Doidão pega o menino depois da árvore — ou, na ordem em que José Mauro publicou, antes dela. O romance saiu em 1963, cinco anos antes de O Meu Pé de Laranja Lima, e hoje a Melhoramentos o apresenta como peça do ciclo de Zezé: a juventude em Natal, o pai adotivo, um amor intempestivo, a vontade de liberdade. Quem chegou ao autor pelo volume escolar encontra aqui o rapaz que já não cabe no quintal de Bangu.
A ordem da vida não é a ordem da estante. Zezé criança (1968), Zezé pré-adolescente em Natal (1974, Vamos Aquecer o Sol) e o jovem de Doidão (1963) formam um arco que o autor recusou datar no lombo. Ler este livro é aceitar o salto: o mesmo ouvido, outra idade, outro tamanho de ferida.
Natal, juventude e o nome que pesa
José Mauro cresceu com os tios em Natal, treinou natação no Potengi, largou a cidade num cargueiro. Doidão trabalha essa matéria sem ser reportagem. O protagonista — Zé, já não só Zezé — bate de frente com a figura paterna adotiva, se enamora sem cálculo e testa o quanto a imaginação ainda segura um corpo que já quer rua, mulher, briga e saída.
A Melhoramentos classifica o volume para o 6º ao 9º ano, no mesmo corredor escolar do clássico de 1968, com temas de convivência, emoções, meio ambiente e natureza. Isso não o torna “continuação didática”. O título já avisa o tom: doidão é xingamento, apelido, estado. O jovem que o livro retrata não pede boletim de bom-moço.
- Publicado em 1963; parte do ciclo autobiográfico em torno de Zezé/Zé.
- Juventude em Natal, conflito com o pai adotivo, primeiro amor, fome de liberdade.
- Edição atual Melhoramentos, ISBN 978-85-06-08414-4.
- Lido depois de O Meu Pé de Laranja Lima, mostra o preço de crescer sem a árvore como confidente.
Por que ler depois — ou antes — do clássico
Quem lê Doidão depois do pé de laranja lima entende que o choro da infância não se resolve na adolescência: muda de forma. Quem lê antes descobre um José Mauro já dono do público de Rosinha Minha Canoa, ainda não engessado no menino da escola. Os dois caminhos valem. O que não vale é tratar os três volumes como a mesma história em capas diferentes. Não são Kindle e brochura. São idades.
A Amazon brasileira traz a edição em português da Melhoramentos. Vale o volume avulso, não a caixa, se a pergunta for esta juventude e não o pacote da trilogia. Preço fica de fora: oscila. O texto, relançado no esforço da editora de repor a obra do centenário, continua o mesmo rapaz inquieto à beira do Potengi.
José Mauro dizia que o romance só ia para a máquina quando já tinha saído pelos poros. Em Doidão isso se sente no fôlego: menos causo de menino, mais embate de quem já sabe que a casa dos tios também aperta. Para o leitor que achou Zezé “só literatura infantil”, este livro é o desmentido mais direto.




