Nem todo leitor quer começar por um único livro-fetiche. Educação Sentimental do Vampiro existe para isso: é uma antologia de 2025, organizada por Caetano W. Galindo e Felipe Hirsch, que atravessa fases da obra de Dalton Trevisan sem fingir que um título sozinho dá conta do contista.
O volume saiu na coleção da Todavia no ano do centenário, com 232 páginas. Não é livro póstumo “inventado”: é seleção a partir da obra já publicada, pensada para renovar leitores e oferecer um panorama. Galindo, tradutor e escritor, e Hirsch, encenador, conhecem o arquivo e o ritmo da prosa. A aposta é mostrar o Trevisan além de Nelsinho, sem esconder o Nelsinho.
O que a antologia reúne
Em vez de uma fase só, o livro costura contos de diferentes décadas. Dá para ver o autor do cotidiano conjugal, o da crônica policial, o do minimalismo dos anos 1990 e o da cidade como personagem. A educação sentimental do título é irônica: ninguém sai “formado” para o bem. Sai treinado para ler o corte, o sexo seco e a piada cruel.
Para quem nunca leu Trevisan, a antologia reduz o risco de escolher o volume errado. Para quem já leu o Vampiro, oferece o contrapeso: há mais João e Maria, mais violência miúda, mais humor, mais síntese. O nome do autor continua sendo um método, não um personagem único.
Para quem este livro faz sentido
- Quem quer uma porta de entrada ampla, não um único clássico isolado.
- Leitores novos, inclusive mais jovens, atraídos pela brevidade e pelo choque da forma.
- Quem já conhece o apelido e precisa de mapa para o restante do catálogo.
- Professores, clubes de leitura e quem prefere um volume de navegação antes de comprar a obra inteira.
Como usar o volume
Não é obrigatório ler em ordem. A antologia funciona como discoteca: entra-se por um conto, sai-se por outro, volta-se ao índice. O ganho está na comparação. Um texto dos anos 1960 ao lado de um miniconto posterior mostra o que Trevisan foi enxugando. A Curitiba permanece; a frase fica menor.
A edição da Todavia dialoga com os relançamentos de O Vampiro de Curitiba, Ah, é?, Desgracida e outros títulos da coleção. Se o objetivo for um livro só, comece por aqui. Se o objetivo for a obra, use a antologia como índice vivo e siga para os volumes inteiros. Confira sempre se o item é a capa comum da antologia, em português, ISBN da Todavia, e não um e-book ou reimpressão de outro selo com título parecido.
Galindo e Hirsch organizam com ouvido de quem lê Trevisan em voz alta. A seleção não promete “os melhores de todos os tempos”; oferece um caminho. Isso importa porque o catálogo é grande e desigual na fama: muita gente para no vampiro e não vê o restante da lâmina. A antologia corrige o atalho sem transformar o autor em linha do tempo escolar.
Por que ela importa agora
Trevisan passou a vida recusando a exposição. Depois de 2024, a obra precisa de caminhos de leitura, não de culto vazio. Esta antologia é o caminho mais honesto para quem chega hoje: mostra o contista em movimento, do folhetim à lâmina curta, sem transformar o vampiro em mascote. É livro de entrada e, para muita gente, o volume que decide se haverá segundo livro.




