José Guilherme Merquior escreveu O Liberalismo Antigo e Moderno em quatro meses, enquanto era embaixador do Brasil no México. O livro, lançado em 1991, ano em que morreu, condensa a ambição de uma trajetória curta e intensa: crítico literário aos 24 anos, diplomata de carreira, doutor pela Sorbonne e pela London School of Economics e membro da Academia Brasileira de Letras aos 40.
Nascido no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1941, Merquior morreu em 7 de janeiro de 1991, aos 49 anos, vítima de câncer de intestino. Entre a crítica de poesia e a filosofia política, construiu uma obra que atravessou estética, sociologia, história das ideias e debate público. Ficou conhecido pela erudição e pela independência de juízo — combinação que o levou a divergir de correntes intelectuais à esquerda e à direita.
Um crítico formado entre a diplomacia e a filosofia
Merquior nasceu na Tijuca e começou a publicar artigos no Jornal do Brasil aos 18 anos. Formou-se em Filosofia e em Direito e ingressou na diplomacia em primeiro lugar no concurso do Instituto Rio Branco. A carreira o levou a Bonn, Londres, Paris e Montevidéu; mais tarde, foi embaixador no México e representante permanente do Brasil junto à UNESCO.
A formação acadêmica acompanhou o serviço diplomático. Concluiu o doutorado na Sorbonne em 1966 e, depois, um doutorado em sociologia na London School of Economics, sob orientação de Ernest Gellner. A biografia difundida por seus comentadores menciona três doutorados. Essa passagem por instituições europeias ajuda a entender o método que aplicaria à literatura e às ciências sociais: leitura cerrada, comparação de tradições e recusa de filiações dogmáticas.
A obra entre a crítica literária e a história das ideias
O primeiro livro, Razão do Poema, saiu em 1965, mesmo ano em que iniciou a carreira de escritor. A obra de estreia reúne ensaios sobre poesia e estética e já mostrava o interesse de Merquior pela teoria literária — interesse que voltaria em Verso Universo em Drummond (1976) e em De Anchieta a Euclides (1977), uma breve história da literatura brasileira.
Em 1969, Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin levou o crítico ao centro do debate sobre a Escola de Frankfurt. O livro examina como os três pensadores alemães articularam arte, indústria cultural e crítica social. A estética continuaria presente em A Estética de Lévi-Strauss (1975), estudo sobre o pensamento do antropólogo francês, e em Crítica (1990), coletânea publicada um ano antes de sua morte.
Merquior também escreveu sobre Foucault, em Michel Foucault ou o Niilismo de Cátedra (1985), e sobre o marxismo ocidental, em livro de 1987 que percorre a tradição de Lukács e Gramsci à Escola de Frankfurt. O Argumento Liberal (1983) reuniu artigos sobre Vico, Kant, Gellner, Rawls e Habermas, além do texto que iniciou sua polêmica com Marilena Chauí. O Liberalismo Antigo e Moderno, sua obra de maior fôlego, saiu em 1991 e foi reeditado pela É Realizações em 2014.
O liberalismo social de Merquior
Merquior defendia o que chamava de liberalismo social. A expressão não significava menos Estado a qualquer custo, mas um Estado contido, capaz de garantir liberdade, igualdade de oportunidades e serviços públicos. Em textos e aulas, distinguia essa posição do neoliberalismo, que associava à confiança exclusiva no mercado. Para ele, o mercado era necessário à criação de riqueza, mas insuficiente para sustentar a liberdade moderna.
A formulação teve consequências políticas. Merquior trabalhou ao lado de Roberto Campos, colaborou na redação do discurso de posse de Fernando Collor e participou da elaboração do que o governo chamou de social-liberalismo. Em 1990, foi convidado a assumir o Ministério da Cultura e recusou. A aproximação com o governo Collor não o transformou em ideólogo de partido: sua obra mantém uma distância crítica em relação a qualquer ortodoxia, inclusive a liberal.
Como Merquior se tornou uma figura central do debate intelectual
Em 11 de março de 1982, foi eleito para a cadeira 36 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Paulo Carneiro. Tomou posse um ano depois, recebido por Josué Montello. A cadeira seria ocupada mais tarde por João de Scantimburgo e por Fernando Henrique Cardoso, o que ajuda a medir o peso institucional de sua eleição.
Os depoimentos reunidos sobre ele variam entre a admiração e a reserva. O ex-ministro da Educação Eduardo Portella o chamou de “a mais fascinante máquina de pensar do Brasil pós-modernista”. O antropólogo Claude Lévi-Strauss disse que Merquior era “um dos espíritos mais vivos e mais bem informados de nosso tempo”. A filósofa Marilena Chauí, com quem polemizou, o descreveu como um “talentoso porta-voz da direita”. As três frases, vindas de campos distintos, mostram por que sua obra continuou sendo discutida.
A polêmica com Marilena Chauí
Na década de 1980, Merquior acusou Marilena Chauí de “plágio não-doloso” de formulações do filósofo Claude Lefort. A acusação foi levada a público por jornais e provocou uma reação de colegas da filósofa. Chauí respondeu que era tradutora de Lefort e que mantinha com ele formação comum e intercâmbio intelectual, o que tornaria sem sentido a ideia de plágio. O episódio ficou como um exemplo do estilo combativo de Merquior e do lugar central que a controvérsia ocupava em sua vida intelectual.
O legado editorial e o acervo
A É Realizações publica a Biblioteca José Guilherme Merquior, coleção que reeditou títulos como Razão do Poema, A Estética de Lévi-Strauss, O Liberalismo Antigo e Moderno e O Marxismo Ocidental. A editora também mantém o Acervo José Guilherme Merquior, com cartas, fotografias e anotações do autor. Em 2015, produziu o documentário José Guilherme Merquior — Paixão pela Razão, com depoimentos de Alberto da Costa e Silva, Bolívar Lamounier, Celso Lafer, Nélida Piñon e João Cezar de Castro Rocha, entre outros.
Essa retomada editorial permite ler Merquior para além dos rótulos. Sua obra não se reduz à defesa do liberalismo nem à crítica do marxismo. Ela inclui estudos sobre poesia, romance, estruturalismo, estética e história das ideias, escritos com uma erudição que não dispensava a clareza. Para quem quer entender a formação do pensamento liberal brasileiro no século XX, os livros de Merquior são uma porta de entrada exigente e produtiva.
Entre as obras disponíveis em edições recentes, destacam-se:
- Razão do Poema (1965), sua estreia na crítica literária;
- A Estética de Lévi-Strauss (1975), estudo sobre arte e estruturalismo;
- O Argumento Liberal (1983), defesa acessível do liberalismo social;
- O Marxismo Ocidental (1987), crítica à tradição cultural da esquerda europeia;
- O Liberalismo Antigo e Moderno (1991), síntese de sua reflexão política.






