Banana Brava é o começo sujo. José Mauro de Vasconcelos tinha 22 anos quando a Melhoramentos — e o ofício — tocaram o primeiro romance, em 1942. Joel, jovem de classe alta, larga a família e cai no garimpo. O chão é o Araguaia, a companhia é o velho Gregorão, a rotina é violenta. Antes de Zezé, antes da canoa, o escritor estreou entre bateia, traição e sobrevivência.
A matéria vinha da travessia com os irmãos Villas-Bôas e do convívio com garimpeiros. José Mauro não inventou selva de gabinete: andou rio, viu gente que mata e morre por pedra, voltou com um livro que a crítica da época recebeu melhor do que o caixa. O grande público ainda demoraria vinte anos, até Rosinha Minha Canoa. Banana Brava ficou como certidão: este homem escreve o Brasil que anda a pé.
O que o romance põe na mesa
Não é o menino de Bangu. É o adulto em formação no território bruto, o amigo velho, a ameaça cotidiana, o código do garimpo. A Melhoramentos relançou o título no centenário de 2020, junto com Barro Blanco, Longe da Terra e Vazante, justamente para puxar o leitor adulto de volta à obra que a escola não lista. João Luís Ceccantini, no texto de apresentação dessa leva, insiste na atualidade desse panorama social: o autor joga as fichas no romance de ofício, de beira, de gente em trânsito.
Em países de língua espanhola o livro circulou como Hombres sin piedad. O título estrangeiro diz a temperatura. No original, a banana do carregador de Mazomba e a banana do título se encontram só na biografia: o jovem que carregou cacho no litoral fluminense escreveu, no Araguaia, outra carga — ouro, ódio, lealdade.
- Estreia em 1942, aos 22 anos.
- Joel e Gregorão no garimpo da região do Araguaia.
- Relançamento Melhoramentos no centenário, ISBN 978-85-06-08421-2.
- Porta de entrada para a obra adulta, longe da lista escolar de Zezé.
Para quem este volume
Banana Brava serve a quem já chorou com o pé de laranja lima e quer o escritor sem o menino. Serve a quem lê regionalismo brasileiro e ainda não colocou José Mauro ao lado do chão que ele de fato pisou. Não serve a quem busca a ternura de Minguinho: aqui a ternura, quando aparece, vem com lama e risco.
A edição corrente em português está na Amazon brasileira e no catálogo da Melhoramentos. É romance avulso, não caixa, não quadrinho, não “volume 1 da trilogia Zezé”. Quem misturar este título com o ciclo escolar erra a porta. A porta certa é a do primeiro livro, o do garimpo, o do rapaz que ainda não era o autor que ônibus pintaria de Zezé.
Lido no conjunto, Banana Brava explica o ouvido de Rosinha Minha Canoa e a teimosia de quem, décadas depois, ainda escrevia como se o rio pudesse responder. José Mauro começou violento e popularizou-se terno. Os dois livros são o mesmo homem. Só muda o que o país decidiu lembrar.




