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José Mauro de Vasconcelos

Nascimento: 1920 Rio de Janeiro, Brasil
Romancista de Bangu, autor de O Meu Pé de Laranja Lima. Foi nadador, boxeador, carregador, ator e escritor de tiragem alta, mais lido que consagrado.

Uma empresa de ônibus pintou Zezé na lata. Meu Pé de Laranja Lima no flanco, o escritor José Mauro de Vasconcelos encostado na porta, camisa clara, sorriso de quem viu o personagem sair do papel e pegar rua. No Brasil, clássico também viaja de linha urbana.

Quem busca o nome hoje quer o menino que conversa com a árvore — e encontra um homem de Bangu que foi nadador, sparring de peso-pluma, carregador de banana, modelo de escultor, ator de cinema e romancista de tiragem alta. A crítica o deixou na margem; o leitor, não.

Quem foi José Mauro de Vasconcelos

José Mauro de Vasconcelos nasceu em 26 de fevereiro de 1920, no bairro de Bangu, então Distrito Federal, e morreu em São Paulo em 24 de julho de 1984, aos 64 anos, de broncopneumonia. Está sepultado no Cemitério do Araçá. A família tinha raiz nordestina e pouco dinheiro: o menino foi criado pelos tios em Natal, no Rio Grande do Norte, e só depois voltou ao Rio para se virar sozinho.

Há ascendência indígena e portuguesa no sangue dele, detalhe que o próprio ciclo autobiográfico trata sem discurso de vitrine. O apelido que o país decorou, no entanto, não é o do adulto: é Zezé, o menino de seis anos de O Meu Pé de Laranja Lima, romance de 1968 que a Editora Melhoramentos reimprime até hoje e que escolas, cinema e teledramaturgia não largaram.

Ele não entrou para o cânone pelo corredor da universidade. Entrou pela porta da livraria, da sala de aula e da adaptação. Isso explica a busca: muita gente quer saber se o livro “é realmente a infância dele”, se existe continuação, se o autor foi ator, se o Jabuti veio do clássico infantil. A resposta curta é que a vida pública dele é maior — e mais torta — do que o subtítulo do best-seller.

Bangu, Natal e os ofícios

Em Natal, o rio Potengi virou ginásio. José Mauro aprendeu a nadar aos nove anos, treinou distância quase na boca do mar e ganhou campeonato. Gostava de futebol e de árvore. Aos quinze deixou a cidade a bordo de navio cargueiro e recomeçou no Rio. Dos dezesseis aos dezessete trabalhou como treinador de peso-pluma. Depois carregou banana numa fazenda em Mazomba, perto de Itaguaí; viveu de pesca no litoral fluminense; foi professor primário num núcleo de pescadores no Recife; passou por São Paulo como garçom de boate.

Tentou Medicina em Natal e largou no segundo ano. Ganhou bolsa na Espanha e abandonou a vida acadêmica em uma semana para correr a Europa. O episódio que mais pesa na lenda profissional é outro: a temporada com os irmãos Villas-Bôas pelos rios da região do Araguaia, no contato com garimpo e com povos indígenas. Dali saiu o romance de estreia, Banana Brava, de 1942.

Em 1941, na Escola Nacional de Belas Artes do Rio, posou para o escultor Bruno Giorgi no Monumento à Juventude. O corpo que ganhava a vida como modelo e como sparring é o mesmo que depois escreveria menino magro, surra e fome com a precisão de quem já tinha andado descalço de verdade.

  • Nadador de rio e de barra, ainda menino, em Natal.
  • Sparring e treinador de boxe peso-pluma no Rio.
  • Carregador de banana, pescador, professor primário, garçom, modelo, ator e romancista.
  • Companheiro de travessia dos Villas-Bôas no Araguaia, matéria de Banana Brava.

O método: anos ruminando, dias batendo à máquina

José Mauro descreveu o próprio ofício sem mistério de gabinete. Escolhia o cenário, ia até o lugar, estudava o chão. Para Arara Vermelha, disse ter andado cerca de 450 léguas de sertão. Só depois construía o romance inteiro na cabeça — diálogo incluso — e aí sentava à máquina. “Escrevo meus livros em poucos dias. Mas em compensação passo anos ruminando ideias.”

Trabalhava a qualquer hora. Entrava em transe, parava quando os dedos doíam. Podia escrever os capítulos na ordem ou aos saltos, porque o livro já estava “pronto” antes da primeira lauda. A frase parece pose; combinada com a tiragem, vira hábito de quem escrevia para ser lido em voz alta, não para comissão de tese.

Na adolescência, ainda em Natal, já lia José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Paulo Setúbal. A prosa oral do engenho e a fala de beira de rio cabem nesse gosto: ele quer o ouvido do leitor, não o carimbo da faculdade. Quem navega literatura brasileira do século XX esbarra nele pelo volume de leitores, não pelo índice das histórias oficiais da crítica.

