Surrealismo virou adjetivo de conversa. O Surrealismo, organizado por J. Guinsburg e Sheila Leirner, tenta o caminho inverso: recolher o aparato crítico do movimento, de André Breton às repercussões posteriores, num volume de consulta da coleção Stylus, da Editora Perspectiva.
A apresentação da editora parte exatamente desse desgaste. A frase “ontem vivi uma situação surrealista” aparece como sintoma de uma palavra que entrou na língua cotidiana e perdeu precisão. O livro pergunta por que o movimento teve essa penetração, a que questões respondia e como seguiu alimentando arte, literatura e imaginação depois do período histórico estrito. Não é um panfleto do grupo. É uma antologia de ensaios, com especialistas do Brasil e de fora, organizada para dar panorama e também para abrir intervalos que o verbete de dicionário não cobre.
A edição que está à venda
A coleção Stylus já reunia panoramas de outros movimentos na mesma editora. Este volume segue esse desenho: muitos ensaístas, um recorte de época e dois organizadores, Guinsburg e Leirner. O resultado é livro de estante de trabalho, não de leitura numa tarde.
A página da Perspectiva identifica os organizadores como J. Guinsburg e Sheila Leirner, ISBN 9788527308168, 928 páginas, coleção Stylus, ST.13, com ano de publicação indicado em 2012. É um tijolo de leitura, no sentido físico: a ficha de peso da editora passa de um quilo. Não se compra para uma tarde. Compra-se como livro de trabalho sobre um movimento que atravessa pintura, escrita, cinema e pensamento.
Leirner entra como organizadora, ao lado de Guinsburg, não como autora única de cada ensaio. Essa distinção importa. Arte como Medida e Arte e seu Tempo são coletâneas da crítica dela. Direi Tudo e um Pouco Mais é livro de voz própria. O Surrealismo é projeto editorial compartilhado: escolher ângulos, reunir estudiosos e dar ao leitor brasileiro um mapa longo do movimento na coleção Stylus, a mesma família de volumes em que a Perspectiva trata romantismo, naturalismo e outros grandes rótulos estéticos.
Quem deve abrir este volume
O leitor é outro. Aqui cabe quem estuda história da arte, literatura e movimentos estéticos do século XX, e quem precisa de um panorama em português com mais de um especialista na mesa. Não cabe quem busca a biografia de Leirner ou um romance. A Bienal, o Estadão e Como Matei minha Mãe respondem a essas outras buscas.
Também não espere catálogo de uma exposição chamada Surrealismo. O objeto é o movimento e a reflexão que ele gerou, da formação histórica aos desdobramentos que os organizadores quiseram alcançar. A editora deixa o julgamento da pertinência com o leitor, o que é um aviso honesto para uma antologia deste tamanho: 928 páginas não cabem num resumo de orelha.
Ligação com a crítica de Leirner
Organizar um volume assim é continuação do ofício, não desvio. Desde a Sorbonne, a formação pública dela inclui sociologia da arte. Desde 1975, o ofício inclui ler obra alheia no jornal. Um livro de quase mil páginas sobre Breton e o que veio depois é crítica em escala de biblioteca. A rota de compra da edição impressa é a página da Perspectiva. Quem quiser a voz solta de Leirner, sem o coro dos outros ensaístas, volta para os livros assinados só por ela.




