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Um crime delicado

Livro
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Romance de Sérgio Sant'Anna sobre um crítico de arte, uma modelo e a violência da interpretação, vencedor do Jabuti de 1998.

Um crime delicado é o romance em que Sérgio Sant'Anna aperta o foco e ainda assim recusa o policial puro. Publicado em 1997 pela Companhia das Letras, o livro ganhou o Prêmio Jabuti de Romance no ano seguinte e depois alimentou o filme de Beto Brant.

O narrador é Antônio Martins, crítico de arte carioca na casa dos cinquenta. Ele se envolve com Inês, uma jovem manca sobre quem sabe quase nada. A busca vira especulação. Quando descobre que ela é modelo do pintor Vitório Brancatti, a suspeita muda de lugar: a relação entre artista e modelo parece ao mesmo tempo paternal e sádica, e o crítico se vê vítima da própria obra que tenta explicar.

Policial, amor e crítica de arte no mesmo fio

O livro é várias coisas ao mesmo tempo, e essa sobreposição é o assunto. Há trama de mistério. Há história de amor com erotismo insólito. Há reflexão sobre o que a crítica faz quando transforma pessoa em objeto de leitura. Sant'Anna já vinha parodiando o discurso da crítica de arte em contos; aqui o crítico vira personagem e paga o preço da autoridade interpretativa.

Ambientado no Rio, o romance não usa a cidade como cartão-postal. Usa o meio das artes como arena de poder: quem olha, quem posa, quem pinta, quem escreve a respeito. A deficiência de Inês não entra como símbolo barato. Entra como fato que o narrador não controla, e por isso inventa teses.

Do livro ao cinema

Em 2005, Beto Brant dirigiu Crime Delicado, adaptação considerada mais fiel do que a leitura que Bruno Barreto fez de outro texto do autor em Bossa Nova. Quem chega pelo filme encontra no livro o laboratório da primeira pessoa: o crime, se existe, passa também pela linguagem do crítico.

Com 136 páginas na edição da Companhia das Letras, é o romance mais curto e talvez o mais “entrável” para quem ainda não leu Sant'Anna. Não exige o salto metaficcional de Confissões de Ralfo nem a fábula política de Amazona. Exige atenção ao narrador. Antônio Martins não é guia confiável. Essa é a armadilha delicada do título.

Quando vale a leitura

Vale para quem lê romance brasileiro contemporâneo e para quem trabalha com arte, crítica ou jornalismo cultural. Também vale para quem quer um Sant'Anna com enredo visível, sem perder o jogo de versões. Não é livro de solução de caso. É livro de dúvida sobre o olhar.

  • Editora: Companhia das Letras.
  • Lançamento: 9 de maio de 1997.
  • Prêmio Jabuti de Romance em 1998.
  • Adaptação: filme de Beto Brant, 2005.

A edição em português continua sendo a via direta. Quem quiser o Sérgio Sant'Anna do romance sem abrir mão da experimentação começa por aqui: um crime que pode estar na tela, no ateliê ou na frase que o crítico escolhe para dar sentido ao que não entende.

Leitor de romance policial clássico pode estranhar a falta de solução limpa. Esse estranhamento é o contrato. O delicado do título não é o crime espetacular; é a violência miúda de interpretar o outro até o outro virar tese.

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