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Foto de perfil de Dalton Trevisan

Dalton Trevisan

Vampiro de Curitiba

Nascimento: 1925 Curitiba, PR
Contista de Curitiba, autor de O Vampiro de Curitiba e vencedor do Prêmio Camões, Dalton Trevisan fez do conto curto e da vida urbana o centro de uma obra reclusa.

Quem procura Dalton Trevisan quase sempre chega pelo apelido. Vampiro de Curitiba não começou como folclore de calçada: saiu de um livro de 1965 e grudou no autor porque ele recusou entrevista, foto combinada e festa literária com a mesma disciplina com que aparava uma frase.

Dalton Jérson Trevisan nasceu em Curitiba em 14 de junho de 1925 e morreu na mesma cidade em 9 de dezembro de 2024, aos 99 anos. Foi advogado por sete anos, editor da revista Joaquim e, acima de tudo, o contista que fez da capital paranaense um mapa de ciúme, sexo, violência miúda e solidão. A reclusão virou fama pública; a obra, o contrário disso: dezenas de volumes, quatro Prêmios Jabuti, o Prêmio Camões de 2012 e o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras.

Quem foi Dalton Trevisan

Trevisan estudou no Colégio Estadual do Paraná e, ainda jovem, trabalhou na fábrica de louça, refratário e vidro da família. Formou-se pela Faculdade de Direito do Paraná, hoje Universidade Federal do Paraná, e chegou a exercer a advocacia. Também atuou como crítico de cinema e repórter policial, ofícios que deixaram marca na prosa: o ouvido de quem anda pela rua e o recorte de quem lê a página policial.

A carreira literária pública, no entanto, não se construiu em palanque. Ele assinou como D. Trevis, não recebia estranhos e, quando ganhava prêmio, costumava mandar representante. Em 1972 deu uma das últimas conversas formais à imprensa e deixou uma frase que resume o método: o autor não vale o personagem. O conto, insistia, é sempre melhor que o contista.

Por que o chamavam de Vampiro de Curitiba

O apelido veio de O Vampiro de Curitiba, coletânea de 1965 protagonizada por Nelsinho, anti-herói que perambula pela cidade em busca de aventuras sexuais. A alcunha pegou porque o livro e o homem coincidiram: o personagem suga; o autor some. Trevisan era avesso a aparições, autógrafos e fotografias. A imprensa ajudou a misturar as duas figuras, e o leitor passou a tratar o título como biografia.

Isso não significa que ele tenha vivido trancado. Pedestre com aversão a carro e buzina, circulou pelo centro de Curitiba por décadas, sobretudo pelo calçadão da Rua XV de Novembro. A cidade era cárcere, lar e matéria-prima. Antonio Candido o chamou de mestre do conto curto e cruel, criador de uma mitologia da própria Curitiba. A reclusão protegia a privacidade; a rua alimentava o texto.

Da fábrica ao Direito e à revista Joaquim

Ainda estudante, Trevisan lançava contos em folhetos modestos. Entre 1946 e 1948 liderou o grupo que publicou a revista Joaquim, cujo nome, segundo ele, era “uma homenagem a todos os Joaquins do Brasil”. A publicação durou 21 edições e pôs o Paraná no mapa da conversa literária brasileira. Reunia ensaios de Antonio Candido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux, além de poemas então inéditos, como “O Caso do Vestido”, de Carlos Drummond de Andrade.

Havia também traduções de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide, e ilustrações de Poty Lazzarotto, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres. Dali saíram os primeiros livros de ficção, inclusive Sonata ao Luar (1945) e Sete Anos de Pastor (1948), obras que o autor mais tarde renegou. Em 1954 ainda publicou folhetos à maneira de feira, como o Guia Histórico de Curitiba e crônicas da província. A estreia nacional consolidada veio em 1959, com Novelas Nada Exemplares, que lhe deu o primeiro Jabuti. Como se esperava, mandou outra pessoa receber o prêmio.

Como ele escrevia

A marca mais visível da prosa é o corte. Trevisan reduz caso, diálogo e desfecho ao osso, com linguagem popular e tramas psicológicas que cabem em poucas páginas. Críticos compararam seus contos a haicais em prosa. Os personagens são gordos ou magros demais, sujos, doentes, angustiados, perdidos ou querendo se perder. Curitiba aparece como vila, cárcere e palco universal: a rua local serve para falar do que se repete em qualquer cidade.

