Lúcia Veríssimo entrou na TV Bandeirantes em 1981 para viver Isabel em Os Imigrantes, novela de Benedito Ruy Barbosa que foi vendida para vários países e levou seu nome ao exterior. Mais de quatro décadas depois, a atriz carioca segue em cena: emendou a série Rensga Hits!, do Globoplay, com a nova Dona Beja, da Globo, e mantém uma rotina que mistura sets, cavalos e plantio orgânico na Fazenda Independência, em Minas Gerais.
Nascida no Rio de Janeiro em 11 de julho de 1958, Lúcia Veríssimo de Araújo Silva cresceu no Leblon em uma casa onde a música era ofício. Filha do maestro Severino Filho, fundador do conjunto vocal Os Cariocas, ela acompanhou de perto a engrenagem que levou a bossa nova ao rádio e aos palcos internacionais. A convivência com esse repertório aparece, décadas mais tarde, no documentário que dirigiu sobre 70 anos de música brasileira e a trajetória do pai.
A formação no Leblon e os primeiros palcos
Lúcia cresceu no Leblon, em uma família de classe média alta. Estudou no Colégio Rio de Janeiro, onde foi colega de Christiane Torloni; foi a atriz quem a incentivou a tentar o cinema. Antes disso, cursou jornalismo na Universidade da Cidade e chegou a exercer a profissão por pouco tempo, até descobrir o teatro. Ainda criança, aos seis anos, já participava de montagens; na adolescência, estudou no Teatro O Tablado, de Maria Clara Machado.
O primeiro trabalho no cinema veio em 1979, com Ariella, dirigido por John Herbert. No ano seguinte, ela estreou na televisão com Marina, na Globo, como Ana Noronha. A personagem abriu a porta para uma sequência de papéis em emissoras diferentes, algo raro para uma atriz que começava a se firmar no horário nobre.
As novelas que fizeram Lúcia Veríssimo conhecida
Depois de Marina, ela foi para a Bandeirantes viver Isabel em Os Imigrantes, novela de Benedito Ruy Barbosa que acompanhava a chegada de imigrantes ao Brasil e se tornou um dos primeiros grandes êxitos de audiência da emissora. Na volta à Globo, passou a emendar tramas de época e contemporâneas, muitas delas assinadas por autores que marcaram a teledramaturgia brasileira.
- Champagne (1983), de Cassiano Gabus Mendes, como Eli;
- Roda de Fogo (1986), de Lauro César Muniz, como Laís Brandão;
- Mandala (1987), de Dias Gomes e Marcílio de Morais, como Letícia Ramalho;
- O Salvador da Pátria (1989), de Lauro César Muniz, como Bárbara Souza Telles;
- América (2005), de Gloria Perez, como Gilmara Madureira.
A lista de trabalhos inclui ainda Delegacia de Mulheres (1990), Araponga (1990), O Sorriso do Lagarto (1991), Despedida de Solteiro (1992), Agosto (1993) e Cara & Coroa (1995). Em 2002, viveu Francisca Moreira Alves em Esperança; em 2011, fez Amor e Revolução, no SBT; em 2013, interpretou Mariah Piattini em Amor à Vida, de Walcyr Carrasco.
Em 2022, voltou ao streaming em Rensga Hits!, do Globoplay, como Maria Abadia Medeiros. A série sobre cantoras sertanejas teve temporadas até 2025. Em 2026, entrou em Dona Beja, da Globo, como Madre Idalina, numa fase da carreira em que alterna trabalhos na televisão com a rotina no campo.
Cinema, teatro e a passagem para a direção
No cinema, Lúcia Veríssimo acumulou papéis em filmes como A Mulher Sensual (1981), Filhos e Amantes (1981), Um Casal de 3 (1982), Jeitosa, Um Assunto Muito Particular (1985), As Feras (1985) e O Homem Nu (1997). A passagem pelo cinema comercial dos anos 1980 conviveu com a televisão e com o teatro, sem que ela abandonasse nenhuma das três frentes.
No teatro, passou por O Natal (1964), Por Um Triz Não Sou Feliz (1985), Black Out (1987), Monólogos da Vagina (2004), Uma Mulher do Outro Mundo (2011) e Usufruto (2009-2016), sua primeira peça como autora. A montagem de Usufruto, dirigida por José Possi Neto, ficou cinco meses no Teatro FAAP, em São Paulo, e seguiu em turnê por outras cidades.
