Contexto e proposta de O braço direito
O braço direito é o único romance de Otto Lara Resende e o livro que ele mais martelou. A primeira edição saiu em 1963 pela Editora do Autor, depois de anos de manuscrito. Otto voltaria ao texto em versões seguintes, inclusive décadas depois, como quem não consegue largar um caso. A edição da Companhia das Letras, com posfácio de Ana Miranda, apresenta o romance como ele quis deixar: denso, reescrito, sem pressa de agradar.
Laurindo Flores é zelador do Asilo da Misericórdia, na fictícia Lagedo, interior de Minas. Escreve um diário num casarão que ameaça desabar, entre órfãos, culpa, covardia e o sonho de apagar o que fez. Antonio Candido viu no livro uma linguagem habilmente construída e chamou o conjunto de poderoso e estranho. O protagonista é pequeno e, por isso, difícil: não pede identificação fácil, pede atenção ao ressentimento, à religiosidade e às injustiças miúdas de um orfanato católico.
O romance recebeu o Prêmio Lima Barreto na estreia. Em 1968 a editora inglesa André Deutsch publicou a tradução The Inspector of Orphans. Em 1994, a reedição brasileira entrou entre as obras reconhecidas no Prêmio Jabuti de romance. Nada disso fez Otto se reconciliar de todo com o livro. Nos cadernos, ele reclamava do tempo gasto para se livrar da história. O arquivo no Instituto Moreira Salles guarda versões, anotações e a teimosia de quem recusava a frase quase pronta.
Quem chega a Otto pelo jornal encontra aqui o outro extremo. Não é crônica de atualidade. É um universo fechado, mineiro, moralmente instável, escrito com a mesma obsessão de precisão que ele cobrava de si na imprensa. Vale para quem quer o romancista, não o repertório de frases célebres.
O volume interessa também a quem pesquisa a prosa brasileira dos anos 1960 fora do cânone mais ensinado. Otto não acumulou romances. Acumulou um só, relido até o osso. Essa economia é parte do caráter do livro: pouca extensão de catálogo, muita pressão sobre cada página.




