Depois de décadas como contista, Dalton Trevisan publicou em 1985 o único romance da obra. A Polaquinha troca o recorte ultracurto por uma narradora-protagonista: uma jovem loira, de origem polonesa e classe média, que usa beleza e sexualidade para atravessar Curitiba. Não é a “versão mulher” do Vampiro. É outra cidadã da mesma cidade, real e irreal ao mesmo tempo.
Otto Lara Resende, amigo e leitor próximo, descreveu o livro como história de amor louco e erotismo, com culpa, castigo e uma vida implacável. A narradora em primeira pessoa puxa o leitor para dentro, às vezes no “tu”, e transforma a leitura numa intimidade desconfortável. Trevisan, mestre do conto, aqui sustenta o fôlego sem abandonar a lâmina.
Do que o romance trata
A trama acompanha a jovem desde a perda da virgindade até uma sequência de namoros, chefes, alcoviteiras e transações em que o sexo vira moeda. Há família, sanatório, ciúme, pobreza e a descoberta de que, naquela sociedade, o corpo feminino é tratado como objeto e, ao mesmo tempo, como único capital disponível.
Curitiba continua nublada, fria e mesquinha. O tempo não vem datado com jornal, mas o mundo ainda é o das revistas, das casas fechadas e das reputações de bairro. O livro é explícito. Trechos passam do limite de propósito: a crueza é o método, não um enfeite. Quem busca romance lírico de formação se choca; quem aceita o desconforto encontra o Trevisan mais dilatado.
Para quem este livro faz sentido
- Leitores que já conhecem os contos e querem o único romance do autor.
- Quem se interessa por narradora mulher num universo até então dominado por João, Maria e Nelsinho.
- Leitores dispostos a erotismo explícito, violência moral e ausência de consolo.
- Quem lê literatura brasileira de Curitiba para além do retrato masculino da caça noturna.
Edição e como ler
A edição da Record, em português, tem 176 páginas. A capa traz ilustração de uma figura feminina nua sobre fundo vermelho, identidade clássica da casa. Há também edição posterior na coleção relançada pela Todavia; na hora da compra, confira editora, ISBN e formato para não misturar item antigo com relançamento.
O romance pede leitura contínua. Ao contrário dos contos, o efeito depende da permanência da voz. A narradora se aproxima, se contradiz, se entrega e se reduz. Otto Lara Resende observou que a Polaquinha e o Vampiro não são espelhos: ambos habitam uma Curitiba que é e não é a cidade do mapa. Vale ler com isso em mente, sem transformar a protagonista em tese pronta nem em retrato sociológico engessado.
A prosa continua falada, com diálogo direto e imagens de rua, quarto e emprego. O alongamento não vira enfeite: cada namorado, cada chefe e cada parente aperta o mesmo cerco. Quem já leu os contos reconhece o corte; quem nunca leu Trevisan pode achar o livro curto para romance e longo demais para conto. Essa estranheza faz parte do objeto.
Por que o livro importa na obra
Trevisan passou a vida recusando o romance como forma. A Polaquinha é a exceção que confirma o método: mesmo alongado, o texto continua cortante, falado, implacável. Para o leitor, é o ponto em que a autoridade do contista se arrisca noutro gênero. Para a obra, é a prova de que Curitiba, nele, não precisava de conto curto para continuar cruel.




