Em 1985, o segundo andar da Bienal de São Paulo virou um corredor de pintura: três faixas de mais de cem metros, quadros a cerca de trinta centímetros uns dos outros. O público e a crítica passaram a chamar essa montagem de Grande Tela. Quem a desenhou foi Sheila Leirner, curadora-geral da 18ª Bienal e, dois anos depois, da 19ª.
Quem procura o nome chega por portas diferentes. Uma é a Bienal. Outra é a crítica no Estadão. Uma terceira é o livro: ensaio, crônica ou o romance de 2022. A pergunta muda com a porta, mas o fio é o mesmo. Como uma jornalista formada na França passou a tratar a curadoria como autoria, e como esse texto continuou depois que a base de trabalho foi para Paris.
Quem é Sheila Leirner
Sheila Leirner nasceu em São Paulo em 25 de setembro de 1948. É crítica de arte, curadora, jornalista e escritora, com cidadania franco-brasileira. Vive e trabalha em Paris desde 1991. A Enciclopédia Itaú Cultural registra a grafia Sheila Halbreich Leirner e a situa como filha da artista Giselda Leirner, neta da escultora Felícia Leirner e de Isay Leirner, e sobrinha de Nelson Leirner.
O sobrenome já circulava no circuito paulista antes de ela assinar uma bienal. Isso não substitui a trajetória própria. Ajuda a entender por que o mesmo nome aparece em museu, jornal e catálogo de família, sem que a página da crítica se confunda com a da escultora ou a do artista Nelson Leirner.
Formação na França e o jornal em São Paulo
A formação está datada na Enciclopédia Itaú Cultural. Em 1968, diplomou-se em sociologia da arte na Sorbonne, com o historiador Pierre Francastel entre os professores. Em 1969, estudou direção de cinema na Universidade de Vincennes, em Saint-Denis, e realizou curtas sob orientação de Jean Rouch. Em 1970, obteve diploma de urbanista na École Pratique des Hautes Études.
Voltou ao Brasil em 1973 e trabalhou como produtora e assistente do diretor Luiz Sérgio Person. A crítica impressa começou no Última Hora, com supervisão de Samuel Wainer. Em 1975, passou ao Suplemento Cultural de O Estado de S. Paulo. A Enciclopédia Itaú Cultural descreve essa colaboração como um posto exercido até 2019. No Instagram, ela continua indicando textos novos no Estadão.
A Grande Tela e as duas Bienais
Antes das mostras, Leirner integrou o Conselho de Arte e Cultura da Fundação Bienal. A 18ª edição correu de 4 de outubro a 15 de dezembro de 1985. A expografia, desenvolvida com o arquiteto Haron Cohen, punha a pintura no centro e deixava performance e videoarte em volta. Marina Abramović, Ulay e John Cage entram nesse mapa, ao lado de uma parede quase contínua de quadros. A ideia, registrada pela Enciclopédia Itaú Cultural, era materializar a avalanche de imagens do cotidiano até fundir tudo numa paisagem só.
A recepção rachou no meio. Houve quem lesse a montagem como curadoria autoral, no momento em que grandes exposições internacionais passavam a ter assinatura visível. Houve quem acusasse a aproximação dos trabalhos de achatar peças muito diferentes. A 19ª Bienal, de 2 de outubro a 13 de dezembro de 1987, manteve Leirner como curadora-geral. A mesma enciclopédia registra que ela foi a única mulher a conduzir duas edições consecutivas da mostra.
No mesmo arco, ela também produziu como artista. Entre 1982 e 1983, realizou a videoperformance Trilogia Amorosa, exposta no Museu de Arte Contemporânea da USP em 1983 e incorporada ao acervo. A peça mexe no limite entre criticar e criar, o mesmo limite que a Grande Tela levou para o pavilhão.
Paris, Jeu de Paume e os prêmios
Desde 1991, a base é Paris. Entre 1993 e 1999, representou a Galerie nationale du Jeu de Paume na América Latina. Entrou na Associação Internacional de Críticos de Arte e, em 1992, na seção francesa da AICA. É membro do International Council of Museums. Participou da seleção das bolsas UNESCO-Aschberg e da comissão regional da Île-de-France que examina projetos do 1% artístico dos ministérios franceses do Interior e da Educação Nacional.
Os reconhecimentos públicos cabem numa lista curta, sem enfeite:
- prêmio de melhor crítica de arte da ABCA, em 1976;
- Personalidade Artística do Ano na América Latina, da Associação Argentina de Críticos de Arte, em 1987;
- condecoração Chevalier de l'Ordre des Arts et des Lettres, do governo francês;
- homenagem da ABCA-AICA, em 2009;
- Prêmio Mário de Andrade, pela trajetória, da ABCA-AICA, em 2014.
Do ensaio de jornal ao romance
Arte como Medida, na coleção Debates da Editora Perspectiva, reúne ensaios que vão do Renascimento às vanguardas e nasceram, em boa parte, como acompanhamento das artes plásticas no Brasil. Arte e seu Tempo, também pela Perspectiva, é a coletânea seguinte de crítica. Em 2017, Direi Tudo e um Pouco Mais saiu na coleção Paralelos: 344 páginas em que memória, análise, fábula e crônica dividem o mesmo volume. A casa editorial avisa que o livro não se deixa fechar num gênero só.
Em 2022, a Iluminuras publicou Como Matei minha Mãe, romance de 248 páginas em duas narrativas, construído a partir de uma saga familiar. Editora e autora tratam o livro como ficção, não como relatório biográfico. Com J. Guinsburg, Leirner organizou O Surrealismo, volume da coleção Stylus da Perspectiva, com ensaios sobre o movimento de André Breton. Há ainda participação em antologias, de Visão da Terra (1977) a textos sobre Felícia Leirner, Millôr Fernandes e Haroldo de Campos. Isso é colaboração, não obra solo.
Quem entra pela literatura encontra uma crítica que também assina crônica e romance. Quem entra pela Bienal encontra a mesma pessoa no jornal. O site oficial, o blog Arte, aqui e agora e o canal no YouTube são os lugares em que essa produção segue pública, ao lado do verbete da Enciclopédia Itaú Cultural, útil para cruzar datas de formação, família e mostras.





