René Descartes acorda no Recife do Brasil holandês, perde o método e o livro chama isso de romance-ideia. Quem publicou o Catatau em 1975 foi Paulo Leminski Filho, nascido em Curitiba em 24 de agosto de 1944. Poeta, tradutor, redator de publicidade, professor de cursinho, letrista e faixa-preta de judô, ele morreu na mesma cidade em 7 de junho de 1989, aos 44 anos.
Quem procura o nome hoje quase sempre chega por um verso curto, por uma canção gravada por outra pessoa ou pelo volume Toda Poesia, de 2013. A vida pública, porém, não cabe nesse recorte. Leminski atravessou o concretismo paulista, a geração mimeógrafo, a redação de jornal e a agência de anúncio sem largar o latim que tinha aprendido adolescente num mosteiro. Em Curitiba, a Pedreira Paulo Leminski, no bairro Abranches, guarda o nome dele num dos grandes espaços de show da cidade. Em 2025, a Festa Literária Internacional de Paraty o escolheu como escritor homenageado.
Onde nasceu e com quem cresceu
O parto foi no Hospital e Maternidade Victor Ferreira do Amaral, no Água Verde. O pai, também Paulo Leminski, era militar de origem polonesa. A mãe, Áurea Pereira Mendes, vinha de pai português e de mãe brasileira de origem negra e indígena. O próprio poeta tratava essa mistura como parte do que era, não como detalhe de rodapé. Por causa das transferências do pai, a família saiu de Curitiba na infância e passou por Itapetininga, no interior de São Paulo, por Itaiópolis, em Santa Catarina, e por Rio Negro, na divisa. A volta à capital paranaense veio com a escola.
Estudou no Colégio Estadual Dr. Caetano Munhoz da Rocha e no Colégio Paranaense, dos maristas. Em 1958, com treze anos, foi para o Mosteiro de São Bento, no centro de São Paulo, e ficou pouco mais de um ano. Lá estudou latim, teologia, filosofia e literatura clássica. Queria ser monge. O pai preferia que ele seguisse a carreira militar. A vocação religiosa não durou. De volta a Curitiba, retornou ao Colégio Paranaense e depois estudou no Colégio Estadual do Paraná, ainda lendo gregos, latinos, franceses e a Bíblia.
O que aconteceu antes do primeiro livro
Em 9 de fevereiro de 1963 casou-se com a desenhista Nevair Maria de Sousa, a Neiva. O casamento se desfez em 1968, embora o divórcio formal só viesse em 1976. Entrou nas faculdades de Direito e de Letras e não concluiu nenhuma das duas. No mesmo 1963 foi a Belo Horizonte para a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda e conheceu Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, os três nomes da poesia concreta. Em 1964 estreou com quatro poemas na revista Invenção, dirigida por Pignatari.
A partir de 1965 deu aula de literatura, história e redação em cursinho pré-vestibular. Foi numa dessas aulas que surgiu a ideia do futuro romance. Em 1966 ficou em primeiro lugar no II Concurso Popular de Poesia Moderna, do jornal O Estado do Paraná. Por essa época começou no judô e, quatro anos depois, chegou à faixa-preta. Também ensinou o esporte. Em 1967 fundou o Grupo Áporo, cujo manifesto dizia combater o provincianismo cultural de Curitiba, e começou a escrever o que viria a ser o Catatau.
Em 1968 passou a viver com a poeta Alice Ruiz. Os dois ficaram mais de um ano numa comunidade e saíram com o nascimento do primeiro filho, Miguel Ângelo. Entre 1969 e 1970 Leminski trabalhou no Rio de Janeiro como copidesque, tradutor e escritor de jornal, em O Globo, no Pasquim e na Reuters. Voltou a Curitiba para viver de redação publicitária.
Por que o Catatau não parece os outros livros dele
O Catatau saiu em 1975, em edição do autor, com dois mil exemplares, depois de cerca de oito anos de escrita. O ponto de partida tinha sido o conto Descartes com Lentes, finalista do I Concurso Nacional de Contos do Paraná em 1968, sem levar o prêmio. Leminski expandiu o texto até um monólogo em que o filósofo francês enfrenta o trópico, a língua e o Brasil de Maurício de Nassau. Ele mesmo chamou o livro de romance-ideia. A prosa é densa, cheia de trocadilho e de invenção verbal, e fica longe do poema de quatro linhas pelo qual muita gente o reconhece hoje.
Como a poesia curta virou livro de circulação nacional
Antes de ter editora grande, Leminski publicava por conta própria ou com amigos. Em 1976 saiu Quarenta Clics em Curitiba, com fotos de Jack Pires: quarenta poemas e quarenta imagens. Em 1980 vieram Não Fosse Isso e Era Menos, Não Fosse Tanto e Era Quase e Polonaises. Esses livros, mais poemas posteriores, formaram Caprichos e Relaxos, publicado em 1983 pela Brasiliense por iniciativa de Luiz Schwarcz. Foi o volume que tirou o poeta do circuito independente e o colocou numa prateleira nacional.
