Quem chega a Dalton Trevisan pelo apelido encontra neste livro a origem do nome. Publicado em 1965, O Vampiro de Curitiba não é um romance de horror: é uma coletânea de contos em que Nelsinho perambula pela capital paranaense atrás de sexo, lábia e alguma forma de domínio. O vampiro aqui tem carne, gravata e fome de gente.
A edição atual da Todavia, de 2025, devolve o título ao centro da obra relançada no centenário do autor. São 112 páginas de prosa curta, com arte de capa de Filipa Damião Pinto. O volume também traz a seção “Canteiro de Obras”, com material de arquivo. Publicado originalmente há seis décadas, o livro foi traduzido por Gregory Rabassa e chegou a superar 100 mil exemplares ao longo do tempo.
O que o livro faz
Os contos recortam fases diferentes da vida de Nelsinho. Em cada um, o “herói” se apresenta como sedutor, patético, cruel ou as três coisas ao mesmo tempo. A ironia está no próprio tratamento: chamar de herói quem só consome o outro. A Curitiba de hotéis baratos, pontes, professoras, mães e namoradas vira cenário de uma guerra miúda entre desejo e desprezo.
Trevisan escreve em frases curtas, quase cinematográficas. Corta a cena no osso. O erotismo existe, mas o centro não é o prazer: é o comportamento. Há contos que incomodam de propósito, como os que expõem abuso, hipocrisia e a naturalidade com que um homem se coloca como vítima da própria caça. A concisão impede discurso. O leitor vê o gesto e fica com o gosto.
Para quem este livro faz sentido
- Quem quer entender por que Trevisan ficou conhecido como Vampiro de Curitiba.
- Leitores de conto brasileiro que suportam prosa seca, sexo explícito e humor ácido.
- Quem prefere volume curto, de leitura rápida, mas sem conforto moral.
- Estudantes e leitores que precisam de uma porta de entrada canônica, não de antologia ampla.
Não é o livro mais suave do autor. Tampouco é fantasia vampiresca. Quem busca gore sobrenatural se perde; quem busca o retrato de um cafajeste urbano encontra o mapa.
Como ler e o que esperar da edição
A leitura rende mais em voz baixa e sem pressa de “entender o recado”. Cada conto funciona sozinho, mas o conjunto desenha Nelsinho como tipo: o brasileiro médio em versão predadora, ridícula e perigosa. Títulos como “Visita à professora”, “Encontro com Elisa” e “Debaixo da Ponte Preta” costumam ser os mais citados por quem relê.
Na edição da Todavia, vale olhar o papel, o tamanho compacto e o material de arquivo no fim. O “Canteiro de Obras” não substitui os contos; só mostra o artesanato de quem cortava até doer. A classificação etária indica 18 anos. Antes de comprar, confira se o item é a edição de 2025 da coleção Dalton Trevisan, em português, e não uma reimpressão antiga com outro projeto gráfico.
Relação com o restante da obra
Este é o livro da fama, não necessariamente o da maior invenção formal. Depois dele, Trevisan ainda encurtaria mais o conto, sobretudo a partir dos anos 1990. Quem gostar de Nelsinho pode seguir para outras coletâneas da mesma cidade; quem quiser o Trevisan mais lapidado pode ir a volumes posteriores. Em qualquer caminho, O Vampiro de Curitiba continua sendo o título que a busca pública pede primeiro.




