Em 1777, o Tratado de Santo Ildefonso marcou uma faixa de terra entre os reinos de Portugal e Espanha onde nenhum dos dois mandava por inteiro. Vitor Ramil pegou esse nome, Campos Neutrais, e o colocou num disco de 2017. Não é aula de tratado. É o jeito dele de dizer que o Rio Grande do Sul, na canção, continua zona de mistura: português, castelhano, milonga, metal e voz baixa.
A capa mostra um pátio de estátuas, colunas e duas figuras pintadas de azul, com o título em letra fina no céu. O cenário parece ruína de praça, não estúdio. Combina com um álbum que trata fronteira como paisagem habitada, não como metáfora solta.
Onde e com quem foi feito
É o primeiro disco de Ramil gravado em Porto Alegre, fora as partes de Santiago Vazquez e Carlos Moscardini, feitas em Buenos Aires. A gravação e a mixagem inicial ficaram com Moogie Canazio, que depois mixou o trabalho em Los Angeles. Os metais são do Quinteto Porto Alegre, com arranjo de Vagner Cunha. A percussão passa por Santiago Vazquez. Entram ainda Chico César, Zeca Baleiro, Gutcha, Carlos Moscardini e Felipe Zancanaro.
O repertório, no texto do site oficial, traz quinze canções inéditas dele, algumas em parceria, e duas versões: Sara, de Bob Dylan, e Tierra, do galego Xöel Lopez. As parcerias citadas são com Chico César, Zeca Baleiro, Angélica Freitas, Joãozinho Gomes e António Botto. Stradivarius é poema de Angélica Freitas musicado por ele. Labirinto, com Zeca Baleiro, começou em Buenos Aires, numa sequência de quatro acordes que se repetiam enquanto a melodia tentava não repetir. O videoclipe saiu depois, com realização de Antonio Ternura.
O que o título organiza
No texto do próprio site, os Campos Neutrais históricos viram emblema da fronteira do Rio Grande do Sul e, no imaginário de agora, ficam ligados a liberdade, diversidade de gente e de língua, miscigenação e invenção. Isso conversa com a frase antiga dele, a de que o Sul não está à margem de um centro, e sim no centro de outra história. O disco de 1997 tinha dado o método. Este aplica o método vinte anos depois, com metais e com a cidade de gravação de volta a Porto Alegre.
Houve campanha de financiamento coletivo para tirar o álbum, como já tinha acontecido em 2013 com Foi no mês que vem. O songbook homônimo, também de 2017, reúne as partituras das quinze canções, com textos e fotos. Disco e songbook são peças vizinhas, não a mesma coisa. O CD é a escuta. O songbook é a partitura.
Indicações e escuta
O site registra duas indicações ao Grammy Latino: melhor álbum de música brasileira e melhor arranjo, este pela música Campos Neutrais, arranjada por Vagner Cunha. A indicação não muda o que se ouve. Situa o disco fora do circuito só regional. Quem compara com Ramilonga nota o elenco maior e a gravação gaúcha. Quem compara com délibáb nota menos Borges e mais parceria brasileira recente, inclusive a poeta pelotense Angélica Freitas, que no álbum seguinte, Avenida Angélica, ocuparia o disco inteiro.
- Ano: 2017, selo Satolep Music
- Gravação: Porto Alegre, com partes em Buenos Aires
- Mixagem final: Moogie Canazio, em Los Angeles
- Repertório: quinze inéditas e duas versões
- Indicações: duas, no Grammy Latino, álbum e arranjo
Quem compra este CD
Compra quem quer o Ramil da fase recente em objeto físico, não só em plataforma. A loja oficial vende o CD com a capa das estátuas. Não é coletânea nem reedição de Ramilonga. É disco de canções novas, com a fronteira do século XVIII no título e a milonga ainda por baixo. Para partir da faixa que explica o disco, a própria Campos Neutrais é o melhor começo. Para ouvir a parceria com Angélica Freitas antes do álbum só dela, Stradivarius é a ponte.