A passagem para a direção veio em 1997, com Terra Brasil, série de 24 programas feita em película para o GNT e premiada no New York Festivals. Em 2017, dirigiu, produziu e narrou Eu Meu Pai e os Cariocas, documentário que abriu o festival É Tudo Verdade e acumulou prêmios no Brasil, em Barcelona, em Lisboa e na Itália.
Os Cariocas e o documentário sobre a música brasileira
Severino Filho fundou Os Cariocas, conjunto vocal que ajudou a lançar a bossa nova no Brasil. O grupo ficou conhecido pelos arranjos vocais e pela introdução de uma voz em falsete, recurso que abriu caminho para formações posteriores. Lúcia cresceu ouvindo os ensaios e acompanhou a carreira do pai antes de transformá-la em filme.
Eu Meu Pai e os Cariocas parte da trajetória do maestro e da Rádio Nacional para contar 70 anos de música brasileira, de 1946 a 2016. Foram mais de 60 depoimentos de artistas, musicólogos, escritores e historiadores, além de 134 músicas. Lúcia assina roteiro, direção, produção e narração. O filme abriu o É Tudo Verdade em 2017 e venceu o prêmio de melhor filme do júri oficial no In-Edit Brasil e no In-Edit Barcelona, além de melhor filme pelo júri popular e menção honrosa no Muvi, em Lisboa. Também passou pelo Miami Film Festival e levou o prêmio do público no Festival Internacional de Cinema Brasileiro de Milão, em 2018.
A Fazenda Independência e o ativismo pelos animais
Fora dos estúdios, Lúcia Veríssimo mantém a Fazenda Independência, em Minas Gerais. O local é apresentado por ela como uma fazenda modelo de desenvolvimento sustentável, com gado leiteiro, caprinos, aves, cavalos e plantio de feijão, milho, abóbora, hortaliças e frutas. A criação de cavalos das raças Mangalarga Marchador e Quarto de Milha começou na juventude, com hipismo clássico e competições de apartação de bois.
A propriedade não cria animais para engorda. Os que deixam de produzir permanecem na fazenda até o fim da vida, em pastos separados que ela chama de asilos. A alimentação é balanceada por veterinários e feita no próprio local, com ingredientes orgânicos; o plantio também usa adubo orgânico. Desde 2007, a fazenda mantém um apiário, que se tornou uma das frentes mais acompanhadas por Lúcia.
O estatuto da propriedade proíbe os funcionários de manter animais presos, inclusive pássaros, e as aves circulam livres. A ordenha é manual, cada vaca é chamada pelo nome e os bezerros ficam com as mães antes da retirada do leite. A fazenda protege nascentes com plantio de mata nativa e construiu cinco açudes para manter a umidade do solo. O projeto futuro é abrir as porteiras para visitação e firmar parceria com alguma universidade para aulas técnicas em campo.
O cuidado com os animais não ficou restrito à fazenda. Lúcia é vegetariana desde 1983, apoia a campanha Segunda sem Carne e criou a SAGA, Sociedade dos Amigos da Guarda Ambiental, além do Bicho Solto, braço voltado à castração de cães e gatos de rua. A atuação pública nessa área acompanha a carreira artística há décadas.
Cachaça, Canela Produções e a vida fora da TV
Em 1982, Lúcia fundou a Canela Produções Artísticas para administrar os projetos da carreira. A empresa produziu espetáculos teatrais, CDs e programas de TV, entre eles Terra Brasil, filmado em película em 1997 e premiado no New York Festival. A produtora também assina a realização de Eu Meu Pai e os Cariocas, ao lado de Globo Filmes e Ancine.
Outra frente é a Cachaça Lúcia Veríssimo, garrafa de 700 ml que leva o nome da atriz e é apresentada em uma página própria do site oficial. O contato para informações é lvbebidas@luciaverissimo.com. A marca se soma ao universo rural da Fazenda Independência, onde ela mantém criação de cavalos e plantio orgânico.
Uma trajetória marcada por reinvenções
A carreira de Lúcia Veríssimo não se explica por um único papel. A atriz que começou no Tablado e virou presença constante nas novelas da Globo também dirigiu um documentário sobre a história da música brasileira, escreveu e produziu uma peça, criou uma produtora, uma marca de cachaça e uma fazenda voltada para a criação animal sem abate. Em 2026, ela segue em Dona Beja e mantém a rotina no campo, onde cavalos, abelhas e hortas dividem espaço com a memória de Os Cariocas.





