Catatau não é o livro do verso curto. É o texto em que Paulo Leminski passou cerca de oito anos para colocar René Descartes no Brasil holandês e deixar a frase europeia se perder no calor, na mata e no português inventado. Ele mesmo deu ao volume o rótulo de romance-ideia. Quem abre a primeira página esperando enredo com capítulos e desenlace vai achar outra coisa: um monólogo denso, satírico e difícil de citar em pedaço limpo.
De onde saiu o livro
A semente apareceu numa aula de história de cursinho, em meados dos anos 1960. Em 1968 Leminski inscreveu o conto Descartes com Lentes no I Concurso Nacional de Contos do Paraná. Ficou entre os finalistas e não ganhou. Em vez de guardar o texto na gaveta, esticou a hipótese até virar livro. A primeira edição saiu em 1975, feita pelo próprio autor, com dois mil exemplares. Durante anos o Catatau foi mais anunciado do que lido. Notas de jornal em Curitiba chegaram a tratar o término da escrita como notícia, antes mesmo de o volume existir na livraria.
O cenário é o Recife do tempo de Maurício de Nassau. Descartes, ou Cartésio, espera um oficial polonês da Companhia das Índias Ocidentais, Krzysztof Arciszewski, que deveria explicar aquele Brasil. O filósofo não recebe um mapa. Recebe natureza, gente e uma língua que não obedece ao método. A apresentação da edição da Iluminuras, assinada por Maurício Arruda Mendonça, aproxima o livro de uma linhagem de novela satírica e filosófica, a de Rabelais, Swift, Diderot e Defoe. O parentesco é de procedimento, não de cenário: o viajante erudito esbarra num mundo que a razão dele não organiza.
Para quem o texto foi feito
O leitor do Catatau costuma já ter passado por poesia concreta, por Guimarães Rosa ou por Joyce, ou então chega pelo nome de Leminski e descobre que o poeta do haicai também escreveu uma prosa quase ilegível de propósito. Não é porta de entrada. É o livro para quem quer ver o limite entre prosa e poema, neologismo, aforismo e paródia de relato de viajante. Marcelo Sandmann, professor da Universidade Federal do Paraná, descreveu o romance como um acerto de contas com as vanguardas com as quais Leminski tinha flertado na década anterior. Depois dele, a poesia do autor foi ficando mais próxima da canção e do verso de bolso, sem apagar essa experiência.
O que a edição de agora entrega
A edição impressa que segue no catálogo da Iluminuras tem 256 páginas, formato 16 por 23 centímetros, ISBN 978-85-7321-336-2. É essa a versão que a Amazon vende em capa comum, distinta da edição crítica da Travessa dos Editores, de 2004, e do e-book. O miolo continua sendo o texto de 1975, não uma seleção de poemas. Quem quer o Leminski da frase de quatro linhas encontra esse escritor melhor em Caprichos e Relaxos ou em Toda Poesia. Quem quer o prosador experimental encontra aqui.
O livro também explica uma parte da biografia que a poesia sozinha não mostra. Leminski era tradutor de Joyce, Beckett e Jarry. O Catatau é o lugar em que essa leitura vira obra própria, em português, com sotaque de Curitiba e de Recife holandês ao mesmo tempo. Não promete facilidade. Promete um clássico recente da prosa de invenção, ainda pouco lido se comparado à poesia reunida de 2013, e por isso mesmo ainda capaz de surpreender quem acha que já conhece o autor pelo verso solto.




