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Haroldo de Campos

Haroldo Eurico Browne de Campos

Nascimento: 1929 São Paulo, SP
Poeta, tradutor e crítico paulistano, cofundador da poesia concreta no grupo Noigandres. Autor de Galáxias e transcriador da Ilíada.

Na prateleira brasileira, o nome de Haroldo de Campos costuma chegar por um atalho: poesia concreta. O atalho não é falso, mas é estreito. O que a busca pede, na prática, é o poeta que, com o irmão Augusto de Campos e com Décio Pignatari, fundou o grupo Noigandres — e o tradutor que tratou Homero, Joyce e Mallarmé como matéria viva em português.

Haroldo Eurico Browne de Campos nasceu em São Paulo em 19 de agosto de 1929 e morreu na mesma cidade em 16 de agosto de 2003, dois dias antes de completar 74 anos. Formou-se em direito no Largo de São Francisco no mesmo 1952 em que o trio lançou a revista-livro do grupo. Daí em diante, biografia e obra se misturam: poema visual, ensaio, cátedra na PUC-SP e uma teoria da tradução que ele chamou de transcriação.

Quem foi Haroldo de Campos na literatura brasileira?

Haroldo não cabe no rótulo único de “poeta concreto”. Foi crítico, ensaísta, professor e tradutor de um repertório que atravessa grego, hebraico, russo, japonês, chinês, alemão, italiano, inglês, francês, espanhol, latim e provençal. A Enciclopédia Itaú Cultural o descreve no encontro do concretismo com o barroco: a página como objeto visual, mas também como agudeza, jogo sonoro e reabertura do cânone.

Estudou no Colégio de São Bento, em São Paulo, onde aprendeu as primeiras línguas estrangeiras. Em 1952, concluiu o curso de ciências jurídicas e sociais na Faculdade de Direito da USP. Em 1972, doutorou-se em letras na mesma universidade, sob orientação de Antonio Candido, com trabalho sobre Macunaíma de Mário de Andrade, publicado depois como Morfologia de Macunaíma. A pesquisa teve apoio da bolsa Guggenheim.

De 1973 a 1989 lecionou na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde se tornou professor emérito em 1990. Foi professor visitante em Yale e na Universidade do Texas, em Austin. Em 1997, a biografia entrou na Encyclopædia Britannica. Em 1999, recebeu o Prêmio Octavio Paz de Poesia y Ensayo, no México, e o título de doutor honoris causa da Universidade de Montreal.

Como nasceu a poesia concreta no grupo Noigandres?

Antes do manifesto, houve um desvio. Ainda na faculdade, Haroldo circulou pelo Clube de Poesia, ligado à Geração de 45. A estreia em livro, O Auto do Possesso (1951), ainda carrega um surrealismo de juventude. Em 1952, rompeu com aquele recinto e, com Augusto e Décio, criou a revista Noigandres. O nome, de origem provençal, chegou ao grupo por Ezra Pound: um antídoto contra a lírica que se contentava em rimar sentimento.

Em 1956, o trio ajudou a organizar a Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com desdobramento no saguão do MEC, no Rio. Em 1958, o quarto número da Noigandres publicou o Plano-piloto para a poesia concreta: fim do ciclo histórico do verso e integração verbivocovisual — verbal, vocal, visual — numa só peça. Os primeiros ciclos experimentais de Haroldo, como O Ã Mago do Ô Mega (1955), Fome de Forma (1958) e Servidão de Passagem (1961), já tratam a palavra como material gráfico e sonoro, com aliteração, assonância e trocadilho à maneira barroca.

  • 1952: revista-livro Noigandres, com Augusto de Campos e Décio Pignatari.
  • 1956: Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta, no MAM/SP.
  • 1958: Plano-piloto para a poesia concreta, no número 4 da revista.
  • 1965: Teoria da Poesia Concreta, reunião dos textos críticos e manifestos do grupo.

No fim dos anos 1960, o diálogo saiu da página para o tropicalismo. A Enciclopédia Itaú Cultural registra contato e trabalho com Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de cineastas e de Hélio Oiticica. Não foi “poeta ilustrando disco”. Foi o mesmo método: deglutir a tradição e devolver forma nova.

O que é transcriação e por que a tradução de Haroldo importa?

Em 1962, no ensaio Da Tradução como Criação e como Crítica, Haroldo formula o que depois se popularizou como transcriação. Traduzir um poema não é transportar o sentido palavra por palavra. É recriar, na língua de chegada, o ritmo, a rima interna, a colisão sonora e a tensão formal do original — mesmo que isso force o sentido literal. Sem essa oficina, a poesia concreta brasileira perde metade do argumento: ela não inventou o espaço da página no vácuo; leu quem já tinha rachado o verso.

