Leilah Assumpção estreou como dramaturga em 1969 com uma peça que coloca uma mulher comum cara a cara com um ladrão que invade o quarto dela. Fala Baixo Senão Eu Grito terminou a temporada com o Prêmio Molière e com o prêmio da Associação Paulista de Críticos Teatrais e nunca mais saiu de cena.
Nascida em Botucatu, no interior de São Paulo, Maria de Lourdes Torres de Assumpção formou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo em 1964. Antes de escrever, foi manequim de alta-costura, atriz em montagens de Jorge Andrade e Bertolt Brecht e aluna de teatro de Eugênio Kusnet, Renata Pallottini e Miroel Silveira. Essa soma de passarela, palco e sala de aula continua visível no jeito direto com que ela trata o que acontece entre quatro paredes.
Quem é Leilah Assumpção
Ela pertence à geração de autores que despontou no fim dos anos 1960 e ficou marcada pela invenção de personagens femininas densas. A escritora Renata Pallottini afirmou que Leilah criou um diálogo inusitado e personagens inéditos, enquanto o crítico Yan Michalski descreveu sua produção como uma das mais fortes daquela geração e também uma das mais censuradas durante o regime militar.
O tema central de suas peças é a situação da mulher na sociedade. Leilah escreve sobre mulheres que não se questionam, sobre casais que se despedaçam e sobre uma engrenagem social que premia aparência e dinheiro. As personagens costumam romper com a rotina não por meio de uma revolução prática, mas pela imaginação: sonham com outra vida, experimentam outra pele e depois voltam, ou não, para o lugar de onde saíram.
Fala Baixo Senão Eu Grito: a estreia que virou marco
A peça de estreia acompanha Mariazinha, uma solteirona que vive num pensionato de freiras e tem a rotina interrompida na noite em que um assaltante entra pela janela do quarto. A conversa entre os dois dura até o amanhecer e obriga a personagem a encarar frustrações que ela mesma evitava. Dirigida por Clóvis Bueno, a montagem de 1969 trouxe Marília Pêra no papel principal e Paulo Villaça no do invasor, ganhou o Prêmio Molière e o prêmio da APCT e passou a ser remontada no Brasil e no exterior.
O texto também ajuda a entender o peso da censura na trajetória da autora. Documentos de 1979 preservados no Arquivo Nacional registram o envio de três cópias da peça para análise do serviço de censura antes de uma temporada no Rio de Janeiro, prática comum para quem escrevia teatro naquele período.
As peças que discutem o lugar da mulher
- Jorginho, o Machão (1970): outra vez com direção de Clóvis Bueno, desloca o olhar para um rapaz pressionado pela família a casar e assumir o negócio do pai.
- Roda Cor de Roda (1975): retrabalho de Amanhã, Amélia, de Manhã, ganhou montagem de Antônio Abujamra com Irene Ravache e discute o mito da mulher bem comportada.
- A Kuka de Kamaiorá (1975): premiada em concurso do Serviço Nacional de Teatro, é a incursão menos realista da autora, com uma fábula sobre gravidez e repressão.
- Boca Molhada de Paixão Calada (1984): dirigida por Myriam Muniz, acompanha um casal que se reencontra depois da separação.
- Lua Nua (1987): com direção de Odavlas Petti, leva o humor cáustico para os conflitos conjugais.
- Adorável Desgraçada (1994): monólogo dirigido por Fauzi Arap que rendeu à autora o prêmio de melhor autora da APCA e ganhou nova montagem anos depois, com Débora Duarte, direção de Otávio Müller e cenários e figurinos de Bia Lessa, para celebrar os 40 anos de carreira.
Da televisão aos livros: uma obra em várias linguagens
Na televisão, Leilah escreveu a novela Venha Ver o Sol na Estrada, exibida pela Record em 1973 com direção de Antunes Filho e censurada por tratar da emancipação feminina e de uma protagonista que não queria se casar. Na TV Globo, assinou com Daniel Más as minisséries Avenida Paulista (1982) e Moinhos de Vento (1983). Em 1988, representou o Brasil no Festival Internacional de Dramaturgas, em Buffalo, nos Estados Unidos.
Na linhagem da dramaturgia brasileira que passa por Nelson Rodrigues e desemboca nos autores formados nos anos 1960, Leilah ocupa o lugar de quem levou para o palco a narrativa feminina que ainda não tinha voz. Parte dessa produção está reunida em livro: Onze Peças de Leilah Assumpção, publicado pela Casa da Palavra em 2010, reúne textos encenados no Brasil e no exterior. Em 2019, ela voltou às livrarias com Memórias Sinceras, balanço pessoal dos 50 anos de teatro. Antes, em 1998, havia publicado Na Palma da Minha Mão, escrito a partir de bilhetes para a filha adolescente, e teve a trajetória perfilada por Eliana Pace na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial.
Por que as peças continuam sendo montadas
A permanência de Leilah vem menos de um estilo fixo e mais da precisão com que suas personagens falam. A linguagem mistura veemência, humor e uma coloquialidade que envelheceu bem: as mulheres de Fala Baixo Senão Eu Grito, Roda Cor de Roda e Adorável Desgraçada não são exemplos de virtude nem vítimas passivas, e é justamente esse meio-termo que mantém as peças vivas em montagens e leituras décadas depois da estreia.
Para quem estuda teatro, a obra serve como retrato de um período em que a dramaturgia brasileira discutia censura, sexualidade e comportamento ao mesmo tempo em que inventava novas formas de escrever diálogo. Para quem apenas gosta de teatro, a porta de entrada mais direta continua sendo o texto de 1969, uma noite inteira de conversa entre dois desconhecidos que, no fundo, fala sobre escolhas que não foram feitas.
Perguntas frequentes
Qual foi a primeira peça de Leilah Assumpção?
Fala Baixo Senão Eu Grito, encenada pela primeira vez em 1969 e premiada com o Molière e com o prêmio da APCT.
Quais livros reúnem a obra teatral dela?
Onze Peças de Leilah Assumpção, de 2010, reúne onze textos teatrais. A trajetória completa está em Memórias Sinceras (2019) e no perfil da Coleção Aplauso assinado por Eliana Pace (2007).
Por que a obra dela foi censurada?
O teatro da autora trata de emancipação feminina, sexualidade e crítica social em plena ditadura militar. Peças e novelas sofreram cortes e exigiram liberação prévia, como mostram documentos de censura de 1979 guardados no Arquivo Nacional.
Como ler as peças hoje?
Os textos estão reunidos em livro e seguem sendo montados por companhias de teatro em várias cidades, o que faz de cada temporada uma nova porta de entrada para a obra.





