Em 1997, onze milongas recusaram o gaúcho de cartaz. Vitor Ramil gravou Ramilonga e deu a essas canções sete cidades: Rigor, Profundidade, Clareza, Concisão, Pureza, Leveza e Melancolia. Não era roteiro de turismo. Era um filtro para cantar o extremo sul sem o figurino do tradicionalismo.
Vitor Hugo Alves Ramil nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 7 de abril de 1962. É o caçula de uma casa em que a música já estava antes dele. Os irmãos mais velhos são Kleiton e Kledir. O primo Pery Souza também é músico. Quem procura o nome quer entender como um compositor pelotense atravessou disco, romance e ensaio sem separar a fronteira com o Uruguai e a Argentina do próprio ofício. A resposta está em música e literatura ao mesmo tempo, com uma cidade lida ao contrário no meio: Satolep.
Quem é Vitor Ramil
Ele é cantor, compositor, violonista e escritor. O site oficial lista onze álbuns entre Estrela, Estrela (1981) e Campos Neutrais (2017). A discografia segue com Avenida Angélica (2022) e Mantra Concreto (2024). Nos livros, o mesmo site registra Pequod (1995), Satolep (2008), A primavera da pontuação (2014), o ensaio A estética do frio, conferência de Genebra (2004), e dois songbooks.
A maior parte da letra e da música do repertório é dele. Também musicou poemas de Jorge Luis Borges, João da Cunha Vargas, Angélica Freitas, Fernando Pessoa e Paulo Leminski. Compôs com Chico César, Jorge Drexler, Kleiton e Kledir e Zeca Baleiro. Versionou Bob Dylan e o galego Xöel Lopez. Não é um intérprete de sucessos alheios. Trata poema, milonga e parceiro do Prata como matéria do mesmo trabalho.
A casa de Pelotas e os discos dos anos 1980
Em setembro de 2026, ao Brasil de Fato, ele se descreveu como o sexto filho de uma família em que todo mundo antes dele tocava, cantava e compunha. O dado explica o começo cedo. Aos 18 anos gravou Estrela, Estrela, pela Polydor, com Egberto Gismonti, Wagner Tiso e Luis Avellar, e com Zizi Possi e Tetê Espíndola. Gal Costa regravou a faixa-título no disco Fantasia.
Em 1984 veio A paixão de V segundo ele próprio, produzido pelos irmãos. Eram 22 canções, da música medieval ao carnaval de rua, de orquestra a instrumento de brinquedo. Desse disco, Mercedes Sosa gravou a milonga Semeadura. Em 1987, já no Rio depois de Porto Alegre, lançou Tango: oito canções, elenco menor, com Nico Assumpção, Hélio Delmiro, Márcio Montarroyos, Léo Gandelman e Carlos Bala. Entre um disco e outro nasceu o Barão de Satolep, nobre pelotense pálido e corcunda, alter ego de palco que misturava música, poesia, humor e teatro.
Satolep não é o nome oficial da cidade
Satolep é Pelotas lida de trás para a frente. É anagrama, não palíndromo. Ele usa a palavra desde a juventude para uma Pelotas interna, não a do mapa oficial. A frase que o site repete, sobre o Rio Grande do Sul onde ele vive e trabalha, é direta: não estamos à margem de um centro, mas no centro de uma outra história.
O primeiro livro, Pequod, saiu em 1995 pela Artes e Ofícios, em Porto Alegre. A ficção parte da infância, do pai e de andanças pelo extremo sul e pelo Uruguai. O nome vem do baleeiro de Melville, mas o navio fica na epígrafe: um filho tenta recompor o pai, chamado Ahab, e um móvel de 49 gavetas herdado do avô. O livro rendeu o Prêmio Açorianos de Literatura como autor revelação e saiu na França em 2004, pela L'Harmattan. Foi também nos anos 1990 que ele deixou o Rio e voltou a viver no Sul. À beça, de 1995, tiragem limitada de uma revista de Porto Alegre, foi o primeiro ensaio sonoro da estética do frio.
A estética do frio
Em Ramilonga a milonga deixa de ser ornamento e vira a forma em que o linguajar do campo e a fala da cidade cabem na mesma canção. Sitar e tabla entram ao lado do violão. Em 2026 ele repetiu que o disco foi um marco zero: o ponto em que achou um jeito de cantar o imaginário regional fora do folclore tradicionalista e do nativismo. As sete cidades não descrevem um pampa genérico. Organizam o que a canção pode cortar fora.
