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Foto de perfil de Otto Lara Resende

Otto Lara Resende

Nascimento: 1922 São João del-Rei, Minas Gerais, Brasil
Jornalista e escritor mineiro, imortal da ABL, cronista da Folha e autor de Boca do inferno e O braço direito; um dos quatro mineiros da literatura brasileira.

Nelson Rodrigues chegou a sugerir que alguém seguisse Otto Lara Resende pelas ruas do Rio para recolher as frases que ele largava no papo e vendê-las numa loja. O mineiro de São João del-Rei era, para os amigos, um conversador de ouro e, para a literatura brasileira, um contista bem mais sombrio do que a fama de frasista deixa entrever.

Quem busca Otto hoje costuma chegar por duas portas diferentes. De um lado, as crônicas tardias da Folha de S.Paulo, escritas quando ele já passava dos 69 anos. De outro, livros como Boca do inferno e O braço direito, em que infância, culpa católica e Minas Gerais aparecem sem doçura. Entre as duas portas está o jornalista que atravessou O Globo, Última Hora, a revista Manchete, o Jornal do Brasil e a TV Globo, até ocupar a cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras.

De São João del-Rei às redações do Rio

Otto de Oliveira Lara Resende nasceu em 1º de maio de 1922, em São João del-Rei, quarto dos vinte filhos do professor, gramático e memorialista Antônio de Lara Resende e de Maria Julieta de Oliveira. A data viraria piada sua: Dia do Trabalho, mas também feriado. Aos quatorze anos já dava aulas de francês. Aos dezoito, em Belo Horizonte, entrou em O Diário, jornal da Cúria Metropolitana, e daí não saiu mais da imprensa. Mais tarde resumiu a estreia com a frase que o define melhor do que qualquer currículo: entrou no jornalismo como cachorro entra na igreja, porque achou a porta aberta.

Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1945 e, no ano seguinte, mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital federal. A formação jurídica não o transformou em advogado de carreira. Serviu de ponte para as redações cariocas, onde passou a escrever crítica, política, cinema, editorial e crônica conforme o jornal pedia. Colaborou no Diário de Notícias, em O Globo, no Diário Carioca e no Correio da Manhã. Em 1951 assumiu, com Francisco de Assis Barbosa, a redação principal de Última Hora. Entre 1954 e 1956 dirigiu a revista Manchete.

Casou-se em 1950 com Helena Uchôa Pinheiro, filha do político mineiro Israel Pinheiro. Tiveram quatro filhos: André, Bruno, Cristiana e Helena. André Lara Resende seguiria caminho próprio na economia brasileira. Otto gostava de dizer que, como pai, se considerava uma mãe exemplar. A família aparece pouco na ficção e bastante nas cartas: o escritor que cultivava a conversa também cultivava o correio com uma obstinação que ele próprio chamava, em tom de brincadeira, de cocaína postal.

Os quatro mineiros e a vida intelectual

Ainda em Minas, Otto se juntou a Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. Foi ele quem batizou o grupo de “os quatro mineiros de um íntimo apocalipse”. A fórmula pegou porque descrevia ao mesmo tempo a amizade e o excesso: quatro jovens que liam, escreviam, discutiam fé, política e estilo, e depois se espalharam pelo Rio sem desfazer o laço. Em 1980, já maduros, gravaram o disco Os 4 mineiros, com leitura de textos e depoimentos.

Essa convivência importa para quem quer entender Otto porque a fama pública dele nunca foi só de autor de livros. Ele circulava nas redações, nas mesas, nas embaixadas e nas academias. Fundou, com Rubem Braga, Fernando Sabino e outros amigos, a Editora do Autor, onde saíram O retrato na gaveta (1962) e o romance O braço direito (1963). Em 1957, depois da recepção dura de Boca do inferno, aceitou o convite do Itamaraty e foi adido cultural em Bruxelas. Lá viveu, segundo ele, os três anos mais felizes da vida e deu aulas de Estudos Brasileiros na Universidade de Utrecht. No fim dos anos 1960 repetiria a função diplomática em Lisboa.

A peça Otto Lara Resende ou Bonitinha mas ordinária, de Nelson Rodrigues, estreou em 1962. O título desagradou o homenageado, que mesmo assim não rompeu com o dramaturgo. A anedota ajuda a medir o tamanho da figura: Otto já era personagem da conversa carioca antes de ser imortal da ABL.

O contista sombrio e o romance único

A estreia em livro veio em 1952, com os contos de O lado humano. Cinco anos depois, Boca do inferno colocou no centro da página uma infância mineira atravessada por pecado, medo, porão e revelação precoce. A crítica não poupou o volume. O pai, ligado ao catolicismo conservador de São João del-Rei, também reagiu mal. Otto, que se dizia um poço de contradições, seguia católico e, ao mesmo tempo, recusava a infância de cartão-postal.

Quem espera encontrar nas páginas a mesma leveza da conversa se engana. Amigos e leitores repetem o contraste: o Otto da mesa era solar; o Otto da ficção, nublado. O retrato na gaveta, As pompas do mundo (1975) e O elo partido e outras histórias (1991) continuam essa linha de apuro formal e tema pesado. Em entrevista, chegou a dizer que no fundo o único assunto é a morte, e que o resto é paisagem.

