O vôo da madrugada reúne dezesseis contos em que a noite não é cenário: é estado de espírito. Publicado em 2003 pela Companhia das Letras, o livro pegou a fase em que Sérgio Sant'Anna já era reconhecido como contista e ainda assim recusava o conforto da fórmula.
Os enredos mudam. As técnicas também. O que amarra o volume é uma atmosfera escura: personagens — e o próprio escritor, em chave ficcional — atravessam os meandros noturnos da consciência. A solidão aperta a ponto de a morte aparecer como tentação e, ao mesmo tempo, como metáfora de outros saltos: o sexo, a fantasia, a forma perfeita.
O que o livro faz com o leitor
Não é coletânea de “historinhas urbanas”. Cada texto pede um pacto diferente. Há indagação filosófica sobre a existência, carga erótica forte e figuras femininas ligadas à sedução, à volúpia, à imaginação e à morte. O salto para fora da vida, que atravessa várias narrativas, não funciona como tesão mórbido de capa. Funciona como modo de nomear estados excepcionais, aqueles em que a realidade se reorganiza.
Quem chega cansado de conto bem-comportado encontra aqui o contrário: a forma se adapta à obsessão do texto. Sant'Anna não aplica o mesmo ritmo em dezesseis vezes. A unidade vem do clima, não do molde.
Prêmios e lugar na obra
O volume venceu o Prêmio Jabuti de 2004 na categoria de contos e crônicas, o prêmio da APCA de 2003 em contos e ficou em segundo lugar no Portugal Telecom de 2004. Na trajetória do autor, ele conversa com O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro — o livro que o consolidou nos anos 1980 — e antecipa o tom mais memorialístico dos volumes finais.
Para quem estuda o conto brasileiro contemporâneo, este é um dos pontos altos da maturidade. Para quem só leu o romance Um crime delicado ou chegou pelo cinema, o livro mostra por que Sant'Anna insistia que a forma breve era o seu centro.
Para quem faz sentido
Faz sentido para leitor de ficção brasileira que tolera experimentação sem abrir mão de cena. Faz menos sentido para quem busca trama única, linear, com começo-meio-fim de romance. São dezesseis entradas. Dá para ler um conto por noite e ainda assim sentir o livro inteiro como um só recinto.
- Editora: Companhia das Letras.
- Lançamento da edição corrente: 29 de setembro de 2003.
- Gênero: contos.
- Extensão da edição: 248 páginas.
A edição em português da Companhia das Letras é a porta de entrada natural. Quem quer entender Sérgio Sant'Anna além do rótulo de experimental encontra neste voo noturno o método em estado puro: variar a forma até o tema — solidão, desejo, morte — deixar de parecer abstrato.
Não é livro para ler de uma sentada se o objetivo for “acabar o autor”. É livro para voltar. Um conto pede outro pacto. O conjunto, lido com intervalo, mostra o que a noite de Sant'Anna tem de obsessivo: o mesmo recinto, outra porta.