Em 19 de junho de 2003 ele leu o ensaio em francês no Théâtre Saint-Gervais, em Genebra, na programação Porto Alegre, un autre Brésil. A Satolep Livros publicou o texto bilíngue em 2004. Em setembro de 2026 ele disse ter acabado de escrever um livro novo sobre o mesmo assunto, com saída prevista para o ano seguinte. O volume ainda não saiu.
Buenos Aires e quem gravou as canções
Tambong (2000) e Longes (2004) foram gravados em Buenos Aires e produzidos por Pedro Aznar. O primeiro saiu em português e em espanhol, com Egberto Gismonti, Lenine, Chico César e João Barone. O encarte de Longes traz fotos dele e da mulher, Ana Ruth, e fragmentos do romance Satolep, então inédito. Délibáb (2010), também em Buenos Aires, junta poemas de João da Cunha Vargas e milongas de Borges. Caetano Veloso entra em Milonga de los morenos. O título húngaro, na explicação dele, nomeia uma miragem da planície.
O site oficial enumera quem levou canções dele para outros discos:
- Mercedes Sosa, Gal Costa, Zizi Possi e Maria Rita
- Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ney Matogrosso e Lenine
- Fito Páez, Jorge Drexler, Pedro Aznar e Chico César
- Kleiton e Kledir, Zeca Baleiro, MPB4, Kátia B, Gutcha e o filho Ian Ramil
Ian aparece no álbum duplo Foi no mês que vem (2013), em que Ramil revisita o próprio repertório com vários desses nomes. Os prêmios que o site confirma são dois Prêmios da Música Brasileira, melhor cantor por voto popular com Satolep Sambatown (2008, com Marcos Suzano) e melhor cantor regional com délibáb (2011), além de dezoito Prêmios Açorianos de Música.
Livros que não servem de encarte
Satolep, Cosac Naify, 2008, 288 páginas, acompanha Selbor, fotógrafo que volta à cidade no dia em que completa trinta anos e cruza João Simões Lopes Neto, Lobo da Costa e o cineasta Francisco Santos. O ponto de partida são fotos do Álbum de Pelotas (1922). A primavera da pontuação, também Cosac Naify, 2014, troca gente por sinal gráfico no reino de Ponto Alegre. Ele contou, em 2026, que essa é a última ficção publicada e a que mais o desafiou, escrita depois de um tempo na biblioteca da mulher, linguista. A ideia vinha de brincadeiras à mesa em 2002.
O que veio depois de Ramilonga
Campos Neutrais (2017) toma o nome da faixa que o Tratado de Santo Ildefonso, de 1777, deixou neutra entre Portugal e Espanha. Foi gravado em Porto Alegre, com partes em Buenos Aires, e mixado por Moogie Canazio em Los Angeles. Teve duas indicações ao Grammy Latino, melhor álbum de música brasileira e melhor arranjo da faixa-título. Stradivarius, nesse disco, já é poema de Angélica Freitas. O álbum Avenida Angélica (2022) inteiro parte dos livros dela. Isabel Ramil assina vídeo, luz e cenografia do espetáculo.
Mantra Concreto saiu em 10 de outubro de 2024. Em julho de 2021, no isolamento, ele releu Toda poesia, de Leminski, e em cerca de catorze dias compôs treze das quinze faixas. A milonga continua na base. Numa faixa, a bateria vira máquina de escrever.
Onde ouvir e ler
O site é vitorramil.com.br. A Satolep Music é a empresa no nome dele: empresário individual em Pelotas, CNPJ 01.423.316/0001-59, ativa desde 12 de setembro de 1996, com discos, livros e produção musical. O contato de shows no site é Ramil e Uma Produções. O canal de YouTube Satolep Music é o oficial.
O retrato de 29 de janeiro de 2010 é de Ana Ruth Miranda para a Cultura RS: ele sentado entre poltronas de teatro, contra um muro de tijolo. Em 23 de setembro de 2026 dividiu o palco do Teatro Bancários, em Porto Alegre, com o uruguaio Daniel Drexler. O que já está publicado continua sendo a milonga, os três livros de ficção e a cidade lida ao contrário.





