Amazona é o romance em que Sérgio Sant'Anna junta folhetim, ironia machadiana e fábula política sem pedir licença ao bom gosto da época. Publicado originalmente em 1986, o livro ganhou nova edição da Companhia das Letras em 2019, com capa de Celso Longo e posfácio de André Nigri.
A protagonista é Dionísia, esposa típica da classe média carioca. A ascensão dela vai da revista erótica à política visível do Brasil dos anos 1980. O mito grego das mulheres guerreiras atravessa a narrativa como metáfora, não como aula de mitologia. O país saía da ditadura; o romance trata libertação feminina e poder institucional no mesmo palco, com sexo, chantagem, droga e intriga.
Por que o livro espantou
O público recebeu o texto com estranhamento. Ele destoava da produção literária imediata e, ao mesmo tempo, acertava questões da transição democrática. Sant'Anna cria a OBA, Organização dos Bancários Anarquistas, gozação com os grupos clandestinos do regime. O humor não alivia o retrato: mostra como o discurso de ruptura também vira teatro.
É o nono livro do autor e permanece um caso à parte no catálogo. Quem espera o contista intimista de O vôo da madrugada encontra aqui o romancista de fôlego, folhetim e sátira. Quem espera denúncia reta encontra ironia. A mistura é o ponto, não o defeito.
A edição de 2019
A reimpressão da Companhia das Letras devolve o romance a um leitor que já debate gênero, representação e política de outra maneira. O posfácio de André Nigri ajuda a situar o espanto original sem transformar o livro em documento de época. São 304 páginas. A prosa continua excessiva de propósito: digressão, melodrama e golpe baixo de enredo lado a lado.
Há Jabuti na categoria de novelas associado a esta obra. O dado confirma recepção, mas não explica o livro. Amazona interessa porque recusa o papel da “ficção engajada” limpa. Dionísia não é exemplar moral. É personagem de poder.
Para quem e para quem não
Indicado para quem lê romance brasileiro dos anos 1980 e para quem quer o Sant'Anna menos “conto perfeito” e mais fábula urbana. Pouco indicado para quem rejeita erotismo explícito, humor ácido ou trama de folhetim. O livro pede estômago para excesso. Essa é a aposta.
- Primeira publicação: 1986.
- Reedição: 3 de outubro de 2019, Companhia das Letras.
- Capa: Celso Longo.
- Posfácio: André Nigri.
A edição em português de 2019 é a que circula. Ler Amazona hoje é ver Sérgio Sant'Anna usar o romance como palco político sem largar a invenção: a mulher que sobe, o país que finge mudar e a prosa que não deixa ninguém confortável no papel de herói.
Quem lê em sequência com Confissões de Ralfo vê o salto: do interrogatório-escola dos anos 1970 à fábula de poder feminino na abertura democrática. São livros diferentes. O mesmo autor só permanece na recusa de uma única máscara.