Ao longo das décadas o formato ficou ainda mais curto. Ah, é?, de 1994, é o marco dessa virada minimalista. Fora do livro, o ouvido de repórter continuava em funcionamento: ele frequentava redação, livraria e calçada para captar histórias que depois destilava. Em 1968, isolado do meio intelectual e concorrendo sob pseudônimo, ganhou o I Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná. Em 1974, A Guerra Conjugal virou filme de Joaquim Pedro de Andrade, com histórias e diálogos do próprio autor.

Livros, prêmios e o único romance

O catálogo é longo e desigual só na fama, não na persistência. Depois de Novelas Nada Exemplares vieram Morte na Praça e Cemitério de Elefantes (1964), O Vampiro de Curitiba (1965), Desastres do Amor e Mistérios de Curitiba (1968), além de dezenas de coletâneas até O Beijo na Nuca (2014) e a Antologia pessoal (2023). O único romance publicado é A Polaquinha (1985), narrado por uma jovem de origem polonesa em Curitiba.

Os prêmios acompanharam a obra mesmo quando o autor recusava o palco:

  • Prêmio Jabuti em 1960, 1965, 1995 e 2011;
  • Prêmio Camões de 2012, por unanimidade, o principal da língua portuguesa;
  • Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, também em 2012, pelo conjunto da obra;
  • Portugal Telecom de Literatura Brasileira, atual Oceanos, em 2003;
  • prêmios da Fundação Biblioteca Nacional, APCA e outras honrarias de conto e conjunto.

Em 1972, Gregory Rabassa traduziu para o inglês Novelas Nada Exemplares e The Vampire of Curitiba and Other Stories. Houve edições em espanhol, alemão, holandês e outras línguas. O reconhecimento internacional não o tirou de Curitiba. Também não o empurrou para a sombra de Machado de Assis: o prêmio da Academia leva o nome do romancista, mas o ofício de Trevisan é outro, o do conto que cabe no bolso e fere depressa.

Por onde começar a ler

Quem chega pelo apelido pode ir direto a O Vampiro de Curitiba e acompanhar Nelsinho. Quem quer o Trevisan da melancolia urbana encontra um caminho mais seco em Cemitério de Elefantes. A Polaquinha serve a quem quer o único romance, com narradora mulher e uma Curitiba de desejo, culpa e castigo. Para um panorama, a antologia Educação Sentimental do Vampiro, organizada por Caetano W. Galindo e Felipe Hirsch, reúne contos de várias fases na coleção relançada pela Todavia.

Há ainda o aviso útil: os dois primeiros livros foram repudiados pelo autor. Vale conhecê-los como peça de formação, não como porta de entrada. E há o outro aviso, mais prático: Trevisan escreve curto, mas não escreve leve. Sexo, violência e hipocrisia doméstica aparecem sem anestesia. A concisão não é delicadeza; é lâmina.

O que ficou depois de 2024

Trevisan morreu em Curitiba em 9 de dezembro de 2024. A Secretaria de Estado da Cultura do Paraná confirmou a morte; a causa não foi divulgada. Em vida, formalizou a doação do acervo ao Instituto Moreira Salles, com biblioteca, cartas, diários, fotografias e recortes. A correspondência com Otto Lara Resende já estava no instituto desde 2020.

No centenário de 2025, a Todavia passou a relançar a obra completa, com cadernos de “Canteiro de Obras” que mostram anotações, cartas e desenhos. O contrato, fechado com a agente Fabiana Faversani, previa dezenas de volumes. A figura pública que recusou palco deixou, no fim, um arquivo para ser lido. O vampiro some; os contos continuam na rua.

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Projetos de Dalton Trevisan

O Vampiro de Curitiba
O Vampiro de Curitiba
Coletânea de 1965 que consolidou Dalton Trevisan e deu origem ao apelido Vampiro de Curitiba, com Nelsinho percorrendo a cidade em busca de aventuras.
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Cemitério de Elefantes
Cemitério de Elefantes
Coletânea de 1964 em que Dalton Trevisan expõe solidão, doença e desamparo urbano em contos curtos ambientados na vida comum de Curitiba.
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A Polaquinha
A Polaquinha
Único romance de Dalton Trevisan, publicado em 1985, narrado por uma jovem de origem polonesa em Curitiba, entre desejo, culpa e ascensão social.
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Educação Sentimental do Vampiro
Educação Sentimental do Vampiro
Antologia de 2025 organizada por Caetano W. Galindo e Felipe Hirsch, com contos de várias fases de Dalton Trevisan para novos e velhos leitores.
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