O mapa de traduções é largo e documentado. Com Augusto e Décio, Cantares de Pound (1960) e Mallarmé (1991). Com Augusto, o Panorama do Finnegans Wake (1962). Com Augusto e Boris Schnaiderman, Poesia Russa Moderna (1968) e os poemas de Maiakóvski. Sozinho ou em parceria, fragmentos de Goethe em Deus e o Diabo no Fausto de Goethe (1981), Blanco de Octavio Paz em Transblanco (1986), Gênesis e Jó, o nô Hagoromo de Zeami, Ungaretti, Qohélet (Eclesiastes) e, no fim da vida, a Ilíada de Homero em dois volumes, com notas de Trajano Vieira. Deixou incompleta uma tradução da Commedia de Dante.

A Folha de S.Paulo, no obituário de 17 de agosto de 2003, lembra ainda o Bloomsday brasileiro, criado em 1988 com a professora Munira Mutran: a celebração das andanças de Leopold Bloom em Ulisses. A tradução, para Haroldo, não era serviço de catálogo bilingue. Era continuação do poema por outros meios.

Galáxias, Crisantempo e a briga pelo cânone

Se o irmão Augusto empurrou o poema para o cartaz, o neon e o holograma, Haroldo devolveu o fôlego longo à página. Galáxias, escrita entre 1963 e 1976 e publicada em 1984, mistura prosa e poesia em cinquenta fragmentos pensados para a leitura em voz alta. O próprio autor falava em palavras oralizadas com força de mantra. A edição da Editora 34, revista por ele antes da morte, inclui CD com a voz do poeta em dezesseis trechos.

Outros volumes marcam o percurso: Xadrez de Estrelas (1976), Signância: Quase Céu (1979), A Educação dos Cinco Sentidos (1985), Crisantempo: no espaço curvo nasce um (1998) e A Máquina do Mundo Repensada (2001). Crisantempo levou o Prêmio Jabuti de poesia em 1999. Em 1992, a Câmara Brasileira do Livro já o havia distinguido como personalidade literária do ano. A Enciclopédia Itaú Cultural registra oito Jabutis, incluindo traduções e ensaios.

Como crítico, Haroldo reabriu o barroco brasileiro contra o recorte de Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido. Em O Sequestro do Barroco (1989), defende Sousândrade e a agudeza seiscentista que a historiografia tinha empurrado para a margem. O conceito poundiano de paideuma — ler a tradição a partir das necessidades estéticas do presente — atravessa ensaios como A arte no horizonte do provável e Ideograma. A operação é antropofágica: não copiar a Europa, deglutir Homero, Mallarmé e Oswald no mesmo prato.

Onde ler e como acompanhar o legado

Quem chega agora não precisa começar pelo manifesto. Galáxias mostra o Haroldo da prosa-poema; Crisantempo reúne a poesia da maturidade; a Ilíada em dois volumes é o laboratório máximo da transcriação; Teoria da Poesia Concreta explica o programa do grupo. O perfil de autor na Amazon concentra edições em circulação. A Enciclopédia Itaú Cultural reúne verbete, obras e eventos. A Casa das Rosas, na Avenida Paulista, recebeu o nome de Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura.

Na literatura brasileira do século XX, poucos nomes mudaram ao mesmo tempo o poema, a tradução e o modo de contar a história literária. Haroldo de Campos não pede fé no rótulo “concreto”. Pede leitura em voz alta, confronto com o original e paciência para uma página que recusa ser só verso, só ensaio ou só versão. Se a expectativa for confissão lírica, a obra vai parecer fria. Se a expectativa for invenção de linguagem, ele continua sendo um dos endereços certos.

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Projetos de Haroldo de Campos

Galáxias
Galáxias
Cinquenta fragmentos de prosa-poema escritos entre 1963 e 1976, pensados para a voz e para o limite da língua portuguesa.
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Crisantempo
Crisantempo
Reunião da poesia da maturidade de Haroldo de Campos, premiada com o Jabuti de poesia em 1999.
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Ilíada de Homero
Ilíada de Homero
Transcriação da Ilíada em edição bilíngue, com os doze primeiros cantos no volume 1 e notas de Trajano Vieira.
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Teoria da Poesia Concreta
Teoria da Poesia Concreta
Textos críticos e manifestos de 1950 a 1960 reunidos por Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos.
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