Crítica de jornal envelhece no dia seguinte. Arte como Medida existe para tirar esses textos do prazo do suplemento e deixá-los legíveis como livro. Sheila Leirner reuniu ensaios que atravessam da arte renascentista às vanguardas do tempo dela, escritos em grande parte como acompanhamento das artes plásticas no Brasil.
A Editora Perspectiva, na apresentação do volume da coleção Debates, descreve o deslocamento com clareza: o que nasceu como matéria de jornal ganha, no livro, uma duração que a página diária não segura. O leitor encontra testemunho do movimento artístico e, junto, uma meditação sobre o que seja medida na arte, no artista e na obra. O título não é enfeite. Medida, aqui, é o problema do livro: com que régua se olha uma obra quando o circuito, o mercado e o jornal empurram tudo para o instantâneo.
Onde o livro entra na trajetória
Leirner já escrevia crítica no Estadão desde 1975. O volume sai no início dos anos 1980, antes das Bienais de 1985 e 1987. Isso muda a leitura. A Grande Tela não aparece do nada no pavilhão. Antes houve um livro em que a crítica tentava dar forma estável ao que via nas exposições. Quem estuda curadoria autoral no Brasil ganha, com esse ordem, um antecedente impresso.
A ficha técnica da edição à venda na Perspectiva fecha o objeto: ISBN 9788527304252, 424 páginas, coleção Debates, D.177, formato de brochura em torno de 20,5 por 11,5 centímetros. Livrarias que ainda catalogam a primeira edição apontam o começo da década de 1980. A página da editora é a rota oficial do título, mesmo quando o estoque oscila.
Para quem o livro serve
O público não é o visitante ocasional de museu em busca de um guia de sala. É quem lê crítica de arte como gênero: estudante de artes visuais, pesquisador de exposições brasileiras e leitor que quer entender como o texto de jornal virava argumento. A Perspectiva indica o volume a quem estuda a linguagem plástica como fazer socioestético e histórico.
Não espere manual de método nem catálogo de uma mostra só. Os ensaios cobrem um arco largo, do Renascimento ao que então se chamava vanguarda. A unidade está no olhar da autora, não num tema único. Por isso o livro conversa com a coluna, não a substitui: quem quiser o dia a dia da crítica ainda precisa do jornal; quem quiser o recorte que ela decidiu guardar, precisa do volume.
O que não está neste livro
Arte e seu Tempo, a coletânea seguinte, também pela Perspectiva, fica de fora desta página de propósito. São livros distintos. Direi Tudo e um Pouco Mais e o romance Como Matei minha Mãe mudam de registro, da crítica de artes plásticas para crônica e ficção. Arte como Medida é o primeiro grande conjunto de ensaios e o mais colado ao ofício de crítica de exposição.
Também não é biografia. A família Leirner, a videoperformance Trilogia Amorosa e a ida para Paris em 1991 explicam a pessoa; aqui o que se compra é o argumento crítico anterior às duas bienais. Para cruzar formação, mostras e parentesco artístico, o verbete da Enciclopédia Itaú Cultural continua sendo o mapa. Para ler a medida que ela propunha no início da década de 1980, o caminho é este volume da Debates.




