Contexto e proposta de Boca do inferno
Boca do inferno é o livro em que Otto Lara Resende quebrou a infância mineira no meio. Publicado em 1957 pela José Olympio, o volume reúne sete contos em que meninos e meninas saem de repente do mundo protegido e caem no conhecimento do pecado, da morte, do porão e da família católica. Não há nostalgia fácil. Há sol de cidade pequena, confessário, gruta, quarto quieto e uma prosa que anda limpa até o ponto em que o chão some.
A recepção contemporânea foi dura. Otto falou depois em saraivada de incompreensões, quase insultos. O pai, Antônio de Lara Resende, homem do catolicismo conservador de São João del-Rei, também reagiu mal à visão de uma infância mais próxima do inferno do que do céu. O autor, que se declarava católico e ao mesmo tempo um poço de contradições, não suavizou o material. Preferiu reescrever. Durante décadas o livro ficou fora do comércio não por falta de pedido, mas porque ele adiava a reedição enquanto recosía frases.
A edição atual da Companhia das Letras devolve o texto a quem quer entender o Otto ficcionista, aquele que os amigos descreviam como nublado. Quem conhece só o cronista da Folha encontra aqui o outro temperamento: controle formal extremo, tema pesado, Minas Gerais como cenário moral e não como cartão-postal. É o volume certo para quem busca o contista, não o frasista de salão.
Os sete relatos compartilham protagonistas no fim da infância, lançados de um momento para o outro no conhecimento tenebroso das coisas. A revelação acontece no espaço escondido da casa e da cidade: porão com cheiro de mofo, laje, moinho, quarto no meio da noite. A crítica posterior reconheceu o que a primeira leitura recusou: uma escrita que flui e, de repente, se interrompe, deixando à mostra o que a família mineira preferia guardar.
Para o leitor de hoje, Boca do inferno funciona como contrapeso necessário à lenda do conversador genial. Sem este livro, Otto vira só anedota de redação. Com ele, vira autor de uma obra curta, exigente e pouco afeita a consolo.




