Contexto e proposta de Bom dia para nascer
Bom dia para nascer reúne as crônicas que Otto Lara Resende escreveu na página 2 da Folha de S.Paulo entre 1º de maio de 1991 e 21 de dezembro de 1992. O título veio da estreia, publicada no dia em que ele fazia 69 anos. Otto explicou o mote com o humor que o tornou famoso: bom dia para nascer não por ser o Dia do Trabalho, mas por ser feriado. Daí em diante saíram 508 textos, três vezes por semana, até uma semana antes de sua morte.
É o Otto mais aberto ao leitor de jornal. Humberto Werneck, que organizou a edição ampliada da Companhia das Letras, compara o cronista ao ficcionista: a prosa da Folha é leve; a da ficção, agoniada. Os assuntos passam pela Era Collor, pelos amigos mortos, pelos costumes do Rio, pela língua portuguesa e pelos acontecimentos que o noticiário largava na mesa. Otto não fingia distância. Lia o jornal, respondia no dia seguinte e ainda cabia, no mesmo espaço, uma observação sobre Drummond, Vinicius de Moraes ou Nelson Rodrigues.
A primeira reunião em livro, em 1993, foi organizada por Matinas Suzuki Jr. A edição de 2011 acrescentou dezenas de crônicas que tinham ficado de fora. O volume não pede ordem rígida. Pode-se entrar por uma nota política, por um retrato de amigo ou por uma nota de costume e sair com a mesma impressão: um estilista que, tarde, aceitou a crônica regular e descobriu ali o público que a ficção lhe dera com parcimônia.
Para quem quer conhecer Otto sem começar pelo porão de Boca do inferno, este é o caminho mais hospitaleiro. Continua sendo literatura. Só que literatura feita para a página 2, com data, assunto e uma frase capaz de sobrar depois que a notícia esfria.
O livro também documenta o fim de um tipo de presença pública: o jornalista-escritor que ainda falava a um leitor diário, em papel, no centro do debate nacional. Por isso permanece útil tanto a quem lê crônica por prazer quanto a quem quer entender o Brasil do início dos anos 1990 pela voz de um mineiro já velho, lúcido e sem paciência para frase oca.




