Uma trave de gol narrando um treino do Fluminense. Um preso político interrogado com perguntas de prova escolar. Sérgio Sant'Anna tratava o ponto de vista como matéria-prima, não como enfeite: o cotidiano carioca virava experimento, e o experimento cabia no tamanho de um conto.
Nascido no Rio de Janeiro em 30 de outubro de 1941 e morto na mesma cidade em 10 de maio de 2020, o escritor foi advogado, professor da Escola de Comunicação da UFRJ e, sobretudo, contista. Quem busca o nome hoje costuma chegar por Confissões de Ralfo, pelo Prêmio Jabuti de Um crime delicado e O vôo da madrugada, ou pela notícia da morte na pandemia. O que permanece é outra coisa: uma obra que recusou o mesmo jeito duas vezes.
Quem foi Sérgio Sant'Anna
O nome completo é Sérgio Andrade Sant'Anna e Silva. Publicou poesia, teatro, novela e romance, mas se considerava primeiro um contista. A frase não era pose. Ele dizia que a forma breve o livrava rápido da angústia e permitia experimentar mais. A literatura brasileira ganhou com isso um autor que misturava gêneros, parodiava o discurso da crítica, do jornalismo e do folhetim, e ainda assim escrevia cenas de desejo, solidão e cidade com precisão de quem observa de perto.
A carreira pública atravessou mais de cinco décadas e mais de vinte livros. Depois de deixar a universidade, em 1990, passou a viver só da escrita. Colaborou com a revista Cult e escreveu nos cadernos literários da Folha de S.Paulo, de O Estado de S. Paulo e do Jornal do Brasil. Foi colunista de O Dia. A imprensa era oficina, não descanso: o mesmo olhar que deslocava o narrador no conto aparecia na crônica e na entrevista.
Detalhe humano que ele mesmo não escondia: torcia pelo Fluminense. Um dos últimos textos publicados em vida, na Folha, transforma a memória de um treino dos anos 1950 no relato de uma trave. Não é futebol como tema fácil. É o método de sempre: mudar quem fala para o leitor enxergar o jogo outra vez.
Direito em Minas, Paris, Praga e Iowa
Em 1959 mudou-se para Belo Horizonte e entrou na Faculdade de Direito da UFMG. Formou-se em 1966. No ano seguinte foi a Paris, com pós-graduação no Instituto de Estudos Políticos. Na mesma época passou por Praga e testemunhou o fim da Primavera de Praga, episódio que voltaria décadas depois em O livro de Praga, volume do projeto Amores Expressos da Companhia das Letras.
A estreia em livro veio em 1969, com o volume de contos O sobrevivente, em edição pequena. A obra lhe rendeu bolsa no International Writing Program da Universidade de Iowa. A rota é pouco comum para o mito do escritor “só de gabinete”: direito, ciência política, ditadura, exílio intelectual e, só então, a consagração da ficção.
Em 1977 voltou a viver no Rio. Entrou para o corpo docente da Escola de Comunicação da UFRJ e ficou até 1990. A sala de aula e a redação conviviam com o laboratório formal. Quem lê os contos de narrador frágil, crítico de arte, jornalista ou escritor em crise reconhece ofícios que ele exerceu de fato, sem transformar a biografia em chave única da obra.
Por que o conto pesa mais do que o romance
Há romances importantes. Mesmo assim, o centro de gravidade está na narrativa curta. Em Notas de Manfredo Rangel, repórter (1973), o jornalista acompanha um político possível e entrega fragmentos sem a causalidade que o ofício promete. O procedimento denuncia a violência daqueles anos sem virar panfleto: a coesão falta porque a realidade que ele descreve também falta.
O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, publicado no início dos anos 1980, firmou esse lugar. O livro mistura registro erudito e pop, sagrado e profano, e colocou Sant'Anna no mapa do conto brasileiro contemporâneo. Mais tarde, O vôo da madrugada (2003) aprofundou a noite, a solidão e a dimensão psicológica do sexo em dezesseis histórias. Anjo noturno (2017), último livro lançado em vida, ganhou o prêmio da APCA de contos e crônicas e ainda misturava memória, novela e relato.