O braço direito é o único romance. Otto trabalhou nele por anos, reescreveu versões e ainda voltaria ao texto décadas depois. A história se passa no Asilo da Misericórdia da fictícia Lagedo, em Minas, narrada pelo zelador Laurindo Flores. Antonio Candido chamou o livro de poderoso e estranho. Em 1963 recebeu o Prêmio Lima Barreto. Em 1968 saiu na Inglaterra como The Inspector of Orphans. Em 1994, já depois da morte do autor, uma edição da Companhia das Letras foi reconhecida no Prêmio Jabuti de romance.

Jornal, televisão e a cadeira 39

Otto nunca tratou o jornalismo como bico de escritor. Foi redator, editorialista, diretor e entrevistador. Participou da fundação da TV Globo, apresentou ao vivo o quadro O pequeno mundo de Otto Lara Resende e, nos anos 1970, chegou à direção da emissora. Saiu do Jornal do Brasil em 1974, depois de uma passagem longa, e deixou a Globo em 1983. Também foi procurador do Estado do Rio de Janeiro, professor na PUC-Rio e, em 1992, integrou o Conselho Consultivo do Instituto Moreira Salles.

Em 3 de julho de 1979 foi eleito para a cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras, vaga com a morte de Elmano Cardim. Tomou posse em outubro, recebido em sessão que ele próprio ironizou: aos 57 anos, dizia ser talvez o primeiro acadêmico a empossar-se com os pais vivos. A cadeira, depois de sua morte, seria ocupada por Roberto Marinho. A coincidência diz alguma coisa sobre o lugar de Otto: um homem de letras que nunca deixou de ser homem de jornal e de televisão.

  • O lado humano (1952): estreia em contos, ainda próxima do cotidiano.
  • Boca do inferno (1957): infância mineira sem inocência, o livro que mais irritou a crítica da época.
  • O retrato na gaveta (1962): contos e novelas da Editora do Autor.
  • O braço direito (1963): romance único, reescrito ao longo da vida.
  • Bom dia para nascer (1993): crônicas da Folha, publicadas em livro depois da morte.

O cronista tardio da Folha

Otto escreveu crônicas a vida inteira, mas só virou cronista de regime no fim. Em 1º de maio de 1991, no próprio aniversário, estreou na página 2 da Folha com o texto “Bom dia para nascer”. Escreveu ali até 21 de dezembro de 1992: 508 crônicas em pouco mais de um ano e meio, três vezes por semana, enquanto o país atravessava o impeachment de Fernando Collor. A última, “Águia na cabeça”, saiu uma semana antes de sua morte, no Rio de Janeiro, em 28 de dezembro de 1992.

A reunião dessas crônicas, organizada primeiro por Matinas Suzuki Jr. e depois ampliada por Humberto Werneck, virou o volume Bom dia para nascer. É o Otto mais acessível para quem chega agora: prosa clara, assunto do dia, amigos mortos, língua portuguesa, Rio de Janeiro e política, sem o tom soturno da ficção. O ensaio póstumo O príncipe e o sabiá guarda outro recorte, o dos perfis. O arquivo pessoal, com milhares de cartas, fotografias e originais, está no Instituto Moreira Salles.

Por que Otto Lara Resende ainda é lido

Otto interessa a quem pesquisa literatura brasileira do século XX porque junta três ofícios que o mercado costuma separar: o jornalista de redação, o contista de rigor e o cronista de jornal diário. Não é o caso de escolher um só rótulo. A conversa célebre explica a lenda; os livros explicam a obra; a Folha explica por que o nome voltou à boca do leitor comum no início dos anos 1990.

Para começar, Boca do inferno mostra o ficcionista no ponto mais áspero. O braço direito mostra a ambição de romance. Bom dia para nascer mostra o homem público que, tarde, aceitou a crônica regular e descobriu ali uma audiência que a ficção nunca lhe dera com a mesma largueza. Quem quiser o retrato inteiro precisa das três frentes, e da paciência de não confundir o encanto da frase com a sombra da narrativa.

Perguntas frequentes sobre Otto Lara Resende

Quem foi Otto Lara Resende?

Foi jornalista e escritor brasileiro, nascido em São João del-Rei em 1922 e morto no Rio de Janeiro em 1992, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de contos, um romance e crônicas da Folha de S.Paulo.

Quais livros de Otto Lara Resende ler primeiro?

Boca do inferno é a porta da ficção. O braço direito é o romance. Bom dia para nascer é a porta das crônicas, mais leve e mais próxima do jornal.

Otto Lara Resende era só cronista?

Não. A crônica regular veio no fim da vida. Antes disso ele já era contista, romancista, diretor de redação, adido cultural e entrevistador de televisão.

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Projetos de Otto Lara Resende

Boca do inferno
Boca do inferno
Sete contos de Otto Lara Resende sobre a infância mineira, o pecado e a família católica, sem nostalgia fácil.
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O braço direito
O braço direito
Único romance de Otto Lara Resende: Laurindo Flores, zelador de um asilo em Minas, entre culpa, órfãos e redenção.
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Bom dia para nascer
Bom dia para nascer
Crônicas de Otto Lara Resende na Folha de S.Paulo, 1991-1992: política, amigos, Rio e a prosa que o tornou cronista tardio.
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O lado humano
O lado humano
Estreia em contos de Otto Lara Resende, de 1952: cotidiano, diálogo e o começo do ficcionista antes de Boca do inferno.
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