Antes do apelido que o tornaria famoso, Dalton Trevisan já tinha um livro capaz de explicar o ofício. Cemitério de Elefantes, de 1964, reúne narrativas curtas sobre gente que sobra: doentes, gordos, magros, sujos, angustiados, perdidos ou querendo se perder. O título sugere o lugar onde o animal grande vai morrer. Nos contos, esse lugar é a cidade.
A coletânea ganhou o Prêmio Fernando Chinaglia e um Jabuti. Saiu no mesmo ano de Morte na Praça e um ano antes de O Vampiro de Curitiba. Quem quer o Trevisan da fama vai ao vampiro; quem quer o Trevisan da melancolia urbana encontra aqui um retrato mais sombrio, menos preso a um único anti-herói.
O que estas histórias observam
O ponto de convergência é a fuga da solidão por meio de rituais que a sociedade impõe e os personagens aceitam sem perceber. Casamento, doença, vício, sexo apressado e a necessidade de parecer normal aparecem como costumes, não como teses. Trevisan não explica a Curitiba: mostra o que ela faz com o corpo.
A linguagem continua popular e cortada. Não há grande aparelho psicológico. Há incidente, fala, gesto e um desfecho que deixa o leitor sem consolo. Por isso o livro reaparece em listas de conto brasileiro e em programas de vestibular: cabe em poucas páginas e não se esgota numa leitura escolar.
Para quem este livro faz sentido
- Leitores que já conhecem o apelido e querem o Trevisan anterior à fama de vampiro.
- Quem prefere retrato coletivo a um personagem-fixação como Nelsinho.
- Estudantes e professores que precisam de uma coletânea canônica, densa e curta.
- Quem lê conto urbano e aceita feiura, doença e humor ácido sem redenção fácil.
Edição e leitura
A edição em circulação pela Record traz a identidade visual associada à casa que publicou Trevisan por décadas, com desenho de traço grosso na capa. São pouco mais de cem páginas. Vale confirmar o item em português, capa comum, e não confundir com edições portuguesas antigas de outro ISBN.
A leitura pode ser feita conto a conto, sem ordem rígida. O efeito, porém, é cumulativo: a cidade vai ficando mais estreita, os corpos mais expostos, a solidão mais administrativa. Não é um livro de “personagem inesquecível” no sentido de marca; é um livro de tipos que a gente reconhece no ônibus e finge não ter visto. Relançamentos recentes da Record mantiveram o título em catálogo, o que ajuda quem procura o item exato em português sem cair em edição estrangeira.
Se a leitura for para estudo, vale anotar como Trevisan trata doença, gordura, sujeira e vício sem transformar o personagem em caso clínico. O grotesco aqui não é piada de palco: é o modo de mostrar o que a cidade descarta. Isso explica a permanência do livro em listas de conto e em programas escolares, mesmo com linguagem áspera.
Onde ele se encaixa na obra
Entre a consagração de Novelas Nada Exemplares (1959) e o estouro do apelido em 1965, Cemitério de Elefantes mostra Trevisan já dono do corte e ainda menos refém da lenda pessoal. Quem começar por aqui encontra o contista, não o mito. Quem vier depois do Vampiro percebe que a crueldade não nasceu com Nelsinho: já estava na rua.