Entre um volume e outro, títulos como A senhorita Simpson, O monstro, O homem-mulher e O conto zero mostram a mesma recusa à repetição. “Não gosto de me repetir” era mantra. A variedade não era catálogo: era método. Cada livro pedia outra forma, outra voz, outro contrato com o leitor.
Romances, teatro e cinema
O romance mais citado continua sendo Confissões de Ralfo (1975), “autobiografia imaginária” de um escritor que acumula versões de si: repórter, herói, mágico, ator. No auge da ditadura militar, o livro satiriza diário de bordo, filme de ação, utopia e relato de tortura. A cena que ficou: o protagonista preso por mendicagem e interrogado com perguntas de escola, do tipo “quem descobriu o Brasil?”. A violência aparece no nonsense, não no realismo de denúncia.
Amazona (1986) segue outro caminho. Dionísia, esposa da classe média carioca, sobe de modelo de revista erótica a figura política nos anos da transição. É folhetim, ironia machadiana e fábula sobre poder e gênero, numa prosa que o público da época recebeu com espanto. Um crime delicado (1997) aperta o foco: um crítico de arte cinquentão, uma jovem manca, um pintor e a suspeita de que a obra de arte também agride quem a interpreta.
O teatro atravessa a ficção. Um romance de geração nasceu como peça e depois virou filme de David França Mendes, em 2008. A tragédia brasileira mistura romance e palco, com rubricas no livro. No cinema, o saldo é irregular. Bruno Barreto adaptou o conto da senhorita Simpson em Bossa Nova, leitura que o próprio autor e a crítica trataram como infiel, mais cartão-postal do Rio do que o texto. Já Crime Delicado, de Beto Brant (2005), ficou como a transposição mais próxima do romance de 1997.
Prêmios, Companhia das Letras e o que ainda circula
A editora de São Paulo passou a publicar Sant'Anna a partir de 1987 e hoje concentra o catálogo vivo. Os Jabuti confirmados pela obra, livro a livro, estão em títulos específicos: O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (contos), Amazona (novelas), Um crime delicado (romance, 1998) e O vôo da madrugada (contos e crônicas, 2004). Há ainda APCA, o Portugal Telecom para o volume de 2003 e o Prêmio Clarice Lispector para O livro de Praga.
A obra foi traduzida para o alemão, o italiano, o francês, o tcheco, o espanhol e o hebraico. Isso importa menos como troféu internacional e mais como prova de que o experimentalismo carioca atravessou língua. Em 2021, já póstumo, saiu A dama de branco.
- O sobrevivente (1969): estreia em contos e a porta para Iowa.
- Confissões de Ralfo (1975): o romance da autobiografia impossível.
- O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro: o livro que consolidou o contista.
- Um crime delicado e O vôo da madrugada: romance e conto da maturidade, ambos com Jabuti.
Por onde começar a ler
Quem quer o Sant'Anna do conto começa por O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro ou por O vôo da madrugada. Quem prefere romance com enredo visível vai a Um crime delicado. Quem topa o estranhamento político dos anos 1970 e 1980 lê Confissões de Ralfo e Amazona. Quem chegou pelo cinema encontra o livro de 1997, não o cartão-postal de Bossa Nova.
Morreu na madrugada de 10 de maio de 2020, internado no Hospital Quinta D'Or, no Rio, com sintomas de Covid-19. Deixou os filhos André Sant'Anna e Paula Muniz Sant'Anna. A irmã, a escritora Sonia Sant'Anna, deu a notícia. Até o fim ele testava forma: o último conto publicado em revista ainda deslocava o olhar. Ler Sérgio Sant'Anna hoje não é cumprir cânone. É acompanhar um escritor que, a cada livro, recusava o atalho da própria fama.