O poema que ele preferia era breve. Havia haicai, piada, gíria, ditado virado do avesso, letra de canção e, ao mesmo tempo, a lição visual dos concretos: página sem maiúscula, palavra colada, diagrama. Matsuo Bashô, de quem escreveu uma biografia em 1983, está nesse caminho curto. O último livro de poemas publicado em vida foi Distraídos Venceremos, de 1987, dedicado a Alice Ruiz. Ela observou que o título conversa com o livro anterior, mas que os poemas daqueles quatro anos de escrita puxam para um ceticismo maior.
Tradução, biografia e o trabalho que pagava a conta
Quase metade do que Leminski publicou é tradução. Entre 1983 e 1986 verteu para o português, entre outros, Walt Whitman, John Fante, Lawrence Ferlinghetti, James Joyce, Alfred Jarry, Petrônio, Yukio Mishima, John Lennon e Samuel Beckett. Um perfil publicado no El País registra que ele falava inglês, francês, latim, grego, japonês e espanhol. A frase curta de agência e o verso mínimo saíam da mesma oficina: as duas coisas exigiam corte.
Na mesma década escreveu quatro biografias curtas, depois reunidas no volume Vida: Cruz e Sousa, Matsuó Bashô, Jesus e Leon Trótski. Não são panfletos de admiração solta. Em Bashô e em Jesus há tradução no meio da narrativa, haicais e trechos de evangelho. No fim dos anos 1970, ainda na Grafipar, de Curitiba, ele e Alice Ruiz escreveram histórias em quadrinhos desenhadas por Cláudio Seto, Julio Shimamoto, Flavio Colin e Itamar Gonçalves.
- poeta e ensaísta, com Anseios Crípticos em 1986;
- tradutor de poesia, romance e texto antigo;
- biógrafo de Bashô, Cruz e Sousa, Jesus e Trótski;
- redator de publicidade e professor de cursinho;
- letrista gravado por outros músicos;
- judoca faixa-preta e professor de judô.
A casa do Pilarzinho e a canção
Os primeiros acordes ele aprendeu com o irmão, Pedro Leminski Neto, e seguiu compondo sem escola formal. Teve parceiros como Moraes Moreira, Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik, Guilherme Arantes e Paulinho Boca de Cantor. Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Zizi Possi, Zélia Duncan e Arnaldo Antunes gravaram letras suas. A casa do bairro Pilarzinho, em Curitiba, virou parada de quem passava pela cidade: Moraes Moreira, Gal Costa, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ademir Assunção e Itamar Assumpção estiveram lá. Com Alice, Leminski teve três filhos. Miguel Ângelo morreu em 1979, aos dez anos, de linfoma. Áurea Alice nasceu em 1971. Estrela Ruiz Leminski, nascida em 1981, gravou em 2014 o disco Leminskanções, com 25 composições do pai. Gilberto Gil escreveu a canção Estrela para ela.
O que ficou depois de junho de 1989
Entre 1988 e 1989, em São Paulo, Leminski foi colunista do Jornal de Vanguarda, apresentado por Doris Giesse na Rede Bandeirantes. Em abril de 1989, de volta a Curitiba, estreou coluna na Folha de Londrina. Morreu em 7 de junho de 1989, no Hospital Nossa Senhora das Graças, por agravamento de uma cirrose hepática. No ano da morte saíram a segunda edição do Catatau e o livro juvenil A Lua no Cinema. La Vie en Close veio em 1991, com poemas inéditos. Metaformose, de 1994, ficou em terceiro lugar no Jabuti de poesia de 1995.
Em 2013 a Companhia das Letras publicou Toda Poesia, organizada com Alice Ruiz, que acompanhou a obra desde o começo. O volume junta mais de 600 poemas, devolve livros que estavam fora de catálogo e traz apresentação de Alice, posfácio de José Miguel Wisnik e um apêndice com textos de Caetano Veloso, Haroldo de Campos e Leyla Perrone-Moisés. Para um gênero que costuma vender pouco, a reunião circulou muito além da prateleira de poesia. Em 2022 o livro ganhou tradução para o inglês, feita por Charles A. Perrone e Ivan Justen Santana.
O nome também saiu do livro. A Pedreira Paulo Leminski, no Abranches, ocupa cerca de 100 mil metros quadrados e recebe shows de grande porte, com capacidade para mais de 30 mil pessoas. Em maio de 2025 Leminski recebeu, em caráter póstumo, a Ordem do Mérito Cultural no grau de Grã-Cruz. Em agosto do mesmo ano veio a Medalha de Mérito Cultural do Paraná. A homenagem da Flip, entre 30 de julho e 3 de agosto de 2025, fechou o ano em que ele completaria 81 anos: o leitor que chega pelo verso de bolso encontra, do outro lado, um escritor que também foi monge aprendiz, judoca, tradutor e redator.