Cinema, televisão e o Jabuti que não veio do Zezé

Antes de virar o autor do pé de laranja lima, José Mauro já era cara de tela. Atuou em Modelo 19 (prêmio Saci de ator coadjuvante), Floradas na Serra, Canto do Mar — deste escreveu o roteiro —, Na Garganta do Diabo (prêmio Governador do Estado de melhor ator), A Ilha e Mulheres e Milhões (Saci de melhor ator do ano). Também passou por Caiçara e por trabalhos em televisão. O IMDb registra a ficha: escritor e ator, não apenas “pai do Zezé”.

O selo institucional chegou em 1967, um ano antes do clássico escolar. As Confissões de Frei Abóbora (1966) levou o Prêmio Jabuti na categoria Romance. É o dado que desmonta a lenda preguiçosa de que ele só existiu quando a criança falou com a árvore. O público já o tinha achado em 1962, com Rosinha, Minha Canoa, o pescador Zé Orocó e a canoa que pensa. A Sorbonne chegou a usar a obra em curso de português.

Meu Pé de Laranja Lima, Vazante, Arara Vermelha e Rua Descalça foram ao cinema. O clássico de 1968 virou filme em 1970 (Aurélio Teixeira) e de novo em 2012 (Marcos Bernstein), além de telenovelas em 1970 na TV Tupi e em 1980 e 1998 na Band. O menino de Bangu virou grade de programação.

O Meu Pé de Laranja Lima e o ciclo de Zezé

O romance de 1968 conta Zezé, seis anos, família numerosa e pobre em Bangu, pai desempregado, mãe na fábrica, irmãos que se cobrem. O menino apronta, apanha, lê cedo demais e conversa com Minguinho, o pé de laranja lima. Manuel Valadares, o Portuga, entra como afeto adulto que o resto da casa não consegue ser. Nos primeiros meses, a edição vendeu mais de 217 mil exemplares. A conta que a Melhoramentos e a imprensa repetem nas reedição do centenário passa de dois milhões no Brasil; a obra foi traduzida para dezenas de línguas e adotada em escola como se fosse cartilha de sentimento.

O ciclo autobiográfico não segue a ordem do calendário. Doidão (1963) pega a juventude. Vamos Aquecer o Sol (1974) devolve Zezé aos dez anos em Natal, com tios e colégio católico. As Confissões de Frei Abóbora trata da vida adulta. Quem lê só o volume escolar perde o rio, o hospício, o garimpo, a salina de Macau em Barro Blanco (1948) e o primeiro livro, Banana Brava.

A crítica francesa Claire Baudewyns falou da “alquimia entre mundo real e mundo imaginário”. No Brasil, o diagnóstico mais honesto ainda é o da Prefeitura de São Paulo no texto da biblioteca que leva o nome dele: figura controvertida, marginalizada pela crítica, aclamada pelo público, autor de largas tiragens e reedições. No centenário, em 2020, a Melhoramentos relançou a obra adulta — Banana Brava, Barro Blanco, Longe da Terra, Vazante — para lembrar que o escritor de Zezé também escreveu para gente grande.

Como ler José Mauro hoje

Começar por O Meu Pé de Laranja Lima é o caminho que a escola já abriu. Quem aguentar a surra e a árvore pode seguir para Vamos Aquecer o Sol e Doidão, e só então sair do menino: Rosinha, Minha Canoa para o rio, Banana Brava para o garimpo. Não é degustação de catálogo; é o mesmo ouvido em idades diferentes.

O risco da leitura atual é tratar o livro como fábula suave. Zezé apanha. A casa é curta de comida e de carinho. Luiz Antonio Aguiar, que adaptou o romance para quadrinhos na Melhoramentos, disse o óbvio que ainda incomoda: criança apanha dentro de casa, e a imaginação é o que impede o menino de desistir. Isso não venceu prazo de validade.

José Mauro parou em São Paulo, em 1984, depois de vinte dias em coma. Deixou bibliotecas com o nome dele, Google Doodle nos 95 anos, ônibus pintado, filme, novela e uma pergunta que o leitor brasileiro não cansa de fazer: aquele menino era ele? A resposta útil é outra. Ele fez da infância matéria, da estrada ofício, e do choro alheio uma prosa que ainda vende — e ainda fura a crítica que preferiu olhar para o lado.

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O Meu Pé de Laranja Lima
O Meu Pé de Laranja Lima
Romance de 1968 sobre Zezé, menino de Bangu que conversa com um pé de laranja lima no meio da fome e da surra.
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Rosinha Minha Canoa
Rosinha Minha Canoa
Primeiro sucesso popular de José Mauro: Zé Orocó, o Araguaia e a canoa Rosinha, que pensa e sente.
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Doidão
Doidão
Romance de 1963 sobre a juventude de Zé em Natal: pai adotivo, amor intempestivo e fome de liberdade.
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Banana Brava
Banana Brava
Estreia de 1942: Joel deixa a família e cai no garimpo do Araguaia, com Gregorão e a violência da bateia.
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