Há um momento em que a crítica de arte para de caber no comentário de exposição. Direi Tudo e um Pouco Mais é esse momento no catálogo de Sheila Leirner: um livro que a própria Editora Perspectiva recusa classificar como só crítica, só conto, só crônica, só memória ou só ensaio.
A casa editorial descreve o volume da coleção Paralelos como mistura de lembranças, ideias, análises, invenções, fábulas e reflexões. O assunto continua sendo arte, mas também o mundo, a sociedade e a vida no tempo em que os textos foram escritos. Personagens conhecidas e desconhecidas atravessam as peças. Cada texto puxa o seguinte, e a leitura pode ser contínua ou saltada, sem perder o fio.
O que a edição entrega
A ficha da Perspectiva é objetiva: ISBN 9788527311182, 344 páginas, coleção Paralelos 34, dimensões de 14 por 21 centímetros. O ano de publicação registrado nas fichas do livro é 2017. Sheila Leirner já vivia em Paris desde 1991, já tinha passado pelas Bienais de 1985 e 1987 e já tinha dois livros de ensaios na mesma editora, Arte como Medida e Arte e seu Tempo. Este não repete esse formato. É o livro em que a primeira pessoa deixa de ser só instrumento da crítica e vira matéria literária.
A apresentação da editora compara o efeito a um retrato: a superfície é um ângulo particular, e a significação ressoa além desse ângulo. Não é propaganda vazia se lida ao pé da letra. O livro pede um leitor disposto a acompanhar uma voz, não um verbete. Quem busca definição de movimento artístico tem destino melhor em O Surrealismo, que ela organizou com J. Guinsburg. Quem busca a voz dela fora da resenha encontra este título.
Para quem faz sentido
O leitor típico já sabe quem é Leirner pelo jornal ou pela Bienal e quer o registro literário. Também serve a quem lê crônica brasileira contemporânea e topa um livro híbrido, sem a moldura de romance. Como Matei minha Mãe, de 2022, pela Iluminuras, é outra porta: ficção com enredo e duas narrativas. Aqui não há esse contrato de romance. Há peças que a editora trata como jornada em primeira pessoa.
Isso limita a expectativa de um jeito útil. Não é curso, não é catálogo de exposição e não é autobiografia comprovada página a página. Memória, invenção e análise andam juntas, como a própria sinopse avisa. Tratar cada episódio como fato biográfico seria ler o livro contra o aviso da editora.
Por que continua no catálogo
Em 2017, Leirner já era nome de curadoria e de crítica. O livro mostra o outro ofício, o de escritora, sem apagar o primeiro. A coleção Paralelos, na Perspectiva, é o lugar editorial desse híbrido. A página da editora é a rota de compra da edição impressa. O site do livro, indicado na Wikipédia, existe como página própria da obra, mas a edição que se compra está na Perspectiva.
Para situar o volume na carreira, basta a ordem: ensaios de artes plásticas primeiro, este livro de “tudo isso e um pouco mais” em 2017, romance em 2022. Três contratos diferentes com o leitor. Este é o do meio, e é o que menos se parece com uma resenha.




