O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro é o livro de contos que colocou Sérgio Sant'Anna no centro da ficção brasileira contemporânea. Publicado no início dos anos 1980 e relançado pela Companhia das Letras em edição revista pelo autor, o volume mostra o escritor no território que ele mesmo apontava como o seu: a forma breve.
A declaração pública é direta: ele se dava melhor com narrativas curtas porque o conto permitia experimentar mais. Os romances existem para complicar essa frase. Este livro existe para confirmá-la. O gênero conhecido ganha abordagens novas, num registro que mistura alta e baixa literatura, erudito e pop, sagrado e profano.
O que há dentro do concerto
Sant'Anna passeia por cenários familiares do Rio e aponta o que o olhar comum já deu por esgotado. Onde o leitor vê rotina, o narrador vê campo de prova. A linguagem se radicaliza porque o mundo, visto por ele, pede isso. Não é regionalismo de cartão-postal nem crônica de botequim disfarçada de conto. É invenção a partir do reconhecível.
O título evoca João Gilberto e a cidade, mas o livro não é biografia do músico nem guia da bossa nova. O concerto funciona como imagem de um evento que desloca a plateia: a prosa também quer esse deslocamento. Caio Fernando Abreu escreveu que Sant'Anna era inteligente demais para produzir meras historinhas. Wilson Martins o colocou, ao lado de Rubem Fonseca e Luiz Vilela, entre os autores que fixaram a fisionomia do conto moderno no Brasil.
Edição revista e prêmio
A edição da Companhia das Letras de 2014 traz o texto revisto pelo autor. São 224 páginas. O Jabuti de contos associado a este livro confirma a recepção de época; a permanência no catálogo confirma outra coisa: o volume ainda ensina o que o conto brasileiro pôde fazer depois dos anos 1970.
Para a obra de Sant'Anna, este é o marco. O sobrevivente abre a carreira. Confissões de Ralfo explode o romance. O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro organiza o método da forma breve que ele sustentaria até O vôo da madrugada e Anjo noturno.
Por que começar por aqui
Começar por este livro é ver o contista em estado de invenção, antes da noite mais fechada de 2003 e antes do romance policial-erótico de 1997. Quem quer Sant'Anna sem o aparato do “romance de tese” encontra aqui o laboratório. Quem quer só o mito João Gilberto vai se frustrar: o concerto é pretexto, a prosa é o espetáculo.
- Publicação original: início dos anos 1980.
- Edição revista: 17 de novembro de 2014, Companhia das Letras.
- Gênero: contos.
- Extensão: 224 páginas.
A edição em português revista pelo autor é a que vale buscar. Ler este concerto é entender por que Sérgio Sant'Anna insistia no conto: não por modestia de fôlego, e sim porque a forma curta lhe dava liberdade para mudar de máscara a cada texto, sem repetir o mesmo número.
Depois deste livro, o leitor reconhece o gesto em volumes posteriores. A noite de 2003 e as narrativas híbridas de 2017 não caem do céu: nascem da liberdade que o concerto já tinha conquistado. Começar por aqui é ver o método antes da lenda.




