Num Lago Dourado (1991) e A História é uma História (1993).
No cinema, integrou elencos de Os Homens que Eu Tive (1973), Os Trapalhões na Serra Pelada (1982), A Floresta das Esmeraldas (1985), Bufo & Spallanzani (2001), Primo Basílio (2007) e Segurança Nacional (2010), entre outros.
Três dos filhos — Daniela Duarte, Gabriel Gracindo e Pedro Gracindo — seguiram a carreira artística. O sobrenome Gracindo continuou presente nos palcos e na televisão em uma nova geração.
Onde a obra de Gracindo Júnior pode ser revisitada
Quatro trabalhos resumem fases diferentes da carreira. O Casarão mostra o primeiro grande papel e o encontro com o pai em cena; Dona Beija concentra o sucesso popular na Manchete; Os Trapalhões registra a passagem pela direção de um programa de audiência massiva; e Celebridade traz o ator de volta ao elenco principal de uma novela das oito em um papel de antagonista.
O perfil dele no Memória Globo reúne depoimentos e fichas de trabalhos na emissora. A filmografia completa está no IMDb. Para quem acompanha a dramaturgia brasileira, esses registros ajudam a medir a extensão de uma carreira que começou no rádio, atravessou a inauguração da televisão e chegou às produções dos anos 2010.





